quarta-feira, 14 de setembro de 2005

A vez de Jefferson

Câmara vota hoje a cassação do petebista, acusado de denunciar sem provas o mensalão e de participar de operações com o caixa 2 em campanhas eleitorais. São necessários 257 votos para que ele perca o mandato

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 14 de setembro de 2005 - Três meses e oito dias após acender o pavio da mais grave crise política do governo Lula com as acusações sobre o suposto mensalão, o deputado federal e presidente licenciado do PTB, Roberto Jefferson (RJ), enfrenta hoje a hora da verdade. Se pelo menos 257 colegas apoiarem sua cassação na votação secreta, que acontece a partir das 16h no plenário da Câmara dos Deputados, Jefferson perde o mandato e os direitos políticos por oito anos. Só poderá voltar a disputar cargo eletivo em 2016.

É grande a expectativa em torno do que Jefferson vai dizer aos deputados em sua defesa de 25 minutos. Ele nega que vá fazer novas acusações ou revelações. "Vai ser um discurso sem novidades", disse ao Correio Braziliense num rápido diálogo na sala da liderança do PTB. Mas, se diz não haver novas denúncias, isso não significa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será poupado. "Vou falar bem do presidente Lula e desse núcleo duro dele", ironizou.

Na liderança, Jefferson ficou reunido ontem à tarde com cerca de vinte deputados da bancada, que foram lhe dar solidariedade. Também ali recebeu a visita do líder do PFL, Rodrigo Maia (RJ), filho do prefeito do Rio, Cesar Maia. "Quando meu pai precisou de apoio para ser candidato do PTB à prefeitura, o Roberto não lhe faltou. Não poderia deixar de vir aqui nesta hora", afirmou o pefelista.

Os aliados estão otimistas. O deputado Luiz Antonio Fleury (PTB-SP), um dos três escalados para falar hoje em plenário a favor do acusado, diz que as chances de absolvição aumentaram muito nas últimas 24 horas. Os outros dois oradores pró-Jefferson, Nelson Marquezelli (PTB-SP) e o líder José Múcio (PE), faziam a mesma avaliação no início da noite. Até petistas acreditam que Jefferson tem alguma chance. "Vai ser um resultado apertado", aposta Walter Pinheiro (PT-BA).

Ontem, caiu a penúltima linha de defesa. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) rejeitou, em votação simbólica, o recurso do petebista contra o parecer do Conselho de Ética favorável à cassação. Segundo a Agência Câmara, somente os deputados petebistas Vicente Cascione (SP), Paes Landim (PI) e Fleury protestaram contra o relatório do petista José Eduardo Cardozo (SP).

Jefferson já havia manifestado a amigos que não tinha esperanças de vencer na CCJ. Aos jornalistas, em uma tumultuada entrevista coletiva, procurou mostrar-se preparado para qualquer desfecho: "Estou pronto para o que der e vier. Quero acabar logo com esse sofrimento". Disse ainda que vai se dedicar apenas ao canto se for cassado. Nesse caso, o ato da Mesa Diretora será lido na mesma sessão e passará a valer no dia seguinte, quando for publicado no Diário da Câmara. Se forem registrados menos de 257 votos favoráveis à perda do mandato, Jefferson continuará deputado e o processo será definitivamente arquivado.

Corrupção
Jefferson vem de uma derrota por 14 a 0 no Conselho de Ética. Foi considerado culpado de fazer acusações em provas (o mensalão de R$ 30 mil supostamente pago a deputados do PL e do PP) e participar de operações de caixa 2 (os R$ 4 milhões que diz ter recebido do PT no ano passado para ajudar candidatos do PTB nas eleições municipais; o então presidente do PT, José Genoino, nega ter dado o dinheiro a Jefferson), além de outros três supostos delitos: tráfico de influência, tentativa de desviar o foco de acusações e omissão em relação a corrupção.

A crise política nasceu de uma reportagem da revista Veja, em maio, na qual um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, recebia propina de R$ 3 mil e dizia fazer parte de um esquema de corrupção comandado por Jefferson. O deputado petebista negou a acusação. Três semanas depois, em entrevista à "Folha de S.Paulo", acusou pela primeira vez o PT de pagar mesada a deputados.

Dias depois, o PL representou ao Conselho de Ética contra Jefferson, no processo que agora deve ter seu desfecho. Nesse meio tempo, o presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto (SP), renunciou ao mandato depois da divulgação de que quase R$ 10 milhões do caixa 2 de PT, operado pelo então tesoureiro Delúbio Soares e pelo empresário Marcos Valério, pararam nos cofres liberais. Costa Neto diz que os recursos somaram apenas R$ 6,5 milhões e que foram usados para pagar dívidas da campanha presidencial de 2002, em que PT e PL concorreram coligados.

No PTB, há poucas dúvidas de que Jefferson continuará comandando o partido, mesmo se for cassado. Os líderes petebistas avaliam que a acusação sobre o suposto mensalão, se pode custar o mandato de Jefferson, salvou o PTB de pagar sozinho a conta das acusações de corrupção no governo Lula e criou na chamada opinião pública a convicção de ter "exposto a sujeira que estava escondida", como diz um deputado próximo ao acusado.

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