terça-feira, 23 de agosto de 2005

Cautela com o acusador

Negativas de irregularidades na prefeitura de Ribeirão Preto não são acompanhadas de críticas ao ex-assessor

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 22 de agosto de 2005 - Antônio Palocci preferiu a política ao direito para enfrentar seu dia mais difícil desde que assumiu o Ministério da Fazenda do governo Lula, há dois anos, sete meses e 22 dias. Para responder às acusações de Rogério Buratti, recorreu a uma receita simples, composta de quatro ingredientes : encarou os jornalistas por mais de duas horas, negou peremptoriamente todas as acusações, procurou mostrar desapego ao cargo e aproveitou para discorrer sobre os resultados de seu trabalho à frente da economia.
Funcionou. Palocci chegou ao ministério pouco antes do meio dia e começou a entrevista com só dez minutos de atraso. De cara, foi ao coração do problema. Antes que alguém perguntasse sobre a relação entre sua permanência no cargo e a estabilidade, fez questão de apontar os avanços econômicos como uma conquista do país. A sociedade não aceitará medidas que abram a porta para a volta da inflação, disse. Citou as ameaças de explodir os gastos com a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e o salário-mínimo. Ou seja, em meio a pressões do PT e aliados para afrouxar as políticas fiscal e monetária, Palocci pode até não ser totalmente indispensável. Mas, por via das dúvidas, talvez melhor mesmo seja mantê-lo no cargo.
Só que para chegar a terreno seguro era necessário atravessar o campo minado das denúncias desencadeadas por Buratti. Palocci não atacou o ex-assessor, que sexta-feira na saída do depoimento aos promotores disse ter percebido estar “isolado”. Só o próprio ministro sabe se enxergou ali um recado do ex-amigo.
Por quê, então, as acusações? Palocci lançou-as na conta das circunstâncias em que Buratti depôs: com uniforme laranja de preso, algemado e ameaçado com uma temporada atrás das grades. Era a senha para as críticas ao Ministério Público estadual e, indiretamente, ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Que ontem não recebeu ataques, mas vai receber uma carta nos próximos dias com reclamações do ministro.

Pontes políticas
Na área criminal, Palocci foi firme. Negou a propina de R$ 50 mil mensais “para Ralf Barquete”, não para ele. Negou também que ela pudesse ter existido sem seu conhecimento. Quando perguntado, em seguida, se isso implicava admitir que também o presidente Lula deveria saber de tudo o que se passava em seu governo, Palocci preferiu responder “com o coração”: “Eu sei que o presidente Lula não tinha informações sobre essas coisas.”
Ainda no terreno movediço da política, esforçou-se para arquivar o discurso da “herança maldita”. Elogiou José Sarney pela criação do Tesouro Nacional e pelo fim da conta-movimento do Banco do Brasil, que dava à instituição poderes de autoridade monetária. Citou Itamar Franco e enalteceu Fernando Henrique Cardoso pela Lei de Responsabilidade Fiscal e pelo equacionamento das dívidas de Estados e municípios. Em tempos de crise, apoios são sempre bem-vindos. Abaixo, alguns dos trechos principais.

O fico
O ministro Antônio Palocci disse que telefonou ontem pela manhã ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deixou “tranquilo” sobre uma possível substituição no Ministério da Fazenda. Evitou a expressão “à vontade”. O chefe, por definição, está sempre à vontade para afastar um subordinado. Lula rejeitou a saída de Palocci, mesmo que temporária.

Sem chantagem
O ministro disse que nunca vai utilizar a "sensibilidade" da área economia para se manter no cargo e que a economia não depende dele. Para Palocci, as políticas dos últimos anos produziram avanço institucional suficiente para o país suportar as turbulências trazidas pela crise. Disse que a lucratividade das empresas é a maior em 20 anos e a criação de empregos, a maior em 30 anos.

Ressentimentos
“Eu sei como funciona a política.” Afirmou que faz um grande esforço para não perder o humor, mas que não tem rancor, não carrega para casa ódios ou ressentimentos.

Desmentido
Negou “categoricamente”, “com veemência”, que houvesse recebimento sistemático de propina em sua gestão como prefeito de Ribeirão Preto. Perguntado se poderia ter havido, mesmo sem o conhecimento dele, negou. Não ocorreu, não ocorreria sem o conhecimento dele. “Nego em todos os aspectos”. A licitação do lixo não foi feita por ele.

Sem provas
O ministro afirmou que o Ministério Público não conseguirá provar algo que não houve. O ônus da prova cabe a quem apresenta a denúncia. Ainda analisa que providências jurídicas vai tomar contra Buratti.

Sobre Buratti
E por que Buratti disse o que disse? Palocci afirmou que não esperava, mas “compreende”. Pelas circunstâncias. Foi preso, depôs algemado. Falou talvez por alguma exigência da negociação com os promotores.

Amizade
Sobre Buratti, Palocci foi cauteloso. Buratti fez a primeira campanha dele para prefeito, em 1992, e se tornou o secretário de Governo. Foi afastado num episódio “ruidoso”. Investigado, nada se comprovou. Não são amigos, nem inimigos. As mulheres são amigas e os filhos se encontram.

Negócios
Jamais manteve com Buratti relações profissionais ou de negócios. “Eu não tenho negócios privados, Nunca tive atividade empresarial.”

Destemido
Não tem “medo do porvir”. Não veio a Brasília para “cometer atos de natureza duvidosa”. Disse que sabe o que fez e também o que não fez. “As coisas que ocorreram não me preocupam, me engrandecem.”

O caso Prosper
Gravação feita com autorização judicial em julho de 2004 mostra Buratti e outro ex-assessor de Palocci, Wladimir Poletto, negociando um encontro entre o ministro e o presidente do banco Prosper, Edson Menezes. Palocci diz que Menezes pediu o encontro a seu chefe de gabinete, Juscelino Dourado, e foi recebido na condição de presidente da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. O encontro se deu três meses depois da gravação

O grampo
Segundo a revista "Veja", Juscelino Dourado pediu por e-mail a ajuda de Buratti para a compra de um aparelho de escuta telefônica. Dourado teria feito o pedido em nome do “chefe”. Segundo Palocci, Dourado negou as acusações em resposta à revista e recebeu da repórter uma mensagem que afirmava não ser ele, Dourado, o remetente do e-mail a Buratti. Dourado diz que pediu uma cópia do e-mail, mas Veja não mandou. “O único aparelho de escuta que eu tenho é o estetoscópio”, rebateu Palocci.

Os telefonemas
A quebra do sigilo telefônico de Buratti mostrou ligações para Dourado, para Ralf Barquete (ex-assessor de Palocci em Ribeirão e assessor da presidência da Caixa Econômica Federal até morrer em junho de 2004) e para a casa de Palocci. O ministro diz que Buratti e Dourado são amigos e que pode ter recebido alguma ligação de Buratti em 2003.

Quebra de sigilos
Não vai fazer “panfletagem” com sua vida pessoal, mas vai colaborar com qualquer autoridade que deseje ter acesso a seus sigilos bancário e telefônico. O fiscal, pelo cargo que ocupa, já está aberto.

Críticas ao MP
Palocci diz que há “indiscrição” das autoridades. Para ele, pegar uma fita de depoimento e passá-la a órgãos de imprensa é ferir a lei. Vai mandar uma carta ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sobre o comportamento do Ministério Público estadual e da polícia no caso.

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Algumas Frases

“O presidente Lula pediu para que eu transmitisse a vocês a sua decisão. Ele não deseja que eu saia do Ministério da Fazenda. Ele disse que não autorizará o meu afastamento, mesmo temporário”

“Quero negar categoricamente e com veemência essas denúncias. Eu não recebi e não autorizei que recebessem recursos para o Diretório Nacional do PT ou para outras instâncias do PT durante esse período ou qualquer outro período”

“Se alguém liga para o meu chefe de gabinete e pede audiência, não posso ser responsabilizado por isso”

“Não temo o porvir, nem o que está colocado sobre a mesa. Estou tranqüilo, porque sei do que fiz e do que não fiz. As coisas que ocorreram não me preocupam”

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