terça-feira, 30 de agosto de 2005

Mais que um plano B

Ciro Gomes deve disputar eleição presidencial pelo PSB para ajudar Lula num provável segundo turno

Alon Feuerwerker


Correio Braziliense, 29 de agosto de 2005 - Luiz Inácio Lula da Silva pode não ser o único nome da esquerda governista na corrida eleitoral de 2006. Ciro Gomes ainda resiste, mas políticos do PSB e PCdoB ensaiam o movimento para convencer o ministro da Integração Nacional a disputar a Presidência da República. Mesmo que Lula resolva, como parece que vai, tentar a reeleição.
Quem trabalha com a carta Ciro tem argumento simples e direto. A vitória de Lula no primeiro turno tornou-se hipótese remotíssima. Por isso, é preciso projetar imediatamente um sistema de alianças da esquerda para o segundo turno. A preocupação com as alianças tem estado presente nas conversas entre dirigentes socialistas e comunistas nas últimas semanas. Foi também exposta ao presidente Lula pelos presidentes dos dois partidos em conversa reservada no Palácio do Planalto.
Mantidas as atuais candidaturas, o presidente iria isolado para a eventual decisão. A tendência dos demais candidatos seria convergir entre si, ou a neutralidade. A prefeita Marta Suplicy, bem avaliada administrativamente, perdeu a reeleição em 2004 num cenário parecido. Essa comparação assusta os governistas.
Para qualquer lado que se olhe, faltam aliados a Lula. O P-Sol da senadora Heloísa Helena provavelmente ficará neutro em um segundo turno do qual não participe. No cenário José Serra (PSDB) contra Lula, a tendência do PFL e da esquerda não lulista (PPS, PDT e PV) seria migrar para uma aliança com o tucano. O mesmo aconteceria se o nome fosse Geraldo Alckmin ou Aécio Neves.
PTB, PP e PL sairão enfraquecidos da crise. Seu desempenho eleitoral é uma incógnita. Resta o PMDB. Os últimos movimentos da legenda, com a oficialização das prévias que vão escolher o nome peemedebista para 2006, mostram que ganha força a coalizão interna anti-Lula formada pelo ex-governador Anthony Garotinho e por aliados tradicionais do ex-presidente Fernando Henrique . Na última reunião da Executiva Nacional, o próprio Garotinho propôs que o partido desista de expulsar seus membros que ocupam cargos no governo Lula. O gesto foi interpretado como tentativa de conciliação com o oficialismo.
Até os aliados do Planalto, como os senadores José Sarney e Renan Calheiros, já se dobraram à evidência de que o PMDB deve ir de candidato próprio. Reunião recente dos senadores na casa do líder Ney Suassuna apontou o próprio Sarney como nome a ser estudado.
Na hipótese de um segundo turno Lula contra Garotinho, seria dificílimo o PSDB apoiar o atual presidente com eficácia. A temperatura atual da disputa entre tucanos e petistas permite imaginar o que vai ser a campanha. A radicalização, alimentada durante mais de um ano de guerra aberta, dará seus frutos. Os eleitores de ambos estarão convencidos de que o outro passou a ser o inimigo principal, o adversário a ser abatido a qualquer preço.

Chacoalhada
Ciro Gomes na disputa chacoalharia o cenário, acreditam dirigentes do PSB e PCdoB ouvidos pelo Correio. Ele partiria de um patamar mínimo de 10% dos votos, que teve em 2002 em condições muito desfavoráveis. Caso não fosse ao segundo turno, apoiaria Lula. A recíproca seria natural. Os votos de esquerda desconfortáveis com Lula desaguariam num nome não hostil ao presidente. Além de tudo, Lula não enfrentaria sozinho o debate com os demais candidatos no primeiro turno.
Outra variável é a cláusula de desempenho de 5% que os partidos precisarão atingir para manter pleno direito a ter bancada parlamentar, tempo de televisão e acesso ao fundo partidário. PSB e PCdoB já sabem que sozinhos dificilmente atingirão esse mínimo. Os dois partidos estudam alguma forma de fusão ou incorporação, pois a reforma política dá poucos sinais de que vá ser aprovada.
O ministro da Integração, recém-filiado ao PSB, não dá espaço para discutirem a candidatura com ele. Reafirmou a interlocutores nos últimos dias que tem compromisso com o projeto da reeleição de Lula. Após a reforma ministerial integra oficialmente o círculo de colaboradores mais próximos do chefe. É um dos conselheiros mais ouvidos pelo presidente desde a eclosão da crise política.
Lula e Ciro Gomes já foram adversários. Ultimamente, têm jogado em dobradinha. Mas os paradoxos da política podem levá-los em 2006 a caminhar separados para, como se dizia antigamente, golpearem juntos.

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