quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Análise: Uma quase história de amor

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 15 de setembro de 2005 - A inglória e solitária luta de Roberto Jefferson para não ter o mandato cassado terminou ontem. Foram quatro meses de duro combate, desde que Maurício Marinho foi flagrado recebendo R$ 3 mil na sede dos Correios e dizendo que o então presidente do PTB comandava um esquema de corrupção na estatal. Numa ironia da história, nada se provou até o momento contra Jefferson nos Correios. Ele acabou cassado, pelo menos formalmente, em conseqüência de como reagiu às acusações.
É o desfecho triste de uma quase história de amor. Num certo momento, antes das eleições municipais do ano passado, Jefferson dizia querer fazer do PTB "o PFL do Lula". Ele sonhava em ter para Luiz Inácio Lula da Silva a importância que os pefelistas haviam tido nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Planalto.
Jefferson moveu céus e terras para aproximar o PTB do PT. Fez o partido marchar em ordem unida nas reformas de 2003, que até hoje rendem a Lula e ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, bons resultados na economia. Na eleição, impôs a coligação com os petistas em vários estados. Rompeu a aliança histórica com o prefeito Cesar Maia no Rio para fechar com Jorge Bittar, do PT. Colocou em risco, com isso, a eleição da filha, Cristiane Brasil, à Câmara Municipal. Cristiane acabou eleita, mas Bittar ficou em último lugar e Maia venceu no primeiro turno.
Passada a campanha, passou a receber fortíssimas pressões dos petebistas, que se consideravam traídos pelo não cumprimento dos compromissos assumidos no fechamento do acordo eleitoral entre os dois partidos. Corria o risco de perder o controle do PTB. Depois do episódio que envolveu Marinho, angustiou-se com a possibilidade de sua sigla ser engolida pelos rivais do PP e PL.
Acuado, Jefferson foi para o tudo ou nada. Acabou cassado. Mas deflagrou a maior crise política do governo Lula, feriu o PT no coração e pode ter inviabilizado a reeleição do presidente. Foi uma vingança e tanto. Com Jefferson, o PT cometeu o erro primário de deixar um guerreiro sem saída. Em troca, recebeu dele uma boa dose de Shakespeare, na veia. Um fim trágico. E que ainda não acabou.

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