segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Agora advogado, Jefferson ainda acusa

Sem provas materiais, Jefferson tentará condenar fazendeiro como mandante de um crime

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 11 de novembro de 2005 - Enquanto arde em Brasília a fogueira sem fim da crise política que ele deflagrou em junho com as denúncias sobre o suposto mensalão, o ex-deputado e advogado Roberto Jefferson reinicia hoje, aos 52 anos, sua caminhada profissional. Será assistente da promotoria em Vera (MT), município de pouco mais de 10 mil habitantes, quase 500 quilômetros ao norte de Cuiabá.
O réu é um fazendeiro local, Vilmar Taffarel, irmão da ex-prefeita Isani Konerat. Ele é acusado de ser o mandante de um crime bárbaro. Às oito e meia da noite de 24 de novembro de 2001, o pistoleiro Charles da Silva bateu à porta da casa do então vereador Augusto Alba. Quem abriu foi Keila, a filha de 12 anos de Alba. Charles pediu um pouco de água. Keila entrou em casa e disse ao pai que estava com medo. Alba saiu, apenas a tempo de Charles começar a atirar. Alba correu para dentro da casa e Charles foi atrás, atirando. Uma das balas matou Keila.
A acusação sustenta que Taffarel mandou contratar o pistoleiro para eliminar um adversário político da irmã, prefeita quando o crime aconteceu. Alba havia sido aliado de Isani, mas rompeu com ela e passou a fazer denúncias contra a prefeitura. Seus alvos eram a contratação irregular de servidores, fraudes em obras feitas com dinheiro do estado e a utilização de máquinas da prefeitura por fazendeiros. O Ministério Público diz que Taffarel contratou o pistoleiro, utilizando-se de intermediários.
Jefferson chegou ao caso pelas mãos do deputado federal Ricarte de Freitas (PTB-MT), seu amigo e aliado. Alba pediu a Ricarte que o convidasse para ajudar a acusação depois de ver o então presidente do PTB em ação na tempestade política. Jefferson está no caso de graça, só cobrou as passagens e a hospedagem. Sua tarefa será difícil, pois não há provas materiais contra o fazendeiro Taffarel.
A dificuldade de encontrar provas que sustentem materialmente a acusação não é o único ponto em comum entre a batalha que Jefferson deixou para trás e a que ele vai travar hoje. Numa macabra coincidência, a recompensa oferecida pela morte de Augusto Alba era de R$ 30 mil. Como o crime desejado pelo mandante não se consumou, só R$ 5 mil foram pagos ao pistoleiro.

Serenidade
Jefferson interrompeu por alguns minutos a preparação do caso para receber o Correio no hotel em que está hospedado em Sinop, a 80 km. de Vera. Ele aparenta uma serenidade que contrasta com a tensão e agressividade que exibia quando estava no olho do furacão. “É o recomeço, volto para onde iniciei minha marcha”, diz, entre duas colheradas do sorvete trazido pela mulher.
Política? “Agora, só falo depois do julgamento”, responde. Na escala em Cuiabá, quarta-feira, evitou ceder às provocações dos jornalistas, que queriam vê-lo no ataque contra Pedro Henry (PP-MT), liderança política no estado e um dos deputados processados no Conselho de Ética por causa das acusações de Jefferson. Falou mal de Lula (“não gosta de trabalhar”, “malandro”, “preguiçoso”) e previu que o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, pode ser um forte candidato à Presidência da República em 2006.

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