quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Planalto em desvantagem na corrida

Alon Feuerwerker e Sandro Lima

Correio Braziliense, 20 de setembro de 2005 - A divisão interna do PT e o receio de melindrar Severino Cavalcanti colocaram o Palácio do Planalto em desvantagem nas negociações para escolher o novo presidente da Câmara dos Deputados. São da oposição os pré-candidatos que até o momento lideram a corrida: o vice-presidente José Thomaz Nonô (PFL-AL) e o presidente do PMDB, Michel Temer (SP).
A sucessão na Câmara e a posição do Executivo foram discutidas ontem pela manhã na coordenação de governo. O Planalto avalia que se a decisão for no voto o risco de derrota é alto. Quer trabalhar por uma candidatura de consenso, que fica menos provável à medida que os partidos da oposição pressentem a chance de assumir o poder na Casa.
Quando eclodiram as primeiras acusações contra Severino, PSDB e PFL mandaram o recado: aceitariam colocar na cadeira um petista, desde que palatável para a oposição. Mas, em duas semanas de crise, o PT não conseguiu avançar na definição de um nome. Os mais aceitáveis por tucanos e pefelistas, como Sigmaringa Seixas (DF), Paulo Delgado (MG) e José Eduardo Cardozo (SP), sofrem vetos na bancada e na base aliada. Outra dificuldade era a delicadeza da situação de Severino. O Planalto não quis dar ao presidente da Câmara a impressão de que já trabalhava a sucessão com ele ainda no cargo.
A complexidade do cenário e a lentidão do governo acabaram abrindo espaço para os “falcões” da oposição. De duas semanas para cá o discurso oposicionista endureceu. Passaram a questionar o direito de a maior bancada (até ontem o PT) ter o presidente, tradição rompida por Severino em fevereiro e que o líder do PT, Henrique Fontana (RS), defendeu publicamente restabelecer.
José Thomaz Nonô disse nos últimos dias a interlocutores que “não vê como não entrar” na disputa, já que seria o substituto natural de Severino em caso de licença. O PSDB colocou na mesa o nome de Jutahy Júnior (BA), mas já mandou avisar aos pefelistas que ele não será obstáculo a um acordo entre as duas legendas. Além de Nonô e Jutahy, o líder da Minoria, José Carlos Aleluia (PFL-BA), corre por fora na oposição. E, para completar, PFL e PSDB firmaram um pacto na semana passada: vão atuar juntos na sucessão.
No PMDB, Temer tem apoio unânime da ala que não está no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a começar dos deputados que seguem a orientação do presidenciável Anthony Garotinho. O setor governista prefere o relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PR), que também atrai a simpatia dos pefelistas liderados pelo senador Antônio Carlos Magalhães.
A confusão política na Câmara abre espaço para alianças antes impensadas. PPS, PDT e PV, partidos de esquerda que estão na linha de frente do movimento pelas cassações, admitem votar em Nonô. “Ele tem compromisso com punições rigorosas para os acusados de caixa 2”, justifica um deputado do PPS.

Impeachment
Em São Paulo, o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) confirmou essa tendência ao afirmar para a Agência Folha que o próximo presidente deverá sair da lista dos que assinaram o requerimento para instalar a CPI dos Correios. Ressalvou que o nome terá de “dar segurança ao governo de que não vai encaminhar um pedido de impeachment sem fundamentos”. É precisamente o discurso que Nonô tem repetido, inclusive em recente conversa com o coordenador político do governo e ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner.
A sucessão de Severino Cavalcanti é vital para Lula. É o presidente da Câmara quem decide, sozinho, se um pedido de impeachment do presidente da República vai em frente ou é arquivado. Se for derrotado nessa batalha, Lula ficará refém da oposição. PSDB e PFL já avaliam que, apesar da cise política, o presidente pode chegar a 2006 com força eleitoral graças ao crescimento da economia. No comando da Câmara, mesmo que não consigam tirá-lo do cargo, poderão fazê-lo disputar a reeleição sangrando num processo por crime de responsabilidade.


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