domingo, 25 de setembro de 2005

Correndo atrás do baixo clero

Apesar de polarizada entre governo e oposição, disputa pela presidência da Câmara será decidida pelos deputados de pouca expressão, os mesmos que colocaram Severino no comando da Casa em fevereiro

Alon Feuerwerker e Rudolfo Lago

Correio Braziliense, 25 de setembro de 2005 - Da equipe do Correio Em 1814, Napoleão Bonaparte foi preso e exilado na Ilha de Elba. Mas isso não significou o seu fim. Napoleão conseguiu fugir, voltou à França e ao comando dos seus exércitos. É como um Bonaparte em Elba que Severino Cavalcanti, o rei do baixo clero, recolheu-se.
Está em Brasília, mas desterrado do poder. Do exílio, ele acompanha de perto o desenrolar de sua sucessão. Severino trabalha para que seus liderados votem em um dos candidatos do PP na disputa: Ciro Nogueira (PI) ou Francisco Dornelles (RJ). Ou em alguém oriundo do baixo clero, como João Caldas (PL-AL). A revolução que levou Severino Cavalcanti à Presidência da Câmara em fevereiro está longe de se esgotar. Seus herdeiros são o fiel da balança na escolha do sucessor. Os grande partidos lançam candidatos, articulam-se, ocupam os espaços na imprensa. Só que, nos bastidores, assediam a massa dos “sem-mídia”, sem os quais podem ver frustrados os planos de voltar ao poder.
“Nunca mais a Câmara dos Deputados retornará aos tempos em que a maioria era marginalizada das decisões”, diz o líder do PCdoB, Renildo Calheiros (PE). “Severino foi eleito para mudar isso. O desfecho da sua Presidência pode ter sido trágico, mas a história não caminha para trás.” Renildo é um dos comandantes da candidatura de Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que tem o apoio do Palácio do Planalto.
O governo subestimou em fevereiro a influência do chamado baixo clero, que pressionava pela eleição de Virgílio Guimarães. O PT tentou impor Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e recebeu em troca Severino Cavalcanti. Na avaliação da maioria dos deputados, as maiores chances de vitória desta vez estão entre os chamados “cardeais”. Além de Aldo, o candidato da oposição, José Thomaz Nonô (PFL-AL), e o presidente do PMDB, Michel Temer (SP). Os demais, porém, não devem ser subestimados. Aldo polariza os governistas. Nonô, os oposicionistas.
Temer corre por fora, com menores chances. Somados, os três chegariam hoje a pouco mais de 300 votos. Os outros mais de 200 vão decidir a corrida. Os deputados do baixo clero estão espalhados em todos os partidos, mas aglutinam-se principalmente-se no PMDB, PL, PTB e PP. Juntas, essas legendas têm 231 deputados, quase a metade da Câmara. São em geral parlamentares com eleitores concentrados em poucos municípios e dependem do orçamento federal para levar recursos a suas bases eleitorais. Isso os torna muito dependentes do governo.

“Maioria silenciosa”
As legendas preferidas do baixo clero têm candidatos à sucessão de Severino, mas repetem em certa medida o que costuma acontecer na escolha do presidente da República: acabam tendo que se conformar em serem caudatários dos grandes pólos político-ideológicos do país: o bloco PT-PCdoB-PSB e o bloco PSDB-PFL. “Não existe baixo clero”, afirma João Caldas (PL-AL). “Na verdade, somos uma maioria silenciosa.” Ele critica a maneira como surgiu a candidatura de Rebelo. “Não temos nada contra o Aldo, mas não aceitaremos uma imposição do governo”, diz. Isso não significa automaticamente o voto no candidato do PFL, José Thomaz Nonô (AL). “É uma articulação só da oposição”, dispara.
Reservadamente, cardeais do governo e da oposição acreditam que o baixo clero vai preferir preservar-se de uma disputa aberta e acabar compondo com uma das candidaturas principais. “Severino Cavalcanti ficou excessivamente exposto e acabou queimado. A pressão da mídia é muito forte”, diz um dos chefes do PSDB. Todos, porém, buscam o beneplácito do baixo clero. Uma das prioridades de Aldo, por exemplo, é conversar com o grupo Câmara Forte, que apoiou em fevereiro Virgílio Guimarães.
No grupo ligado a Thomaz Nonô, a estratégia é explorar as insatisfações. “Essa expressão baixo clero decorre de uma deformação do nosso sistema, que não tem voto distrital, mas tem um determinado tipo de político que cuida apenas do seu distrito, da sua região”, avalia o líder do PSDB, Alberto Goldman (SP). Esse político, na análise dos oposicionistas, tem razões para se queixar do governo. “O governo atende mal às suas demandas. Duvido que a liberação de última hora desse dinheiro do Orçamento vá adiantar”, aposta o tucano.
Para Goldman, porém, o que possibilitou a eleição de Severino não foi apenas um levante do baixo clero. “José Janene, Pedro Henry ou Pedro Corrêa não são baixo clero”, afirma, referindo-se aos três principais líderes do PP de Severino. “Eles faziam parte do comando da Câmara. Na verdade, Severino foi produto do trabalho de um tipo de alto clero, que buscava aumentar o seu poder de pressão sobre o governo”, avalia. Para Goldman, esse grupo agora não terá posição determinante.

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