segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Um personagem contraditório

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 29 de setembro de 2005 - O novo presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), é alagoano. Como seu grande ídolo na política, o marechal Floriano Peixoto. Quando a esquerda catarinense quis mudar o nome de Florianópolis, em protesto contra a história supostamente autoritária do segundo presidente brasileiro, Rebelo criticou duramente a iniciativa.
Rebelo é um personagem contraditório. Seus interlocutores devem estar preparados para longas explanações sobre o papel do Duque de Caxias na consolidação e manutenção da unidade nacional. Mas é um admirador e estudioso das rebeliões gaúchas que tentaram antecipar a instalação da República.
Os paradoxos se estendem ao terreno das relações com as Forças Armadas. Rebelo pertence ao partido que organizou a mais consistente experiência guerrilheira no Brasil, o Araguaia. Entretanto, suas relações com os militares são sólidas, pois sempre rejeitou o viés anti-militarista do pensamento de esquerda construído na resistência ao regimede 1964.
Rebelo iniciou-se na política como estudante de Direito da Universidade Federal de Alagoas. Certa vez, articulava uma chapa para a eleição direta do Diretório Central dos Estudantes. Recebeu informações de que ela seria cassada e a eleição, anulada com base no decreto-lei 477, o AI-5 universitário. Resolveu o problema aceitando a eleição indireta a indicando para a cabeça da chapa um estudante que contava com a simpatia da reitoria.
Em 1979, ajudou a reorganizar a União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi seu primeiro secretário-geral. No ano seguinte, elegeu-se presidente. Em 1981, o PCdoB mandou que se radicasse em São Paulo, para fazer política. Foi candidato a deputado federal em 1982 e 1986, sem sucesso. Eleito vereador na capital em 1988, conseguiu um mandato na Câmara dos Deputados dois anos depois. Desde então, reelege-se sucessivamente.
Antes de ser líder do governo Lula em 2003, era mais lembrado por projetos com traço folclórico. Inspirado numa iniciativa francesa, propôs restringir o uso de palavras estrangeiras. Recentemente, propôs aprovar o dia do Saci Pererê. Sua passagem pelo governo Lula pode ser dividida em duas etapas.
Em 2003, foi o líder que aprovou as reformas e outras medidas que contribuíram para construir as bases da retomada do crescimento da economia. Em maio daquele ano, chocou seu partido ao defender da tribuna a elevação das taxas de juros como necessária para o controle da inflação. Menos por convicção, mais por acreditar que poderia dar certo, defendeu desde o início a política econômica do ministro Antônio Palocci.
Foi chamado para a Coordenação Política em janeiro de 2004. Com quinze dias no cargo, viu explodir no seu colo o caso Waldomiro. Dois meses depois, articulou para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficasse neutro no debate sobre a emenda que permitiria a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado. Era um favor a seu amigo de longa data Renan Calheiros (PMDB-AL). Foi o início de uma sangrenta guerra com o PT, o então ministro José Dirceu (PT-SP), hoje deputado, e o então presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP).
Foi considerado demitido várias vezes, até que, finamente, deixou o governo em julho deste ano. Voltou a ser um deputado comum. Até que a renúncia de Severino Cavalcanti abriu-lhe caminho para ser o segundo na linha de sucessão da presidência da República. Foi a ocasião para que Renan retribuísse o favor ao conterrâneo. O episódio revelou um fato que só seus amigos conhecem: Rebelo é um sujeito de muita, muita sorte. Isso é também uma fonte de temores. "Só pode ser coisa deDeus", diz sempre, antes de lembrar que "um dia ele pode decidir que já passou da conta comigo".

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