domingo, 6 de novembro de 2005

Cassação por larga margem

Baseados nos números da votação que elegeu Aldo Rebelo, deputados avaliam que José Dirceu terá mais votos pela condenação do que teve Roberto Jefferson

Alon Feuerwerker


Correio Braziliense, 6 de novembro de 2005 - O deputado federal José Dirceu (PT-SP) faz bem quando luta para adiar ao máximo a sessão do plenário que vai decidir sua cassação. Ao longo da semana, o Correio conversou com líderes partidários na Câmara e verificou que, se a votação fosse hoje, Dirceu seria condenado por larga margem. Até o próximo dia 23, ele precisa mudar a opinião de pelo menos 90 dos 513 colegas para ter alguma esperança de preservar o mandato.
As contas dos líderes se baseiam nos números do segundo turno da eleição em que Aldo Rebelo (PCdoB-SP) derrotou José Thomaz Nonô (PFL-AL), em votação secreta, e se elegeu presidente da Câmara. A comparação é pertinente, já que o destino de Dirceu também será decidido no voto secreto. Se pelo menos 257 deputados forem às urnas para condená-lo, ele será cassado e só poderá disputar eleição em 2016, aos 70 anos.
Os líderes partem da premissa, óbvia, de que o grosso dos 243 deputados que apoiaram Nonô votam contra Dirceu. São parlamentares do PSDB, PFL, PPS, PV e das alas oposicionistas do PMDB e do PP. Incluem ainda segmentos do PTB e mesmo do PL. É um estoque de votos francamente anti-PT e que espera colher a cabeça do ex-capitão do time de Luiz Inácio Lula da Silva .
Já entre os 258 eleitores do presidente da Câmara, a situação é mais dividida. Aldo teve a quase totalidade dos 121 votos do PT, PSB e PCdoB. Cálculos realistas indicam que Dirceu deverá ter uma perda de pelo menos 25. O comunista recebeu ainda apoio razoável nas bancadas do PP, PL e PTB, que até o momento pendem contra Dirceu.

Renan
Outros dois problemas estão no PDT e, principalmente, no PMDB. A legenda brizolista era aliada certa de Nonô e, na última hora, passou para o lado governista. A tendência agora é a ampla maioria votar pela condenação. Nos cerca de 45 deputados do PMDB planaltino, a situação é dramática. Quem comanda a maioria é seu desafeto político Renan Calheiros (AL), presidente do Senado eleito contra a forte oposição do então poderoso Dirceu. Ou seja, os números frios indicam hoje um estoque mínimo em torno de 340 votos anti-Dirceu. Para comparar, Roberto Jefferson foi cassado por 313.
A situação estaria menos complicada se o governo pusesse em ação o rolo compressor que elegeu Aldo. Não há sinal de que isso vá acontecer. Três parlamentares que foram ao Planalto nos últimos dias para tratar de assuntos diversos não notaram qualquer movimento em defesa do petista. Ao contrário. Ouviram que, para Lula, quanto antes o assunto estiver liquidado, melhor.
Paradoxalmente, vários deputados ouvidos pelo Correio já admitem que não há no processo provas materiais ou testemunhais contra o réu. As acusações recentes de que as verbas publicitárias de estatais teriam abastecido o caixa 2 petista colaboraram para aumentar as dúvidas sobre a culpa de Dirceu. Sabe-se que ele não tinha qualquer influência nessa área. Mas um líder oposicionista sintetiza a situação: "Ele (Dirceu) perdeu a batalha da opinião pública. Vai ser cassado, injustamente, como um símbolo de que a Casa não foi omissa diante da crise".

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