sábado, 13 de agosto de 2005

"Eu me sinto traído"

Em menos de 12 minutos, um Lula pouco convicto disse que, se pudesse, puniria responsáveis pela corrupção — oposição e governistas queriam mais

Alon Feuerwerker, Sandro Lima e Mariana Mazza

Correio Braziliense, 13 de agosto de 2005 - Na abertura da reunião ministerial de ontem, na Granja do Torto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ao Brasil que se sente traído, que está consciente da gravidade da crise política e indignado “pelas revelações que aparecem a cada dia e chocam o país”. Foi um discurso de pouco menos de 12 minutos, lido em tom contido, sem aparentar muita convicção, com um pequeno improviso no final. O olhar do presidente vagueava.
Lula não foi direto ao ponto. Preferiu, antes, discorrer sobre os resultados positivos de seu governo na economia. Afirmou novamente que o país voltou a crescer e que a inflação está contida. “É a menor dos últimos cinco anos.” Falou de novo dos mais de três milhões de empregos criados desde janeiro de 2003, “12 vezes mais que a média dos anos 1990”. Celebrou os programas sociais. “Sete milhões e quinhentas mil famílias de brasileiros mais humildes têm garantido o acesso a uma renda mínima através do programa Bolsa Família.”
Mas o objetivo era abordar a crise. Começou sacando no cheque especial de sua história. “Em 1980, no início da redemocratização, decidi criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas, moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país.”
Foi o prefácio para dizer que se sente traído. “Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento.” E se defendeu: “Eu não mudei”. Citou as limitações de seu poder. “Se estivesse ao meu alcance, já teria punido exemplarmente os responsáveis por essa situação.”
Falou da reforma política “tão sonhada”, antes de dizer que o PT e o governo, “onde errou”, têm que pedir desculpas. Pediu que as pessoas “não percam a esperança”, e que tem certeza de poder contar com o povo brasileiro.
A oposição atacou a fala presidencial. “Foi a peça mais pífia e indigna da história”, criticou o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). O presidente do PT, Tarso Genro, classificou o discurso de “insuficiente” e pediu novos pronunciamentos com ações capazes de debelar a crise.
O dia do presidente começou com um café-da-manhã com o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, e com o porta-voz André Singer. Foi quando soube da entrevista do presidente do PL e ex-deputado Valdemar Costa Neto à revista Época, com a revelação de que o PT prometeu R$ 10 milhões ao PL para fechar a coligação presidencial de 2002. Estavam os líderes do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP).
A reunião ministerial estava marcada para 9h, mas só começou perto do meio-dia. Por mais de duas horas, o presidente ficou reunido com Dulci e os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, da Casa Civil, Dilma Rousseff, da Fazenda, Antonio Palocci e das Relações Institucionais, Jacques Wagner, para acertar os últimos detalhes do pronunciamento. Os demais ministros, que desde cedo estavam na Granja do Torto, aguardavam em outra sala.
Após o discurso do presidente, a palavra foi transferida a Bastos, Wagner e Dulci. O tema foi a crise política. Em seguida, veio o intervalo para almoço. Foram servidos arroz, feijão, salada, frango ensopado e carne assada. No retorno, houve mais debate sobre a crise política e, na seqüência, passaram a avaliar as propostas prioritárias para o governo.
Palocci e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, fizeram uma exposição sobre os rumos da economia, nos mesmos moldes do que foi apresentado a um grupo de empresários na semana passada. Assim como Lula, eles ressaltaram a importância de impedir que a crise política interfira no “bom momento” econômico do país.
Na mesma linha, Jacques Wagner pediu empenho dos presentes para a aprovação de uma agenda mínima no Congresso. Defendeu três pontos: o Fundo de Educação Básica (Fundeb), a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas e a Reforma Política. Depois, Thomaz Bastos anunciou as ações de combate à corrupção no âmbito do governo e disse que o principal foco das investigações é a caça à lavagem de dinheiro.
A área social foi tema da exposição do ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias. Ele garantiu que será cumprida a meta do programa Bolsa Família até o fim de 2006, de contemplar nove milhões de famílias. Dilma Rousseff organizou e coordenou a última parte do encontro, dedicada a um balanço das ações de governo e metas a serem cumpridas.
Depois de quase nove horas, a reunião terminou oficialmente às 20h40. Como o início foi atrasado em quase três horas, não houve tempo para que Dilma fizesse toda a sua exposição.
Um dos primeiros a deixar a Granja do Torto foi Mercadante, para quem o discurso do presidente Lula foi “corajoso pela humildade, pela capacidade de reconhecer erros do governo e, sobretudo, do nosso partido, o PT”. Ainda de acordo com o senador, “o presidente Lula falou de forma aberta e franca o que sentia e motivado a continuar trabalhando”. Apesar de defender a punição dos culpados, Mercadante evitou citar nomes e disse que não se podem fazer prejulgamentos.

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