quinta-feira, 15 de setembro de 2005

O último ataque na Câmara

No discurso de defesa, Roberto Jefferson disse que Lula é um malandro, acusou o Executivo de ter “prostituído” o Legislativo e comparou o ex-ministro José Dirceu à empresária Jeane Mary Corner

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 15 de setembro de 2005 - Roberto Jefferson deixou os aspectos jurídicos para seus advogados e investiu num pronunciamento fortemente político para tentar escapar da cassação. Luiz Francisco Corrêa Barbosa e Itapuã Messias, os dois defensores do presidente licenciado do PTB, tocaram nos pontos centrais da sustentação jurídica: a Constituição garante ao parlamentar o direito de não ser processado pelo que diz e os R$ 4 milhões recebidos do PT não podem ser caracterizados como vantagem indevida obtida na condição de deputado, pois Jefferson os teria tomado como presidente do PTB, para financiar gastos eleitorais.
Quando Jefferson começou a falar, deixou claras suas estratégias: isolar o Palácio do Planalto e a corrente hegemônica do PT, o Campo Majoritário; despertar o espírito de corpo do Parlamento; ganhar a solidariedade dos demais ameaçados de cassação; e deixar claro para a oposição que calá-lo seria emudecer talvez a mais contundente voz que ataca o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Agradecimento
Jefferson iniciou com agradecimentos às mulheres que com ele conviveram, pessoal e profissionalmente, pela “força espiritual” que sempre lhe ofereceram. Referiu-se também ao ex-presidente do PTB José Carlos Martinez, morto há dois anos em acidente aéreo no Paraná e a quem substituiu. Fez especial menção ao líder do partido na Câmara, José Múcio (PE), que paradoxalmente foi um dos a desmenti-lo na questão do mensalão.
Sobre o mensalão, aliás, pôde-se notar um ajuste em seu discurso. Em vez de colocar ênfase em sua acusação original, o suposto pagamento de mesada a deputados, falou em “aluguel de partidos” e nas já comprovadas transferências de recursos para legendas da base aliada.
Foi duríssimo ao acusar o Executivo de ter “prostituído” o Parlamento e comparou o ex-ministro e deputado federal José Dirceu a Jeane Mary Corner, a empresária que supostamente agenciou garotas de programa para festas de parlamentares, também supostamente pagas por Marcos Valério.

Planalto
Como previsto, o discurso de Jefferson não trouxe novas denúncias de corrupção contra Lula. O presidente não foi acusado de outros crimes, mas duramente atacado pelo de “omissão”. “Lula é malandro, preguiçoso. Não sei se já chegou da Guatemala. O negócio dele, é passear de avião. Governar que é bom ele não gosta. Ele é o Genoino do Planalto.” Jefferson referia-se ao depoimento de anteontem do ex-presidente do PT, José Genoino, na CPI do Mensalão. Nela, Genoino disse desconhecer todas as ações irregulares do tesoureiro do PT, Delúbio Soares.
Jefferson falou também do isolamento do presidente. “O rei está sozinho, nu. Cumpri minha missão. Tirei a roupa do rei.
Sobrou para o Palácio do Planalto: “A corrupção partiu de lá”. Antes, havia tentado desqualificar o relator de seu processo, Jairo Carneiro (PFL-BA), acusado por ele de empreguismo e nepotismo quando secretário estadual da Bahia. Terminou evocando a auto-estima do Congresso, que “não pode sair de joelhos”. Criticou o excesso de medidas provisórias e conclamou seus colegas a “puxar a barba do bode”. Impossível não concluir que se referia a Lula.
Jefferson falou durante 41 minutos. Inicialmente, estavam previstos 25. Foi aplaudido algumas vezes, por parlamentares e por um grupo de cerca de 30 pessoas. Mostrou mágoa em relação ao PT: “Essa gente não ama o ser humano, eles amam a abstração jurídica, um Estado ideal que eles sonham. Odeiam todo ser humano que se conflita com esse ideal de Estado que eles nutrem no seu coração”.

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