domingo, 31 de julho de 2005

A melhor defesa é atacar

Presidente da República remonta o governo, tenta reformar o Partido dos Trabalhadores sem rachá-lo e aposta na reeleição como o ponto de apoio para manter sua própria governabilidade

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 31 de julho de 2005 - Enquanto a oposição discute se tenta ou não encurtar o mandato do presidente por causa das acusações de corrupção político-eleitoral, Luiz Inácio Lula da Silva decidiu dobrar a aposta: reorganizou sua administração e interveio no Partido dos Trabalhadores, com o objetivo bem definido de disputar e ganhar a eleição de 2006. Ele avalia que ficar na defesa, só resistindo, poderia inviabilizar o governo. E acha que não dá para retomar a iniciativa sem investir num projeto consistente de reeleição.As recentes aparições públicas de Lula com jeito de campanha eleitoral são somente a face visível da estratégia. Para chegar a essa conclusão, o Correio Braziliense conversou ao longo da semana com uma dezena de interlocutores diretos e indiretos do “funcionário público número um”, como ele mesmo gosta de se definir.Lula tem evitado falar sobre o escândalo, até em seu círculo mais íntimo. Quando se refere ao assunto, mantém a convicção de que o anabolizado caixa 2 da dupla Delúbio Soares e Marcos Valério não toca nele. Disse isso aos dirigentes da União Nacional dos Estudantes (UNE) que estiveram no Palácio do Planalto sexta-feira. O chefe do Executivo tem lá razões para pensar assim: em Minas Gerais, o próprio Valério já confidenciou a amigos que é perda de tempo tentar achar conexões diretas suas com o presidente.Para o Planalto, evitar o impeachment é necessário, mas não suficiente. A cúpula do governo sabe que precisa de instrumentos políticos para enfrentar a tática oposicionista do “apodrecimento” progressivo, como preconizou o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN). Ou a “sarneyzação sem inflação”, como alertou no Correio do último domingo o cientista político Carlos Pio, da Universidade de Brasília. É o cenário da “economia preservada”. Isto é, um governo refém da oposição, fraco, paralisado e sem iniciativa.E nada melhor do que a perspectiva de mais quatro anos no poder para curar feridas, manter os velhos aliados, atrair novos, superar a crise e recuperar a capacidade de ação política. Para governar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa mais que nunca do candidato Lula. Pode-se criticar o presidente. Mas é inegável que ele está tomando as providências para se proteger e robustecer o Lula-2006. Abaixo, algumas delas.

Movimentos estratégicos

Severino Cavalcanti ficou mais importante e mais forte. A Câmara dos Deputados é quem resolve se uma denúncia por crime de responsabilidade contra o presidente da República vai em frente ou para o lixo. Na prática, quem decide mesmo é o presidente da Câmara. Se ele mandar arquivar a denúncia, o plenário pode revogar a decisão. Mas é o próprio Severino quem determina a pauta de votações do plenário. O novo ministro das Cidades, Márcio Fortes, foi indicado por Severino. Em 2006, o ministério das Cidades vai distribuir a governadores e prefeitos mais de R$ 500 milhões em emendas individuais de deputados e senadores. Isso é 25% de tudo que o governo tem para executar em emendas parlamentares individuais. Severino fortalecido também ajuda Lula-2006 a ter o PP mais perto de si.
O PMDB foi finalmente atendido. O PMDB é o fiel da balança na Câmara. O ministério da Saúde controla metade de todo o dinheiro que a União pode gastar em custeio e investimentos. O PMDB indicou o novo ministro da Saúde, o deputado federal Saraiva Felipe (MG). Este ano, a Saúde vai repassar a Estados e municípios outros 25% de todas as emendas individuais do orçamento, quase R$ 600 milhões. Por lei, o ministério da Saúde tem uma grande autonomia financeira. Ali, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, manda menos que nos outros prédios da Esplanada. E Minas Gerais é o fiel da balança no PMDB, que além de Saraiva indicou o senador mineiro Hélio Costa para as Comunicações. Bom para Lula-2006.
Tarso Genro recebeu a missão de unir o PT, que vai um pouco para a esquerda. Lula mandou o presidente provisório do PT evitar que a eleição interna marcada para este ano se transforme num ajuste de contas entre a oposição de esquerda e o Campo Majoritário, corrente que comanda o partido. A idéia é uma parte da esquerda apoiar o candidato de um Campo renovado, o próprio Tarso. Em troca, recebe a garantia de participar ativamente das decisões partidárias. Tarso tem dito que o partido deve apoiar o governo, mas não se confundir com ele. É o melhor dos mundos para todos: o PT se desloca um pouco para a esquerda, para não se dividir, mas o governo fica onde está. E a massa petista ganha um discurso para se manter alinhada a Lula-2006.
Jaques Wagner recebeu a tarefa de desbloquear a agenda no Congresso. Lula combinou com Severino tentar retomar as votações esta semana, na reabertura dos trabalhos legislativos. A prioridade são as reformas política e tributária. Sexta-feira o presidente lançou o projeto de reforma universitária. O ministro das Relações Institucionais tem a missão de evitar que as Comissões Parlamentares de Inquérito monopolizem as atividades do Legislativo. Trabalha também para não deixar que a base governista se pulverize sob o fogo cerrado da oposição e das ameaças de cassação. Impedir que a base se disperse é vital para manter aberta a possibilidade de uma ampla aliança em torno de Lula-2006.
Antonio Palocci não pode deixar a economia sair dos trilhos. No primeiro semestre, União, Estados, municípios e estatais economizaram R$ 60 bilhões para pagar juros. Este superávit primário é quase 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB), mais de dois pontos percentuais acima da meta de 4,25%. A taxa básica de juros continua nas nuvens. Mas o resultado veio: a inflação, que ameaçava explodir a meta, começa a apontar para algo pouco acima de aceitáveis 5%. O forte aperto fiscal e monetário desacelerou a economia. Mas os analistas ainda projetam um crescimento que pode ficar entre 3,5 e 4% no ano. Sem economia estável, não tem Lula-2006.
Vai sobrar dinheiro para os programas sociais. O superávit exagerado no orçamento do primeiro semestre permite uma certa folga daqui até o final do ano. A ordem é investir fortemente na área social. O Bolsa-Família deve chegar a dezembro com quase nove milhões de famílias cadastradas, quase quarenta milhões de pessoas. Os investimentos em 2005 vão somar quase R$ 7 bilhões. Lula espera enfrentar a eleição com onze milhões de famílias no programa, quase 30% da população brasileira. A reforma agrária será outro foco de atenção. Os projetos sociais e de transferência de renda serão oferecidos ao PT e aliados como uma grande bandeira de campanha para acompanhar Lula-2006. O último Datafolha mostrou que essas iniciativas voltadas à população mais pobre são o principal alicerce dos índices de aprovação do presidente.

Os trunfos

Lula está certo de que terá “garrafas para entregar” no próximo ano, como afirma um ministro. Em seu governo, o PIB terá crescido 65% em dólar, de U$ 460 para U$ 760 bilhões. O PIB per capita terá superado a barreira dos U$ 4 mil, contra U$ 2,5 mil ao final do mandato de Fernando Henrique Cardoso. A inflação terá sido reduzida. O IPCA terá caído de 12% para 5%. O IGP, de 25 para 7%. O dólar terá baixado de R$ 3,50 para R$ 2,70. As exportações terão dobrado, de U$ 60 para U$ 120 milhões. Em quatro anos, o superávit comercial com o exterior terá acumulado quase U$ 125 bilhões. A conta corrente, U$ 25 bilhões. Terão sido criados em seu governo mais de cinco milhões de empregos com carteira assinada, e quase outro tanto de informais. O salário-mínimo em dólar também terá dobrado. Estes números não vêm do governo. Representam a média das projeções dos analistas das principais consultorias brasileiras.O presidente acredita ter o que dizer na campanha eleitoral. Antes, entretanto, precisa dar um jeito de chegar lá.

1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Folha de S.Paulo, 7 de agosto de 2005

Núcleo lulista aprova apelo às massas, mas vê exageros

Para ministros do PT, discursos agressivos e agenda popular foram positivos para o presidente
Núcleo lulista aprova apelo às massas, mas vê exageros

VALDO CRUZ
DIRETOR-EXECUTIVO DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A mudança no ritmo da agenda e no tom dos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bem mais agressivos nos últimos dias, foi uma decisão "acertada" do próprio petista, mas ele "exagerou na dose" e provocou "mau humor". Dado o recado de que "não é Collor" por ter apoio popular, porém, é hora de contatos com a oposição.
Essa é a avaliação de integrantes da nova cúpula do governo petista, formada por um grupo de cinco ministros -Antonio Palocci Filho (Fazenda), Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Jaques Wagner (Relações Institucionais), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Luiz Dulci (Secretaria Geral).
O "grupo dos cinco" tem se reunido para debater a crise e procurado auxiliar o presidente. Segundo esses ministros, foi o próprio Lula, de forma "intuitiva", que decidiu intensificar sua agenda popular, com viagens para inaugurações e contatos diretos com movimentos sociais e a população.
O erro, segundo análise ouvida pela Folha dentro do governo, foi o tom adotado pelo presidente nos últimos discursos feitos em viagens ao Nordeste. Ele chegou a soltar frases do tipo "vão ter de me engolir", num estilo considerado arrogante por alguns por se considerar quase imbatível numa disputa presidencial.
Ao tornar suas falas mais agressivas, atacando a oposição e as "elites", Lula acabou "carregando a crise" com ele, contribuindo para acirrar os ânimos entre governo e oposição, em vez de usar suas viagens pelo país para se afastar das turbulências.
Os ministros do "grupo dos cinco", porém, rebatem os ataques da oposição e de empresários à mudança no estilo presidencial. "O que eles queriam, que ele apanhasse e ficasse quieto, calado?", questiona um dos auxiliares do presidente Lula.
Apesar da "overdose" dos últimos dias, o balanço da reação presidencial foi considerado positivo no Palácio do Planalto. Serviu, na visão de um ministro, para mostrar que o presidente "tem raízes, inserção e base social, bem diferente do ex-presidente Fernando Collor".
A expectativa, agora, é que o presidente adote uma atitude mais moderada, depois de até ter "exagerado na dose, mas conseguido passar seu recado, de que não é um presidente fraco". Alguns ministros iriam conversar com o chefe sobre a necessidade de recolher as armas.
Abriria, assim, espaço para que seus articuladores buscassem uma interlocução com a oposição em busca da volta da "normalidade institucional".
Na sexta-feira passada, por sinal, Lula já mostrou uma agenda bem diferente da dos últimos dias, reservando boa parte do dia para dois encontros com pesos-pesados da economia no Palácio do Planalto. Numa dessas reuniões, chegou a dizer que "a crise não é tão grande como dizem".
Lula, porém, não pretende reduzir o ritmo de viagens. Promete mantê-las. Seus auxiliares esperam, no entanto, que ele não volte aos discursos raivosos e deixe a crise em Brasília.

Pente-fino
Segundo auxiliares de Lula, a decisão do chefe de adotar um estilo mais radical não significa que estivesse se sentindo "ameaçado" no cargo. A informação obtida dentro do governo pela Folha é que o presidente está tranqüilo, certo de que nada será encontrado que possa ligá-lo ao escândalo do "mensalão".
Essa certeza, segundo a Folha apurou, viria de uma "operação pente-fino" montada pelo Gabinete de Segurança Institucional, com agentes da Abin (Agência Brasileira de Informações) e da Polícia Federal. Os agentes vasculharam todas as operações que poderiam envolver o presidente com os negócios armados pelo ex-tesoureiro petista Delúbio Soares. Nada teria sido encontrado contra Lula.
Teriam passado pelo crivo da Abin e da PF os cartões de crédito corporativos da Presidência, que poderiam ter sido utilizados para gastos pessoais de familiares do presidente Lula.
Também foram analisados gastos pessoais da mulher do presidente, Marisa Letícia, e dos seus filhos, que estavam sendo citados reservadamente por membros da oposição como suspeitos de terem sido pagos com dinheiro vindo do esquema Marcos Valério.
Os agentes também verificaram a agenda do presidente no Palácio do Planalto, no Palácio da Alvorada e na Granja do Torto, para checar possíveis audiências que pudessem comprometê-lo.
A operação, feita com o consentimento de Lula, foi montada para dar segurança ao presidente. Segundo a versão obtida pela reportagem, o temor era que, por "um deslize ou completo descontrole", algo fosse detectado ligando o petista ao escândalo.
Até uma dívida de R$ 29.436 atribuída pelo PT ao presidente teria sido analisada. A CPI dos Correios suspeita da operação de quitação da dívida, mas segundo a investigação do governo tudo não passou de uma confusão contábil do partido, um "ajuste de caixa" para zerar o débito.

domingo, 7 de agosto de 2005 12:33:00 BRT  

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