sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Ufa! Aldo vence por apenas 15 votos

Diferença para o candidato da oposição é idêntica ao número de deputados da base ameaçados de cassação

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 29 de setembro de 2005 - Sete meses e catorze dias depois da surpreendente eleição de Severino Cavalcanti, a base governista retomou a presidência da Câmara dos Deputados. Às 21h07, a Mesa anunciou o voto que dava a vitória ao deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), candidato da aliança PT-PL-PSB-PCdoB, e que no segundo turno recebeu o apoio do PP e do PTB. Ao final, foram 258 votos para Rebelo contra 243 para o candidato das oposições, José Thomaz Nonô (PFL-AL). Foi a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na batalha política mais importante de seu governo. O presidente da Câmara tem a prerrogativa de decidir, sozinho, se um pedido de impeachment do presidente da República segue em frente ou vai para o arquivo. Aldo é aliado incondicional de Lula e sua vitória desloca o foco da atual disputa política: a crise desencadeada pelas acusações sobre o suposto mensalão deve ceder lugar, progressivamente, para os movimentos em torno da sucessão presidencial do próximo ano.
A Câmara viveu um dia de equilíbrio de forças e intensas negociações, que se expressaram no resultado do primeiro turno. Aldo e Nonô empataram em 182 votos. Ciro Nogueira (PP-PI) teve 76 e Luiz Antônio Fleury (PTB-SP), 41. Os demais candidatos ficaram no zero. Antes, Francisco Dornelles (PP-RJ) e Michel Temer (PMDB-SP) haviam retirado suas candidaturas, transferindo ambos cerca de 50 votos no total para Nonô. Esse movimento pulverizou a vantagem de cerca de 40 votos que os aliados de Aldo esperavam abrir no primeiro turno.
As negociações aconteceram mais intensamente entre o primeiro e o segundo turnos. O governo lutou com todas as forças para trazer os votos dos aliados, principalmente do PP e do PTB. Assumiu o compromisso de liberar verbas orçamentárias retidas pelo contingenciamento e exerceu intensa pressão sobre as duas legendas. Deixou claro que uma derrota de Aldo significaria a eliminação dos espaços que essas siglas têm na esplanada dos ministérios, com a conseqüente perda dos cargos.

Compromisso
O PP tem o ministro das Cidades, Márcio Fortes, indicação de Severino Cavalcanti quando ainda presidia a Câmara. O PTB tem o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, que luta para impedir que o ex-deputado Roberto Jefferson arraste o partido para a oposição. No dia anterior, o Planalto já havia assumido o compromisso de desbloquear cerca de R$ 700 milhões no ministério dos Transportes, comandado pelo PL. A estratégia produziu resultados. Pelas contas dos governistas, os liberais votaram ontem maciçamente em Rebelo nos dois turnos. Ao deixar a reunião com a bancada do PTB, no fim da tarde, Mares Guia assegurou que pelo menos 80% dos 46 deputados do partido votariam em Rebelo. No PP, a expectativa era a mesma. A partir do apoio das duas legendas, os articuladores de Aldo esperavam uma vitória por 30 votos. Acabaram ficando com a metade, exatamente o número de parlamentares da base ameaçados de cassação por causa do suposto mensalão. No discurso do segundo turno, Nonô atacou as andanças de ministros pelos corredores da Câmara. “Não tenho verba, não tenho ministro. Bastou eu ser um candidato sem alinhamento automático do governo que, imediatamente, apareceram R$ 500 milhões de emendas. Quando eu for um presidente independente, aparecerão mais”, ironizou ele, referindo-se aos recursos para emendas parlamentares prometidos pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, na semana passada. "R$ 500 milhões, mais R$ 500 milhões, mais milhões. Isso é muito bom!”, ironizou.
Aldo rebateu: “Acho que todos os votos dedicados ao deputado José Thomaz Nonô foram fruto da livre consciência dos parlamentares desta Casa. E o mesmo reivindico para os votos que me foram dados pelos colegas de Parlamento”. Ele procurou assegurar que terá independência em relação ao Planalto e disse que governará com os deputados. “Eu sei o nome de cada um e o que cada um aqui reivindica”, afirmou aos colegas.

Resultado
Aldo avançou também nas fileiras de Nonô. Pela diferença final dos votos, é possível deduzir que o PDT foi o responsável pelo resultado. Eram 18 votos certos para Nonô, mas que acabaram majoritariamente com Aldo (leia mais na página 3). No Palácio do Planalto, o ministro de relações Institucionais, Jaques Wagner, passou o dia ao telefone, pedindo votos. A novidade ontem foi que os acordos voltaram a ser cumpridos em votações secretas. Isso não acontecia desde a eleição de Severino, e essa desconfiança vinha contribuindo para o ambiente caótico instalado na Câmara e para a total impossibilidade de votar qualquer assunto polêmico.
No primeiro discurso como presidente, Aldo disse que vai se esforçar para que os deputados recuperem seu ritmo de trabalho, comprometido nos últimos meses pela crise. “A Câmara, superando a sua capacidade de iniciativas, vai cumprir uma agenda que contemple as necessidades do povo brasileiro”, disse.
Ele discursou tendo atrás a mulher, Rita, e o filho, Pedro. Brincou ao dizer que ambos já deveriam estar dormindo. O relógio do plenário marcava 21h21. Em um gesto conciliatório, chamou para a mesa seus concorrentes que já tinham cargos de comando da Câmara. O primeiro vice, Nonô, o segundo, Nogueira, e o quarto secretário, João Caldas (PL-AL), que renunciou quando os liberais decidiram apoiar Aldo. Concluiu seu pronunciamento prometendo que vai adotar o sistema de decisões coletivas na direção da Casa.

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