sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Entrevista: "Nem pizza, nem linchamento"

Parlamentar do PSB mineiro foi escolhido para relatar o processo de cassação de José Dirceu

ALON FEUERWERKER

Correio Braziliense, 12 de agosto de 2005 - O deputado federal Júlio Delgado (PSB-MG) tem uma tarefa espinhosa nas próximas semanas. Vai relatar o processo contra seu colega José Dirceu (PT-SP) no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Delgado apóia o governo Lula desde o início e se afastou do PPS quando o partido caminhou para a oposição. “Não vai haver nem pizza nem linchamento. Não serei Pilatos nem Torquemada”, diz ele. Ou seja, não lavará as mãos como Pôncio Pilatos, nem assumirá o papel de feroz inquisidor exercido por Tomás de Torquemada na Espanha do Século XV. “Minha posição vai ser definida a partir das provas.” Segundo ele, estas podem ser materiais ou testemunhais. “Mas precisam ser consistentes.”

CORREIO BRAZILIENSE – O senhor sabe que, como governista, será visto com desconfiança pela oposição.
JÚLIO DELGADO– Se o relator fosse da oposição, seria visto com desconfiança pela base do governo. Então, estamos empatados. O melhor caminho não é discutir o relator, mas o trabalho dele.

CORREIO– E como vai ser o seu trabalho?
DELGADO – Vou ser isento. A cassação do mandato é quase uma pena de morte para o parlamentar. Essa pena máxima precisa ser precedida por um julgamento absolutamente justo, com a plena garantia do direito de defesa.

CORREIO– O que isso significa, na prática?
DELGADO– No julgamento do ex-ministro José Dirceu, assim como nos demais casos que estão no Conselho de Ética, não vai haver nem pizza, nem linchamento. Há uma pressão legítima da sociedade contra possíveis conchavos que possam salvar culpados. Excelente. Mas estamos em plena vigência do Estado de Direito, uma conquista da sociedade brasileira. Não vamos atropelar os direitos fundamentais, consagrados na Constituição.

CORREIO– Há uma pressão grande na Câmara, entre os próprios parlamentares, por cassações que aliviem a pressão sobre a Casa.
DELGADO– Não serei um Pôncio Pilatos, não vou “lavar as mãos”. Mas também não esperem que eu seja umTomás de Torquemada. Aqui os culpados serão punidos. Ninguém deve ter dúvidas sobre isso. Mas, no que depender de mim, ninguém vai arder na fogueira injustamente apenas para purgaros pecados do sistema político brasileiro e satisfazer a “sede de sangue” de alguns.

CORREIO– Do que vai depender o parecer que o senhor irá apresentar ao Conselho?
DELGADO – Vai depender das provas. Elas podem ser materiais ou testemunhais. Mas precisam ser consistentes.

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