sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Conselho pulveriza Dirceu

Mesmo com a decisão do Supremo que obriga uma nova votação, o julgamento político do ex-chefe da Casa Civil já foi feito. Deputados não pouparam críticas à conduta do petista

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 28 de outubro de 2005 - Contra apenas o voto da petista Angela Guadagnin (SP), o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprovou ontem o pedido de cassação do mandato do deputado federal José Dirceu (PT-SP), por supostamente ter comandado os repasses de recursos do caixa 2 petista a aliados. O placar final foi 13 a 1. Como no dia anterior na Comissão de Constituição e Justiça, base governista e oposição votaram maciçamente contra o ex-ministro da Casa Civil, que não foi à reunião, só mandou os advogados. Se uma frase pode sintetizar o estado de espírito dos integrantes do conselho, ela foi pronunciada pelo deputado Nelson Trad (PMDB-MS), quando deu posição favorável ao relatório de Júlio Delgado (PSB-MG) que pedia a cassação: “A alma política de José Dirceu merece uma temporada no inferno”.
O destino do petista no conselho já estava traçado e não deverá mudar se o processo tiver que ser refeito, por determinação do Supremo Tribunal Federal (leia mais na página 3), decisão que está nas mãos do presidente, Ricardo Izar (PTB-SP). A reunião de ontem apenas revelou o que já se sabia havia dias. Abandonado pelo Palácio do Planalto, o “ex-capitão do time” de Luiz Inácio Lula da Silva foi transformado em “símbolo”, como disse o gaúcho César Schirmer (PMDB). Um símbolo a desconstruir. “O objeto de um sacrifício ritual”, disse, reservadamente, um dos conselheiros.
Logo na abertura da discussão, os ex-companheiros de PT Chico Alencar (RJ) e Orlando Fantazzini (SP), ambos no PSol, foram para o ataque. Alencar lembrou que há exatamente três anos Lula estava escolhido presidente do Brasil, “o projeto das nossas vidas”, e que o comandante da vitória tinha sido Dirceu. Disse que “o grande escândalo” era na verdade o “seqüestro da esperança”, a construção da governabilidade sobre o que chamou de “cretinismo parlamentar”, numa referência à crítica marxista sobre a tendência de parlamentares votarem mais de acordo com os próprios interesses do que com os dos representados. Atacou Dirceu por supostamente querer “combater a direita com os métodos da direita” e notou que “os inimigos de classe agora querem se livrar dele”. Fantazzini foi na mesma linha. “Mais grave que a corrupção é o estelionato político”, disparou, ao também condenar as alianças com a “direita”.

Critérios
A defesa solitária do acusado foi exercida no voto em separado de Angela Guadagnin. Ela repetiu os argumentos de Dirceu sobre a ausência de provas contra ele a comparou o julgamento aos assim denominados Processos de Moscou, em que o então líder soviético Josef Stálin liquidou, fisicamente, seus adversários políticos da velha guarda do Partido Bolchevique no final da década de 1930. Ela defendeu que mesmo os critérios de “conveniência e oportunidade”, que comandam o julgamento político, não podem prescindir de fundamentação. E atacou Delgado: “O relator omitiu informações importantíssimas, tomou como verdade acusações irresponsáveis, respaldou seu voto em testemunhos de desafetos proferidos da tribuna ou em entrevistas, vale dizer, sem oferecimento de provas ou sob juramento”. Delgado defendeu-se: “Não aceito as acusações que me foram feitas. Eu não adulterei, nem tirei de contexto os depoimentos prestados no conselho para fazer meu relatório”.
Angela não sensibilizou os colegas. “É hora de reduzir a estatura de José Dirceu, para que ele fique do tamanho de seus colegas”, propôs Josias Quintal (PSB-RJ). “Há provas circunstancias indiscutíveis”, disse Marcelo Ortiz (PV-SP). Schirmer foi o único a isentar o acusado de corrupção. “Ele não se beneficiou pessoalmente, não pode ser acusado de corrupção, mas sim de conduta aética, de prática indecorosa”. O gaúcho questionou ainda por que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem sendo poupado. “Dirceu era o capitão, mas tinha chefe, comandante”, afirmou.
O ambiente do conselho não estava para brincadeiras. O baiano Colbert Martins (PPS) defendeu que caixa 2 deve resultar em cassação e opinou que o ex-presidente do PSDB, senador Eduardo Azeredo (MG), “será alcançado pela decisão” que for tomada na Câmara. “Vamos ter dois pesos e duas medidas para quem pegou dinheiro com Marcos Valério?”, questionou. Nenhum dos dois tucanos presentes, Gustavo Fruet (PR) e Carlos Sampaio (SP), respondeu.
No fim deu a lógica. Enquanto os advogados de Dirceu se preparavam para recorrer ao Supremo mais uma vez, Ricardo Izar comemorava. “Eu já esperava este resultado. Acredito que o resultado do conselho espelhe o que vai ser a votação no plenário.”

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