sábado, 10 de setembro de 2005

Divisão petista ameaça acordo

Escolha do futuro presidente da Câmara esbarra na desarticulação petista, maior bancada da Casa. No Palácio do Planalto é grande a preocupação para evitar que um pefelista assuma o cargo de Severino

Alon Feuerwerker, Rudolfo Lago e Sandro Lima

Correio Braziliense, 10 de setembro de 2005 - A crônica divisão interna do PT já ameaça fechar a janela de oportunidade que se abriu para a sigla com o fim da “Era Severino”. Maior bancada, o PT tem legitimidade para indicar o novo presidente da Câmara dos Deputados. Precisa apenas buscar um nome que una a maioria do partido e tenha trânsito na base do governo e na oposição. PSDB e PFL já disseram não vetar, em princípio, nomes petistas.Só que costurar uma candidatura que tenha apoio do PT e da maioria da Casa não é tarefa fácil para a legenda, alvejada por denúncias e mergulhada numa feroz disputa interna pelo poder.
Ontem pela manhã o presidente do PT, Tarso Genro, telefonou para o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP). Genro disse a Goldman que o PT não exige o cargo. Um dia antes, o líder do PT, Henrique Fontana (RS), havia considerado natural retomar a tradição, interrompida por Severino, de a maior bancada indicar o presidente, ainda que num processo negociado com a oposição. Os tucanos estavam simpáticos à idéia. Começaram porém a receber pressões de outros partidos da oposição, como o PDT, e refluíram.
A ação de Genro foi articulada com o Palácio do Planalto. O temor da divisão petista e de uma nova derrota fez o núcleo palaciano tirar da manga em reunião pela manhã dois balões de ensaio não petistas: os ex-ministros Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Eduardo Campos (PSB-PE). Ao longo do dia, o Planalto trabalhou para disseminar a idéia de que candidatos de fora do PT teriam mais condições de unir a base aliada.
Mas o verdadeiro problema de Luiz Inácio Lula da Silva, como em outras ocasiões, é a fragmentação do seu próprio partido. Três deputados petistas lideram a corrida pela cadeira de Severino. José Eduardo Cardozo (SP) e Sigmaringa Seixas têm apoio na oposição. Setores do PFL e do PSDB já trabalham para que um dos dois seja o candidato. O líder do governo, Arlindo Chinaglia (SP), é o preferido da base governista. Paulo Delgado (MG), com perfil semelhante a Cardozo e Sigmaringa, corre por fora.

Bastidores
Por seu lado, o PFL ensaia entrar na disputa. Três nomes são falados nos bastidores: o líder da Minoria, José Carlos Aleluia (BA), o deputado Roberto Magalhães (PE) e o vice-presidente da Câmara José Thomaz Nonô, que assume em caso de licença ou saída definitiva de Severino. No primeiro cenário, pode ficar até 120 dias. No segundo, novas eleições acontecem em até cinco sessões, cerca de duas semanas.
Um pefelista na cadeira de Severino é o grande pesadelo de Lula. É o presidente da Câmara quem tem a atribuição legal de arquivar ou levar em frente pedidos de impeachment do presidente da República.
A oposição já dá sinais de como vai enfrentar a disputa. “O novo presidente da Câmara tem que ser um anti-Severino”, diz Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA). “Alguém com estatura moral e ética, com uma postura firme para conduzir os processos de cassação, e com a confiança da Casa.”
Tudo, porém, depende do que vai fazer Severino. “O quadro só começará a se definir depois de terça-feira, quando também se terá certeza sobre os passos dele, se ele pedirá licença, renunciará ou enfrentará o processo de cassação até o fim”, diz o deputado Raul Jungmann (PPS-PE).

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