sábado, 13 de agosto de 2005

Análise: No fio da navalha

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 13 de agosto de 2005 - Dizer “eu me sinto traído” é diferente de admitir que “eu fui traído”. De um presidente que foi traído, espera-se que diga quem o traiu e por quê. Já sentir-se traído é algo que permanece nos limites da subjetividade, da sensação pessoal. Tanto faz quem carregue o sentimento, as conseqüências serão apenas emocionais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva andou no fio da navalha em seu discurso de ontem aos ministros. Ao longo da semana, foram gigantescas as pressões para que viesse a público dar resposta às acusações que mergulharam seu governo na crise política. Lula cedeu, mas não atravessou a fronteira.
Não admitiu erros próprios. Disse ter perdido três eleições e ganhado a quarta mantendo-se sempre fiel aos ideais políticos que orientaram a fundação do PT. Não criticou duramente o partido ou sua antiga direção. Não apontou culpados. Disse apenas que afastou acusados e que as instituições vão indicar quem merece condenação.
O passeio de Lula pelo fio da navalha tem razão de ser. O presidente sabe que precisa dar satisfações à população brasileira. Sabe também que não pode errar com o PT ou com o Congresso Nacional. O primeiro é obra sua. O segundo é onde poderá ser decidido o futuro de seu mandato.
Seria autismo político do presidente ignorar a sede da sociedade por explicações. Seria estupidez ele supor que poderia lançar o opróbrio a custo zero sobre a sigla que dirigiu com mão de ferro nos últimos 25 anos. Lula, cuidadosamente, fez questão de dizer que a crise compromete “todo o sistema partidário brasileiro”, e não apenas o PT. Seria também ingenuidade, inadmissível nesta altura do campeonato, supor que o parlamento, em particular a base governista, vai aceitar passivamente ataques presidenciais.
Lula tomou ainda o cuidado de insinuar que a crise política pode trazer problemas para a economia, “para o crescimento deste país, para a geração de empregos” e, novidade, “para a continuidade dos programas sociais”.
Antes, o presidente já vinha dizendo a empresários e trabalhadores que seu governo prosseguir é bom para eles. Agora, introduziu no discurso a sutil insinuação de que abreviar o mandato dele pode ser uma ameaça aos programas sociais. A pesquisa Datafolha de ontem mostrou que os programas dirigidos aos mais pobres são o pilar mais forte que resta ao presidente.
Luiz Inácio Lula da Silva não pediu desculpas. Disse “nós temos que pedir desculpas”. E quem é “nós”? O PT e o governo, “onde errou”. Ele, Lula, não.
Lula é um político cujo instinto de sobrevivência não se deve subestimar. Ontem, funcionou mais uma vez.

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