domingo, 24 de julho de 2005

E agora, Lula? ( à procura de alguma luz )

Destinos do presidente e do Partido dos Trabalhadores estão interligados e interferem na vida de todos os brasileiros. Para falar sobre possíveis cenários, o Correio ouviu quatro especialistas políticos

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 24 de julho de 2005 - Houve uma época na qual investidores e empresários torciam contra o Partido dos Trabalhadores. A visão futura de Luiz Inácio Lula da Silva no poder despertava temores de radicalização social e de heterodoxia na gestão econômica. Era um tempo em que o “risco PT” crescia junto com a força da legenda. A crise política virou do avesso esse cenário.
Está em dissolução o núcleo dirigente que impôs a “Carta aos Brasileiros” e seus compromissos de moderação e equilíbrio na economia. Que convenceu o partido a dividir algum poder com aliados e a fazer alianças antes impensáveis. Que, enfim, construiu e sustentou a frágil ponte entre a tradição petista e as necessidades práticas da vida política real.
A hegemonia desse grupo faz parte do passado. Seu ocaso coincide com o forte desgaste da imagem partidária, atingida pelas acusações diárias que alimentam a crise. A legenda vive seu momento mais crítico. De sigla que se fortalecia a cada eleição, passou a alvo político preferido e sangra em praça pública. Virou objeto de uma desconstrução violenta e sistemática. Na última pesquisa do Ibope, foi a instituição mais citada como alvo de denúncias.
É nesse cenário que nasce um novo e paradoxal “risco PT”. Antes, temia-se a força progressiva do partido e sua vocação hegemônica. Agora, suspeita-se de que seu isolamento e enfraquecimento, quase uma demolição, acabem paralisando o governo e empurrando os petistas do centro para a esquerda. Para bem longe do superávit primário, da austeridade monetária e da necessária convivência democrática com as demais forças políticas.
O assunto não interessa apenas ao PT. É ele quem governa o país de petistas e não-petistas. É Lula quem comanda a economia, pelas mãos de Antonio Palocci. Uma economia que começa a emitir sinais de pouco fôlego. E Lula tem direito a mais dezessete meses de mandato, além da reeleição. O que vai ser do PT? O que vai acontecer com Lula?
Para tentar jogar alguma luz sobre essas dúvidas, o Correio Braziliense ouviu quatro analistas e consultores políticos: Christopher Garman, (Eurasia Group), Rogério Schmitt (consultoria Tendências), Luciano Dias (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos) e Carlos Pio (Universidade de Brasília). Abaixo, a essência do que eles disseram.
É muito difícil imaginar um Lula forte com o PT fraco. Em maior ou menor grau, os quatro concordaram que os destinos de ambos estão interligados. “A separação entre Lula e o PT não é factível no médio e longo prazos. Falta muito tempo até a eleição e o desgaste do partido fatalmente vai contaminar o Lula”, diz Luciano Dias. Por um outro ângulo, Rogério Schmitt observa que “só um Lula forte pode dar esperança eleitoral ao PT em 2006”. Carlos Pio é o mais reticente: “Acho que interessa à própria oposição preservar de alguma maneira o presidente”. Christopher Garman completa: “Lula pode estar forte junto à opinião pública, mas não terá boas perspectivas eleitorais se o PT estiver fraco. Terá muita dificuldade para fazer alianças e mesmo levantar recursos”.
O PT vai dar algum tipo de guinada à esquerda. O Campo Majoritário, que domina o partido, só mantém o controle se dividir a oposição interna, de esquerda. Para isso, precisará fazer concessões. “Palocci não conseguirá ocupar o espaço deixado pela forte liderança de José Dirceu e a tendência de volta às raízes me parece muito forte”, diz Christopher. Segundo ele, essa “volta” pode ser uma alternativa para a ressurreição política do próprio Dirceu. “O Campo Majoritário vai precisar responder à acusação de ter levado o partido à bancarrota. Ir mais à esquerda será uma reação natural”, concorda Luciano Dias. Carlos Pio também acredita que o campo majoritário “não tem mais legitimidade para conduzir o partido como sempre conduziu, sozinho”. Schmitt concorda que o setor dominante da máquina vai enfrentar “fortes pressões” se quiser manter o comando total.

Transição
A agenda legislativa deve ficar quase paralisada até o fim do governo. Schmitt diz que a reta final do mandato de Lula será uma espécie de governo de transição: “Ainda que mantenha a popularidade, não terá apoio legislativo para nada importante. Isso deve ficar para o próximo presidente.” Christopher acredita também que “a agenda de reformas estreitou-se dramaticamente”. Novos avanços, só por consenso. “Talvez a reforma tributária e alguns pontos da pauta microeconômica.” Luciano pensa que o governo não contará com a ajuda da oposição “para nada importante” se PSDB e PFL suspeitarem que podem correr o risco de dar fôlego extra a Lula. Carlos Pio aposta que caminhamos para uma “sarneyzação sem inflação”, numa referência ao período final do governo José Sarney. Ou seja, governo fraco e sem iniciativa. Mas com a economia controlada.
Não há consenso sobre uma nova candidatura Lula. Rogério Schmitt (80%) e Christopher Garman (70%) são os mais otimistas quanto à possibilidade de o atual presidente concorrer competitivamente a um novo mandato. Carlos Pio (40%) e Luciano Dias (30%) são mais céticos.
A tendência mais provável é Lula completar o mandato. Todos os analistas consideram remota a hipótese de o presidente Lula sair antes da hora. Christopher aposta que o presidente tem 90% de chance de terminar o mandato. Schmitt sobe para 95%. Carlos Pio marca 85%. Luciano Dias crava 80%.
É verdade que revelações sobre uma possível ligação de Lula com dinheiro do caixa dois administrado por Marcos Valério e Delúbio Soares podem inverter o quadro, instantaneamente. Mas todos admitem que o presidente tem um último escudo: a popularidade. Enquanto esta resistir, enquanto estiver intocada a identidade com os mais pobres, nem mesmo a oposição mais radical arriscaria iniciar o ataque definitivo para tirar Lula do poder antes do prazo.

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