quarta-feira, 16 de abril de 2014

Um novo e grande desafio (16/04)


Encerrei ontem minha participação na FSB Comunicações, onde nos últimos dois anos dirigi o escritório de Brasília. A partir de hoje assumo um novo desafio político-profissional, a coordenação de Comunicação da pré-campanha de Eduardo Campos e Marina Silva ao Palácio do Planalto. Vc poderá me encontrar aqui, no tuíter @AlonFe e no Instagram @AlonFe_.



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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mudança (09/01)



Aviso:
Em 2011 encerrei minha participação como colunista do Correio Braziliense. Depois destas férias/recesso começo hoje na FSB Comunicações.
Até...



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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Parece eterno (30/11)


O brasileiro tem problemas para pagar as dívidas porque elas custam muito caro. E não é que elas custem caro pela dificuldade de cobrá-las. Aqui, sabe-se com precisão que a galinha nasceu antes do ovo. O sujeito fica inadimplente tentando pagar a dívida, e não porque tentou escapar dela

O Comitê de Política Monetária está reunido para analisar e decidir mais um corte no juro básico, a taxa que o governo paga a quem lhe empresta dinheiro.

É algo mais complicado que isso, mas simplificar não chega a ser crime capital. Como ensinam os grandes líderes, o primeiro passo para tentar explicar a realidade é buscar simplificá-la.

O Copom vem num bom momento, por ter vencido o cabo de guerra contra quem meses atrás criticou a decisão de começar a baixar radicalmente o juro básico, mesmo com a inflação inquieta.

Deu certo. A inflação anda razoavelmente comportada, no teto da meta. Que foi aliás o prometido pelo Banco Central.

As projeções para 2012 continuam aquecidas, é verdade, mas até o fim do ano que vem o BC tem margem para manobrar. Pois a promessa do BC é que o ritmo dos preços convergirá daqui a doze meses para 4,5%.

Mesmo num país desmemoriado, como o nosso, é promessa com boa chance de ser cobrada.

A antecipação do BC e do governo evitou que a mediocridade econômica, uma provável marca registrada deste quadriênio,  virasse estagnação instantânea.

E o governo Dilma Rousseff ganhou espaço operacional para pelo menos apresentar resultados não nulos nesse campo. Politicamente será um ativo.

Para uma nação que abandonou o desenvolvimentismo e agora faz o jogo do contente, 3% pode até ser apresentado como trunfo.

O governo Dilma beneficia-se de sermos um país com baixas expectativas. Aceitamos, por exemplo, e bovinamente, que o limiar da classe média fique num nível baixo, e daí festejamos o ingresso de milhões nessa mesma classe média.

Por falar em juros, e não é a primeira vez que escrevo aqui, impressiona a nossa passividade diante das taxas cobradas do investidor e do consumidor. Com a notável exceção de quem tem acesso ao subsidiado.

Isso explica em parte. O Brasil pratica um juro para quem tem poder e outro para quem não tem. E sobra a estes últimos reclamar, sem o mesmo impacto que haveria caso os primeiros estivessem no barco.

O juro extorsivo já recebeu diversas explicações entre nós. Disseram que a coisa melhoraria com a introdução de novos mecanismos legais, como a lei de falências e o cadastro positivo. Aguardam-se os resultados. E convém esperar em posição confortável.

Outro mantra diz que o brasileiro paga muito juro pois é muito inadimplente. Mas ninguém prova que somos mais caloteiros, na comparação. Eu aposto que é o contrário. O brasileiro tem problemas para pagar as dívidas porque elas custam muito caro.

E não é que elas custem caro pela dificuldade de cobrá-las. Aqui, sabe-se com precisão que a galinha nasceu antes do ovo. O sujeito fica inadimplente tentando pagar a dívida, e não porque tentou escapar dela.

É uma encrenca resistente. Parece insolúvel. Só parece, pois outros povos já a resolveram. Mas aqui prefere-se o esconde-esconde. Finge-se que tudo vai bem. A espoliação financeira é apresentada como um dado da natureza.

Como o sol que nasce e se põe todo dia.

O estilo

Há uma certa tensão no Congresso, instado a votar a Desvinculação de Receitas da União (DRU) e pressionado a não emendar muito a peça orçamentária.

Cerca de 20 bilhões resolvem o problema das emendas, enquanto a DRU, no cálculo realista, vai dar de mão beijada pelo menos 100 bilhões para o Executivo gastar como quiser.

Ou seja, se houver vontade política resolve-se. Inclusive porque atenderia a segmentos dentro do governo, os insatisfeitos com o andar da carruagem.

E porque o governo executa ou não as emendas parlamentares conforme a conveniência dele.

Uma dificuldade, no Congresso, tem sido costurar a solução. Outra dificuldade é descobrir quem, no poder, pode efetivamente ajudar a resolver politicamente a coisa.

É a primeira negociação orçamentária do governo Dilma. Vai servir para identificar um estilo. Se mais ou menos imperial.

Até onde os lados vão esticar a corda? O governo tem os restos a pagar como um colchão de começo de ano. O Congresso só tem os problemas que pode causar ao governo.

Férias

Ao longo de dezembro estarei em férias. Obrigado pela audiência, boas festas e um ótimo 2012.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (30) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Saiu de moda (29/11)


Todo mundo acha lindo estimular a consciência ambiental, mas todo mundo quer mais energia, mais matéria-prima, mais comida. E não dá para condenar. Você, que condena, está disposto a andar para trás se isso for indispensável a que outros possam ir adiante?

A cúpula sobre mudanças climáticas em Durban, África do Sul, acontece num momento ingrato.

Se o alerta sobre os efeitos do aquecimento global eclodiu anos atrás num período de bonança, o debate agora se dá em meio à ameaça de estagnação prolongada, uma curva em “U”.

E os mais pessimistas arriscam dizer que será em “L”, sem data para voltar a subir a ladeira. Um modelo japonês.

De três anos para cá o mundo passou a preocupar-se mais com o crescimento e o emprego do que com a elevação da temperatura do planeta e os efeitos nocivos.

Pois há os não tão nocivos. Russos e canadenses, por exemplo, devem estar loucos para aquelas terras todas descongelarem e virarem plantações.

As dúvidas científicas jogam um papel, mas menor. Os céticos do clima não estão com essa bola toda.

O xis do problema aparece na falta de horizontes para o combate radical à pobreza e na falta de oportunidades suficientes para quem mais precisa delas.

Ninguém diz, na real, como fazer as duas coisas ao mesmo tempo. 1) Crescer e combater fortemente a pobreza e 2) reduzir a emissão de CO2 e congêneres.

O tempo foi passando e a luta contra o aquecimento global foi ficando com cara de coisa de quem já tem tudo e propõe que quem não tem nada continue sem ter.

Sem falar na realidade que mudou.

Quando surgiu a onda, o crescimento chinês era apontado pela militância como paradigma do que não fazer, como caminho a combater, pela subordinação das variáveis ambientais às econômicas.

Hoje, o mundo preocupa-se ao contrário. Teme que a desaceleração chinesa resulte, com a estagnação europeia e a lentidão americana para decolar, em soma vetorial desastrosa.

A agenda virou do avesso. No Brasil, a fúria mercadológica do etanol ficou na poeira. Pois o mercado mundial para biocombustíveis micou.

Da invencível armada da cana sobrou a fatura, com produtores atrás de garantias para produzir e o governo atrás de garantias de que produzam.

A conta, naturalmente, restará para o contribuinte. O novo proálcool terá o destino do velho.

E agora só se fala no petróleo do pré-sal, cuja extração, aliás, produz bem mais gases do efeito-estufa, dizem. E ninguém está nem aí.

Pode até dar uma vazadinha, a turma fará algum barulho, mas no fim vai ficar por isso mesmo.

Proponha suspender a retirada do petróleo sob a camada de sal, para ajudar a salvar o planeta, e candidate-se a uma vaga na galeria dos folclóricos, dos lunáticos.

Ou dos traidores da pátria.

Epíteto que um dia foi aplicado a quem duvidava do “projeto etanol”. Pois o impatriotismo é um rótulo sempre à disposição de governos que precisam justificar o que fazem.

Os otimistas apostam num novo Kyoto, desta vez subscrito por todos, inclusive por nós.

O realismo adverte que, se acontecer, será suficientemente vago e flexível para acomodar interesses antagônicos, oferecer uma photo-op aos protagonistas e resultar em efeito prático nenhum.

Mais ou menos como o primeiro.

A coordenação global contra as mudanças climáticas esbarra numa barreira até agora intransponível.

Para abrir espaço ao crescimento das emissões nos países que vêm atrás, os que vão na frente precisariam não apenas desacelerar, mas reduzir em valores absolutos.

Um impasse político insolúvel, pois quem já saboreia os confortos da civilização não abrirá mão. No máximo engrossará correntes bem intecionadas, propagandísticas.

Para polir a imagem, sempre bom.

Todo mundo acha lindo estimular a consciência ambiental, mas todo mundo quer mais energia, mais matéria-prima, mais comida.

E não dá para condenar. Você, que condena, está disposto a andar para trás se isso for indispensável a que outros possam ir adiante?

Desespero

As Farc começaram a executar reféns.

Já os presidentes da Colômbia e da Venezuela transformaram-se em amigos de infância. Sob aplausos brasileiros e americanos.

O isolamento aumenta muito a tendência ao desespero. E o desespero costuma ser péssimo conselheiro.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (29) no Correio Braziliense.



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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um erro (28/11)


Os ministros herdados pela nova presidente, ou alguns deles, vem cometendo um erro de avaliação. O cenário da guerra com Luiz Inácio Lula da Silva era um. Com Dilma Rousseff é outro

Há certa rotina quando aparecem acusações de corrupção contra políticos. Os adversários apressam-se para condenar, enquanto os aliados correm a acusar o que chamam de denuncismo.

Aliás, uma definição algo humorística para a dualidade é considerar que denuncismo são as denúncias lançadas contra nossos aliados enquanto denúncia é o denuncismo praticado contra nossos adversários.

Uma piada que merece ser levada completamente a sério.

É o teatro da política, com seus atores. Quando é contra adversários, uma revelação, uma palavra de ministério público, um relatóriUo de tribunal de contas, um depoimento, tudo serve como prova definitiva.

Quando é contra aliados, exige-se o trânsito em julgado, a sentença da última instância, a presunção pétrea de inocência, o in dubio pro reo.

Quando é contra adversários, exalta-se a independência do Legislativo como esfera de fiscalização do Executivo. Quando é contra aliados, exerce-se a maioria parlamentar para trancar a porta às investigações.

Em nome da governabilidade. Para evitar a indesejável politização de algo que deveria correr apenas na esfera jurídica.

São scripts manjados, estão aí desde que o mundo é mundo.

Como equilibrar-se na gangorra? Não há solução simples. Os princípios jurídicos estritos não se aplicam à política.

Não dá para defender, como regra, manter no cargo o político acusado até que a instância judicial definitiva se pronuncie. E não dá para estabelecer que aqualquer acusação implique remover o acusado.

A verdade, como de hábito, costuma estar em algum ponto intermediário. Mas como localizar o ponto de equilíbrio na política? Infelizmente (ou felizmente, vai saber...) ele é definido pela relação de forças, pela disposição dos exércitos.

Disposição em ambas as acepções. Distribuição e vontade de combater. E, como em toda guerra, a vontade de lutar aumenta conforme a chance de vitória. E o contrário também vale.

Os ministros herdados pela nova presidente, ou alguns deles, vem cometendo um erro de avaliação. O cenário da guerra com Luiz Inácio Lula da Silva era um. Com Dilma Rousseff é outro.

Lula começou o governo centralizando poder, mas a crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson obrigou-o a acelerar a descentralização. E esta transformou-se em fonte de poder presidencial, pela blindagem propiciada.

Já Dilma precisaria buscar poder desfazendo o que Lula fizera. Para governar, retomar o controle do próprio governo, desfazendo feudos e dissolvendo bolsões de autonomia orçamentária.

Eis por que a relação de forças é desfavorável aos ministros que entram na linha de tiro.

Enquanto a periferia do governismo busca desvendar as conspirações e acusa quem aponta o dedo para os problemas chamados éticos, o governo porpriamente dito, especialmente a presidente, surfa na onda.

De vez em quando precisa moderar o ritmo, para dar alguma satisfação ao público interno, mas nada além disso.

A aliança de Lula era com os partidos e contra um certo pedaço da opinião pública. Já Dilma cultiva as relações com os antigos adversários de Lula, para limitar o poder do entorno. Mas sem romper com o entorno.

O dilmismo deseja o melhor dos mundos. Manter o arco de alianças construído por Lula e neutralizar os focos de crítica. Daí que pareça governar sem oposição.

Aposta

O governo aposta no mercado interno para superar a pasmaceira decorrente das dificuldades econômicas europeias, que terão impacto global. Já vêm tendo.

A aposta é a de costume. Ampliar crédito, proteger setores econômicos, apoiar-se numa certa autarquização.

Faz sentido, desde que a linha inclua mecanismos para aumentar radicalmente a competitividade da economia brasileira, nossa capacidade de buscar mercados.

Pois um dia a crise vai passar e é preciso saber como vamos estar então. Se estaremos prontos a disputar com vantagem os espaços numa economia mundial relançada.

Pelo menos na indústria, o cenário está longe de ser animador.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (28) no Correio Braziliense e no Estado de Minas.



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domingo, 27 de novembro de 2011

Mar sem muros (27/11)


O lógico é concentrar no governo federal o dinheiro para combater acidentes petrolíferos. Pois se um poço vaza no Espírito Santo e o desastre atinge uma praia da vizinha Bahia o governo baiano irá buscar dinheiro em Brasília, e não em Vitória.

O acidente ambiental na operação petrolífera da Chevron desencadeou surtos de consciência e esperteza.

Consciência? O vazamento mostrou mais uma vez que não existe risco zero na obtenção de energia. O desenvolvimento tem custo ambiental, obrigatório ou potencial. A utopia moderna é o bem-estar para todos com 100% de “sustentabilidade”. Impossível.

O que fazer, então? Alguns propõem renunciar a tudo.

A cada fonte de energia há alguém que afirma ser indispensável abrir mão dela para salvar o planeta. Inviável. Se ouvidos todos os profetas do apocalipse, a humanidade estará condenada a comprar passagem de volta para a Idade da Pedra.

Quem fura o chão do mar para procurar e extrair óleo está arriscado a deixar vazar para a água. Isso vale para o pré-sal ou para a extração convencional. O Brasil é líder mundial em petróleo extraído no mar. Então que cuide de fazer da melhor maneira possível.

Como a Chevron é americana, uma parte da reação pública e popular escoou pelo canal da xenofobia. E se fosse a Petrobras? Ou uma parceira brasileira da estatal? A Petrobras garante que é impossível acontecer algo parecido na operações dela própria?

Aliás os americanos estão isentos da acusação de não praticar o desleixo que exportam para o Terceiro Mundo, pois o acidente parecido no Golfo do México foi bem pior. Ainda que a empresa naquele caso fosse britânica.

Então não é por aí. O problema é outro. Será que o Estado brasileiro utiliza convenientemente os recursos do petróleo para minimizar a possibilidade de acidentes e para, quando acontecerem, minimizar as consequências?

Ficou essa dúvida.

E a esperteza? Tentar conectar o acidente da Chevron ao debate sobre a destinação dos royalties. Os estados em cujo litoral se extrai o óleo estariam agora legitimados para pedir a parte do leão, pois mais sujeitos a risco.

Ora, o mar não é murado. O óleo vazado pode ser carregado pela água para qualquer lugar. O desastre ecológico não acontecerá necessariamente nas praias do estado em cujo mar houve o vazamento.

E o argumento vira bumerangue. O mais razoável não é deixar nos cofres estaduais os recursos de prevenção e combate a desastres petrolíferos. É concentrar no governo federal. E este irá aplicá-los onde for necessário.

Pois se, por hipótese, um poço vaza no Espírito Santo e o desastre atinge uma praia da vizinha Bahia o governo baiano irá buscar dinheiro em Brasília, e não em Vitória.

Esse é o argumento lógico. mas tem também o empírico. Quanto dos royalties do petróleo vem sendo investido nessa rubrica específica pelos estados hoje beneficiados?

Os que têm hoje a parte do leão por acaso dão prioridade financeira a ações para prevenir e combater problemas ambientais e sociais decorrentes da extração petrolífera? Aguardam-se demontrações.

Proporcional

Disse aqui colunas atrás que em meio a outras acusações atenção especial deveria ser voltada às atividades do Ministério do Trabalho na certificação de sindicatos.

Pule de dez.

É bizarro que persista entre nós este traço do Estado Novo, o governo dizer que sindicato representa a categoria. É um poder intolerável e que induz à corrupção.

É aliás estranho que a CUT, nascida também para acabar com isso, tenha deixado com o tempo o tema em segundo plano.

E o risco de fragmentação sindical das categorias? Será real, pois os insatisfeitos com a orientação partidária poderão formar novos sindicatos.

Para isso há duas soluções possíveis. Uma é aceitar essa realidade e formar coligações sindicais na base para negociar unificadamente com os patrões. Como já acontece na cúpula, com as centrais sindicais.

Outro caminho é estabelecer a unicidade em lei, mas desvincular o sindicalismo da estrutura do Ministério do Trabalho e adotar mecanismos proporcionais obrigatórios nas eleições da entidades.

Haveria um só sindicato, mas cada corrente política teria nele a representação proporcional aos votos. Quem conseguisse a maioria, comandaria. Mas a oposição estaria representada. Como acontece hoje na UNE.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (27) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Força relativa (25/11)


Quando um país decide se meter na vida de outro sua voz será ouvida na medida dos meios à disposição para fazer valer o que acha.

Representantes dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China) emitiram ontem em Moscou um comunicado conjunto sobre a situação no Oriente Médio e Norte da África.

É movimento com significado político claro: buscar algum protagonismo em cenário até agora dominado pelos Estados Unidos e aliados mais orgânicos.

O documento reafirma alguns posicionamentos conhecidos, como a oposição a ingerências externas na crise síria e a novas sanções unilaterais ao Irã.

As posições não são novas mas a reafirmação vem num momento delicado.

Pois na Síria as condições amadurecem para um desfecho à Líbia.

E Estados Unidos e Europa escalam pressões contra Teerã, após a Agência Internacional de Energia Atômica ter atestado o que já se sabia: que o "caráter pacífico" do programa nuclear iraniano é para inglês ver.

Os Brics têm lá seu poder de fogo no terreno diplomático, mas enfrentam uma dificuldade prática. Não parecem contar com as cartas decisivas na manga.

Se Estados Unidos e Otan mostram disposição crescente para ações militares, é impensável forças russas, chinesas, indianas ou brasileiras em combate na defesa da tirania cleptocrática de Bashar Assad ou do condomínio nuclear entre Mahmoud Ahmadinejad e os aiatolás.

No limite, é disso que se trata. Quando um país decide se meter na vida de outro sua voz será ouvida na medida dos meios à disposição para fazer valer o que acha.

Fora isso, é a diplomacia pela diplomacia. Sujeita à ameaça permanente de atropelamento pela vida real.

O clima entre Brics e Estados Unidos/Otan já esteve melhor.

Aqueles consideram que estes usaram a resolução do Conselho de Segurança da ONU para impor pela força a mudança de regime na Líbia. Quando a ideia era só impedir que Muamar Gadafi massacrasse a oposição.

A Rússia anda inquieta com o escudo antimísseis projetado pelos Estados Unidos na Europa Oriental. Washington diz que é para conter o Irã, mas Moscou enxerga como ameaça a si.

E ameaça apontar mísseis para o sistema antimísseis. Bem ali ao lado da Polônia.

E a China não deve ter ficado especialmente feliz com a explícita intenção americana de reforçar posições no Extremo Oriente.

Barack Obama não poderia ter sido mais claro a respeito quando anunciou o estacionamento de marines na Austrália.

Novo

Mas pelo menos num aspecto a posição divulgada ontem pelos Brics aproximou-se do que defende Washington.

Tomar as fronteiras pré-1967 apenas como referência para o desenho dos limites de um eventual Estado Palestino, e não como linhas pétreas.

O texto é claro. "Os Estados dos Brics apoiam a retomada nas negociações israelense-palestinas para o estabelecimento de um Estado Palestino independente, viável e territorialmente contíguo, com plena soberania no interior das fronteiras de 1967, com trocas territoriais mutuamente acordadas e com Jerusalém Oriental como sua capital."

"Trocas territoriais mutuamente acordadas" foi precisamente a carta nova que Barack Obama colocou na mesa quando discursou meses atrás para relançar a estratégia americana para o conflito.

Uma novidade que nunca constara das posições oficiais brasileiras. Ainda que o Brasil sempre tenha enfatizado, como lembra o Itamaraty, a necessidade de negociações para solucionar os impasses centrais entre israelenses e palestinos.

O Itamaraty argumenta que comunicados conjuntos não definem políticas nacionais, mas o texto de ontem dos Brics tem originalidade quando analisado à luz do que o Brasil vem dizendo desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu a Palestina nos limites pré-1967.

A posição brasileira estrita é inaplicável. Um exemplo: pelas linhas pré-1967 o Muro das Lamentações, referência sagrada para os judeus, ficaria sob controle árabe-palestino. E é só um exemplo. Há também novas realidades demográficas a considerar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (25) no Correio Braziliense.



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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Estabilidade instável (24/11)


O governo Dilma opera bem, mas na comparação com o vazio. As alternativas não estão postas. Pois na política a avaliação é sempre relativa, depende do referencial, especialmente na hora do voto

Será interessante observar até que ponto a manutenção do ministro do Trabalho irá comprometer a imagem projetada por Dilma Rousseff, de governante inflexível no terreno da ética.

Até agora a queda em cascata de ministros enrolados vem acrescentando capital intangível à presidente, olhada por segmentos da opinião pública e da população como antípoda -neste aspecto- do antecessor.

O valor agregado aparece em pesquisas nos segmentos sociais e geográficos eleitoralmente mais sensíveis à centralidade da demanda de um governo ético, signifique o que significar. Pois a ideia é difusa e de limites pouco definidos.

Há quem aceite o chamado fisiologismo, mas sem corrupção. E há quem repudie todo sistema de troca de influência orçamentária por apoio político. Ainda que não se conheça político que pense -ou aja- assim no governo.

Ou democracia que prescinda da repartição de poder.

Como em tudo na vida, a dificuldade mora nos detalhes. Há situações limítrofes e outras óbvias. O caso do ministro do Trabalho deveria enquadrar-se na última categoria, pelas idas e vindas nas explicações. E pelo deboche.

Essa razão leva a que ele seja visto como lutador de boxe já nocauteado mas ainda em pé. A sobrevida depende de o round (ou a luta) acabar rapidamente ou, por milagre, de ele acertar um golpe decisivo no adversário.

A primeira opção está enquadrada nos prazos da tal reforma, ou minirreforma, ministerial. Que virá provocada pelo calendário eleitoral mas motivada pelo fenômeno da coabitação entre um ministério velho e uma presidente nova.

A segunda é na prática impossível, pois o alvo do fogo precisaria ter um estoque suficientemente grande de golpes para desferir contra todos os atiradores, que são muitos. Dentro e fora do governo e do partido.

Na vida real, o ministro está por um jab.

Mas esta coluna não é sobre o destino do ministro do Trabalho, um assunto menor da cena política. É sobre uma pauta mais importante: o estado do marketing da faxina e o nível da demanda social por um governo honesto.

Há por aí um raciocínio enviesado, de que só a classe média e os ricos se preocupam muito com isso, de que os pobres aceitam bem o modelo do “rouba mas faz”. Não é assim.

Aqui comparece sempre um modelo de trade-off. O balanço entre o que se ganha e o que se perde.

Quem precisa menos dos serviços do Estado tem menos variáveis a considerar no perde-ganha, e a chamada ética adquire mais peso relativo. Já o outro grupo costuma considerar variáveis em maior número.

Isso não significa que uns tenham mais flexibilidade moral diante da corrupção, apenas são mais vulneráveis a políticas públicas capazes de neutralizar eleitoralmente os problemas no terreno da probidade.

O governo Dilma Rousseff e a presidente apresentam resultados medianos mas vem operando bem nos dois públicos. Para uns, é a continuidade da linha de preocupação social do antecessor. Para outros, é uma certa ruptura com modelos excessivamente tolerantes de governança.

Qual é o problema, então? É que o governo Dilma opera bem, mas na comparação com o vazio. As alternativas não estão postas. Pois em política a avaliação é sempre relativa. Depende do referencial, especialmente na hora do voto.

O eleitor decide comparando as opções, apenas uma minoria tem compromisso ideológico-partidário.

Por isso o quadro é de estabilidade instável. O equilíbrio dependerá de o condomínio governamental controlar sempre todas as variáveis, o que exigirá imensa perícia e capacidade de aglutinação.

Mais ainda no Brasil, onde a multiplicidade de partidos, e portanto de portas de entrada na disputa eleitoral, favorece a entropia. E vai ficando cada vez mais complicado à medida que o governo envelhece.

Estreito

O Brasil evoluiu para a condenação do regime sírio, na última votação na ONU. Mas absteve-se no caso do Irã por considerar que o texto contra Teerã era pouco equilibrado, nas palavras do Itamaraty.

Sobre a Síria, pesou também a posição da Liga Árabe. Essas são as explicações.

O fato? Estreita-se progressivamente o espaço para nossa dubiedade.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (24) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Velhice (22/11)


A Europa, como os Estados Unidos, consome demais e produz de menos. Mas, diferente dos americanos, não tem um ambiente com liberdade econômica suficiente para relançar rapidamente a expansão capitalista

Uma crise econômica gravíssima que aumenta exponencialmente a taxa de desemprego deveria levar as pessoas a pedir mais proteção do Estado e, portanto, favorecer a esquerda.

Mas na Europa quem emerge na crise com poder político reforçado é a direita.

Mesmo na Itália, onde o tsunami econômico-financeiro derrubou o direitista Silvio Berlusconi, quem entrou no lugar foi um governo "técnico" comprometido com a austeridade.

Austeridade parece ser a palavra da moda na Europa. Da Grécia ao Reino Unido, da Itália à Espanha, os eleitores parecem inclinar-se agora para quem sempre defendeu menos Estado, não mais.

Há exceções, como a Dinamarca, mas são exceções.

Quando a primeira grande onda da crise engolfou o mundo desenvolvido, a linha imediata de defesa foi o Estado.

Que se endividou e emitiu o suficiente para evitar a quebra das empresas, financeiras ou não, grandes demais para irem à breca.

Na primeira fila, o premiê britânico, Gordon Brown, a quem devemos muitos agradecimentos por o planeta não ter quebrado.

Brown defendeu que os Estados oferecessem garantias ilimitadas para evitar que maus passivos causassem falências em cascata.

O premiê, ele próprio ex-ministro das Finanças do longevo governo trabalhista de Tony Blair, só por isso já mereceria uma estátua.

Além de não recebê-la, foi duplamente mandado para casa na primeira eleição: perdeu o cargo e também a liderança do partido.

Agora é o colega espanhol quem segue o mesmo caminho.

Qual é o problema da Europa? O mesmo do resto do mundo. O modelo funcionou razoavelmente para evitar o pior, mas não indica as portas de entrada para um mundo melhor.

Uns dizem que o remédio é ruim, outros dizem que a dose foi insuficiente, mas os povos não parecem querer pagar para conferir esta segunda hipótese.

Para sair da crise com vigor, a Europa precisaria reorganizar-se economicamente e buscar para si algum protagonismo.

Tirando a Alemanha e seu ainda vigor tecnológico, o que exatamente a Europa faz melhor que o resto do mundo?

Em inovação, os americanos lideram, seguidos pela Ásia. Em commodities agrícolas, quem manda é o mundo emergente. Igualmente em recursos minerais.

Energia? Não parece que a Europa tenha algo de realmente novo a oferecer.

Indústria, exportação? Aqui manda a China. Serviços? Muita gente competitiva, não parece haver grande vantagem para ninguém.

A Europa, como os Estados Unidos, consome demais e produz de menos. Mas, diferente dos americanos, não tem um ambiente com liberdade econômica suficiente para relançar rapidamente a expansão capitalista.

E o risco que corre é ser devorada de um lado pela superpotência e de outro pelos emergentes.

Um problema do Velho Mundo é exatamente este: a velhice.

Paralelismos

Analistas fazem paralelos entre o cenário espanhol e o brasileiro, duas economias de crescimento baseado não em poupança, mas apenas na expansão do crédito.

O Brasil tem diferenças óbvias em relação à Espanha. A primeira e mais importante é a alta taxa de emprego.

O problema é que o baixo desemprego brasileiro se deve bastante à expansão do consumo via crédito.

Mas tudo tem limite, e se hoje o brasileiro não chega a dever muito, na comparação com outros, arca com um serviço altíssimo das suas dívidas, alimentadas pelo nosso juro recorde.

Tanto a Europa como o Brasil precisariam absorver algo do modelo chinês. Dar mais peso relativo à poupança e às exportações.

E isso no exato momento em que a China percorre o caminho oposto. Pois os chineses perceberam lá atrás que não dá para sustentar um crescimento baseado só nas exportações num mundo cada vez mais protecionista.

Vaticínios

Barack Obama foi ao Extremo Oriente para relembrar que os Estados Unidos estão ali para ficar. Vão até fixar tropas na Austrália.

O recado é para a China.
E os aliados dos Estados Unidos fecham a tenaz em torno do Irã.

A superpotência não parece muito convencida dos vaticínios a respeito do seu declínio inevitável.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (22) no Correio Braziliense.



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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Vai esquentar (21/11)


A Comissão da Verdade começa relativamente consensual, mas tem tudo para transformar-se em palco de intensa luta político-ideológica

Vem aí a Comissão da Verdade, produto do compromisso com alguma solução política que 1) confirme a intenção governamental de dar satisfação sobre os fatos da ditadura (1964-1985) e 2) evite dissensos em grau que possa atrapalhar o governo.

Aparentemente a coisa anda sob controle, delimitada pelas decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a Anistia e pela amplitude da costura feita para o projeto passar no Congresso.

Aliás o relator no Senado foi do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira (SP). Ele próprio um ex-guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional. E que depois migrou para o Partido Comunista Brasileiro, para a linha de luta de massas e frente ampla contra a ditadura.

Tudo parece estar controlado, mas a vida é mais complexa que os esquemas previamente definidos. E os fatos políticos uma vez nascidos ganham pernas. Passam a caminhar com certa autonomia.

É o que acontecerá com a Comissão da Verdade.

Seus membros serão escolhidos com um olho na isenção, dizem. Impossível na prática.

Os mundinhos da política e da opinião pública costumam cultivar a ilusão do apartidarismo, das personalidades técnicas, das expressões suprapartidárias.

Dos entes moral e intelectualmente acima das diferenças que engolem os mortais comuns. Engana-me que eu gosto.

Quando a roda começa a girar a conversa muda. Cada um assume seu lado e o bicho pega.

A Comissão da Verdade, concebida como foi e montada como será, vai carregar um imenso potencial publicitário.

Será uma fonte caudalosa de pautas, de matéria-prima para o trabalho jornalístico fora do ramerrame da politiquinha.

E já lembrava o personagem vivido por Al Pacino no belo Advogado do Diabo: o pecado capital preferido do tinhoso é a vaidade. E a política sem vaidade ainda está por ser inventada.

Quem vai resistir à tentação de sobressair como justiceiro? É quase irresistível. Quem vai resistir a assumir o papel de certificador histórico? Será quase desumano pedir ao sujeito que recuse.

Esse segundo aspecto é menos discutido. Há no governo interesse em que a Comissão da Verdade produza uma nova história oficial do regime militar. Algo que venha como a palavra definitiva sobre aquele período.

Ainda que no longo prazo seja inútil, pois o destino das histórias oficiais é a desmoralização. Que vem quando o vento muda de lado e a força antagonista assume o poder para produzir sua própria versão oficial dos acontecimentos passados.

Mas taticamente a coisa pode ter alguma utilidade, pois nas escolas militares e na caserna persiste a linha de que a intervenção das Forças Armadas em 1964 teve por objetivo defender a democracia contra um golpe comunista.

As Forças Armadas venceram a guerra contra as organizações guerrilheiras no plano militar, mas na guerra durante a paz, ou pós-guerra, não repetem o desempenho.

Os adversários derrotados no campo de batalha foram empurrados para a luta política institucional, onde tiveram sucesso. Os três últimos governos vieram comandados por personagens da resistência ao regime militar.

Mas falta completar a obra no terreno ideológico-doutrinário. Obrigar os militares a aceitarem a versão histórica dos adversários.

Eis por que a Comissão da Verdade começa relativamente consensual mas tem tudo para transformar-se em palco de intensa luta político-ideológica.

Porém o cenário para o governo não é todo cor de rosa. O texto permite escarafunchar também as violações aos direitos humanos cometidos pela resistência.

E aí a caserna leva alguma vantagem. Pois desde a transição de 1984-85 as Forças Armadas cuidam de coletar e sistematizar todas as informações sobre a atuação dos adversários naquela época.

Guerras só são bonitas nos maus livros de História. Ou na propaganda. Na vida real, quando há guerra todos perdem. Ganha quem perde menos. Mas todos os lados contabilizam vítimas.


Coluna publicada nesta segunda (21) no Estado de Minas.



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sábado, 19 de novembro de 2011

Dois mundos (20/11)


Polícia na favela para expulsar o tráfico é bom. Mas polícia na universidade para impedir que o tráfico dê as cartas é ruim. Na Rocinha, impor a presença do Estado, hastear a bandeira e cantar o Hino Nacional. Na universidade, preferir a coexistência pacífica com o crime

O tráfico de drogas é reconhecido de modo unânime como principal vetor de violência e insegurança na nossa sociedade. Ficaram para trás as teorias alternativas. Entre elas a que atribuía o problema à pobreza.

A realidade encarregou-se de provar que não é assim, pois nos anos recentes a criminalidade cresceu mais onde mais a economia expandiu, e onde mais se distribuiu renda: nas regiões metropolitanas do Nordeste.

Nem seria necessária essa constatação “laboratorial”. Bastaria olhar os mapas. As manchas geográficas de pobreza não coincidem com as da violência e do crime. São fenômenos em boa medida desvinculados.

O crime comparece com mais vigor onde há dinheiro, desigualdade e, principalmente, impunidade. No Brasil a relação entre o custo e o benefício de delinquir é razoavelmente boa para quem sai da linha.

Reduzir a desigualdade é tarefa permanente dos governantes. Ou deveria ser. Entre nós parece haver consenso de sermos governados por gente preocupada em estreitar as distâncias sociais.

Pode haver, e há, diferenças políticas, naturais, mas não existe no Brasil quem diga a sério que somos um país desatento às necessárias ações governamentais para ajudar quem mais precisa.

Sempre se pode melhorar, e há campos -como a educação- onde estamos mal e vamos muito devagar, mas a tendência é de avanço. O estado ajudar os mais necessitados virou traço cultural, deixou de ser elemento central da disputa ideológica.

Onde está então o problema? Na frouxidão do combate ao crime. Mas isso pouco a pouco também vai sendo alterado.

No Rio, ficaram na poeira a glamurização do tráfico e a condescendência pseudosociológica com fenômenos como, por exemplo, as milícias. É uma revolução cultural. A ocupação das “comunidades” pela polícia tem amplo apoio político e popular.

Pois a sociedade concluiu que deseja distância -inclusive geográfica- do comando do tráfico. Ainda que, infelizmente, não tenha conduzido o raciocínio à estação seguinte: o que alimenta o tráfico é o consumo.

Mas tudo é um processo, como gostava de dizer o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Que aliás compareceu estes dias à imprensa para engrossar a corrente de quem pede para a USP uma política oposta à da Rocinha.

Polícia na favela para expulsar o tráfico é bom. Mas polícia na universidade para impedir que o tráfico dê as cartas é ruim.

Na Rocinha, impor a presença do Estado, hastear a bandeira e cantar o Hino Nacional. Na universidade, preferir a coexistência negociada com o crime.

Digo “na universidade”, genericamente, porque se é bom para a USP deve ser aplicado também às demais. Públicas e particulares.

Esse é o resumo da ópera, ainda que o debate percorra tentativas de panos quentes.

Um pano quente defende que as instituições de ensino superior tenham polícia própria. Aí aparecem duas dúvidas. Quem vai mandar nessa polícia e a que leis essa polícia vai obedecer?

O primeiro ponto é menos complicado, pois seria natural que uma polícia universitária obedecesse às autoridades universitárias. Mas, e o segundo? A polícia particular das universidades seguiria as leis criminais do país ou haveria leis próprias?

As universidades teriam um código penal próprio? Parece bizarro. Mas, se as polícias universitárias seguiriam e aplicariam as mesmas leis “de fora”, ora bolas, para que uma polícia separada?

No fim das contas é só isso. Um segmento da sociedade que se considera acima das leis, que se julga no direito de decidir quais leis vai seguir e quais não, e pede para si um tratamento à parte. Um elitismo e tanto.

Claro que não faz sentido. Ainda que debates sem sentido não sejam vedados na esfera intelectual. Mas além da polêmica político-ideológica há o problema prático.

Simplesmente, é inaceitável que as universidades brasileiras se transformem em território livre para o tráfico de drogas, transformem-se em áreas onde o tráfico poderá abrigar-se para operar com mais segurança, inclusive do lado de fora.

É inaceitável transformar as universidades em regiões capturadas pelo crime, onde a polícia (a regular) precisará pedir licença ao “poder local” para agir.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (20) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

À espera (18/11)


Na teoria temos uma bela vantagem sobre o mundo desenvolvido. Aqui quase tudo ainda está por fazer. Mas essa qualidade é também nosso grave defeito: o Estado brasileiro estruturou-se para não deixar que as coisas aconteçam

A prévia do PIB divulgada ontem pelo Banco Central registrou recuo de 0,32% no trimestre de julho a setembro. O número final dirá quanto, mas sabe-se desde já que a economia brasileira andou para trás. 

O governo espera que o final do ano traga boas notícias, salvando o período gregoriano. Mas o acumulado dos 12 meses terminados em dezembro terá carregado a inércia do ótimo 2010, fazendo concluir que 2011 foi um ano perdido.

Eis por que um número razoável no total de 2011 não terá como resolver o problema prático. Na medição instantânea a economia brasileira está parando. O tranco é menos agudo que em 2008/09, mas a gravidade é maior. 

Se três anos atrás a crise era de crédito, enfrentável portanto com medidas monetárias, a de agora parece bem mais complicada.

As taxas mundiais de juros estão no chão, sem que isso faça destravar a engrenagem. A cada momento em que a locomotiva ensaia ganhar velocidade aparece um novo problema e a aceleração se frustra. 

Agora é a Europa, com sua dívida descontrolada e seus bancos pressionados. Qual será a próxima supresa, a próxima casinha a se abrir e exibir uma imagem assustadora aos passageiros do trem-fantasma?

No nosso caso, o governo não parece ter uma estratégia própria. Reage conforme as novidades. Um protecionismozinho aqui, um apelozinho ali à regulação dos mercados, e mais nada. Ou muito pouco. 

Como na esfera dos escândalos da política, vai reagindo aos fatos, tentando desvencilhar-se deles à medida que aparecem.

Não que as reações sejam ruins. O Banco Central merece parabéns por ter lá atrás firmado a convicção de que precisava baixar os juros. E baixou, contra a corrente de quem pedia prudência adicional e arriscava repetir o erro de três anos atrás. 

Quando o Brasil perdeu a maior e melhor oportunidade de cortar radicalmente os juros reais, pois a demanda caíra a zero.

Mas só política monetária não resolve. É pouco. O país precisaria de um novo choque anticíclico, facilitado pela boa situação fiscal. 

Precisaria de uma política para crescer aceleradamente o investimento, com a participação decisiva do Estado, já que o capital privado anda algo medroso.

E na teoria temos aqui uma bela vantagem sobre o mundo desenvolvido. No Brasil quase tudo ainda está por fazer. Mas essa qualidade é também nosso grave defeito: o Estado brasileiro estruturou-se para não deixar que as coisas aconteçam. 

A crítica não é nova.

Basta comparar os vencimentos do engenheiro encarregado de tornar a estrada viável e os do promotor cuja missão é impedir que dinheiro público seja dissipado na obra. Não é que o segundo ganhe a mais. É o primeiro que ganha a menos.

Quem gostava de fazer essa comparação, ou comparações assim, era o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas ele segurou a caneta por oito anos e não mudou radicalmente esse quadro. Falou mas não fez.

O Brasil precisa faz tempo de governos que coloquem o Estado para andar, retirando-o da imobilidade paquidérmica e gulosa. 

Se há maneiras de acender a fagulha numa economia de consumidores endividados e atemorizados, uma bem conhecida é melhorar o efeito multiplicador de cada real investido pelo setor público.

Há notícias a respeito? Quem souber de alguma, avise.

Escapando

As dificuldades econômicas não vêm afetando, por enquanto, a popularidade presidencial, dizem as pesquisas privadas encomendadas para medir como vai Dilma Rousseff.

Talvez porque ainda não tenha dado tempo. Talvez porque o brasileiro esteja convencido de que a crise é global e o governo faz o melhor que pode. E na comparação com outros países o Brasil não vai mal.

Ou uma mistura dessas coisas todas.

Para que um governante seja politicamente mais afetado por dificuldades da vida material dos cidadãos é preciso algo além de uma situação difícil. É necessário que pelo menos parte do povo se convença de que o governo está deixando de fazer algo que deveria.

Não parece ser o caso.

É um espaço político desocupado, à espera de alguém que se ofereça para o serviço de dizer o que Dilma deveria fazer diferente.

O governo saboreia uma tranquilidade enganosa. Especialmente porque a combinação das frustrações econômicas e políticas ("éticas") tem perfil explosivo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (18) no Correio Braziliense.



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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A outra turma (17/11)


As alternativas supostamente anticapitalistas são só colagens fantasmagóricas de filantropias, multiculturalismos, ambientalismos e simpatias pela ação direta, esta célula-mater do terrorismo

Os ocupantes contra Wall Street veem seu movimento envelhecer precocemente. Ao contrário dos conservadores radicais do Tea Party, não têm uma estratégia de saída.

Marchar nas ruas, ocupar praças e oferecer “photo ops” à imprensa entretém enquanto é novidade. Mas uma hora o público cansa e troca de canal.

A estratégia de saída do Tea Party foi lutar por espaço no Partido Republicano, e até agora o êxito é notável. Elegeram bancadas parlamentares aguerridas, ainda que minoritárias.

Na prática, definiram a pauta, a do próprio partido e a do adversário. E quem acompanha os debates republicanos rumo a 2012 notará que todos os candidatos batem continência é para o Tea Party.

Outro limite da contestação de esquerda ao modelo capitalista-liberal americano é a ausência de propostas sobre o que colocar no lugar. A alternativa clássica seria o socialismo, mas ele está ausente do picadeiro.

Inclusive porque os mecanismos capitalistas têm sido boia de salvação para países liderados por partidos e líderes vinculados ao discurso socialista.

Cuba recorre à forte expansão da propriedade privada para tentar alcançar um grau de properidade que impeça a deslegitimação do regime. Mesmo a Coreia do Norte procura copiar aspectos do modelo chinês, que antes rejeitava.

Sem falar na esquerda social-democrata que governa potências capitalistas, como por exemplo o Brasil. Aqui, o socialismo desapareceu completamente dos discursos, das metas.

Talvez permaneça congelado na doutrina, como homenagem póstuma a um passado emotivo, e a um futuro que não acontecerá.

A crise de 29 encontrou o movimento comunista bastante organizado e a Revolução Russa era uma vitrine fresquinha do “outro mundo possível”. E agora? Agora nada.

As alternativas supostamente anticapitalistas são só colagens fantasmagóricas de filantropias, multiculturalismos, ambientalismos e simpatias pela ação direta, esta célula-mater do terrorismo.

No filme Reds, sobre “Os dez dias que abalaram o mundo”, a obra literário-jornalística do americano John Reed, os revolucionários russos substituem “luta de classes” por “guerra santa” quando vão levar a mensagem da nova era às províncias islâmicas do velho império dos czares.

Não sei se aconteceu de fato ou se é só cinema. Mas a coincidência é notável.

É para o islamismo radical e militante que certa esquerda lança o olhar esperançoso, sequiosa de uma ideia global organizadora que possa fazer frente ao “Grande Satã”.

É uma óbvia degeneração. À qual corresponde certa reação newtoniana, com as sociedades ocidentais inclinando-se para o nacionalismo, o etnocentrismo e a xenofobia.

Quem aparece nas fotos, no noticiário, é a turma do #occupy. Mas quem está ganhando as eleições é o pessoal do lado oposto.

Peço vênia

O ministro do Trabalho tornou-se um ônus pesado demais para o governo e o partido dele. Se vai cair ou se ficará como peso morto na Esplanada, os fatos dirão. Um fato, porém, é que na prática deixou de ser ministro.

Transformou-se na bola da vez para Dilma Rousseff aplicar mais uma marca no cabo do machado que decepa cabeças. Dar um “refresh” no marketing da faxina.

O que mais barulho faz na crise do ministério do Trabalho é a história do tal avião. E as inevitáveis ONGs.

Depois que o furor passar, talvez valha a pena apontar o binóculo para outro ponto: os critérios para chancelar sindicatos.

A coisa funciona assim. As centrais sidicais repartem a verba oficial conforme a representatividade, medida em entidades filiadas. Mas é o Ministério do Trabalho quem diz se o sindicato é ou não legítimo.

Sacaram? É um poder e tanto.

Um mecanismo e tanto de cooptação pelo governo federal. Deve-se também a isso a notável paz dos cemitérios no movimento sindical.

Fazem uma firula aqui, uma pedalada ali, sai uma ou outra notinha contra o Banco Central por causa dos juros. E só.

O razoável seria acabar com isso. Por que o Ministério do Trabalho deve manter o poder de dizer quem representa tal ou qual categoria profissional?

Essa pauta emociona menos que ONGs picaretas ou jatinhos comprometedores. Mas é bem mais relevante.

Com a devida vênia a quem acha o contrário.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (17) no Correio Braziliense.



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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A velha máxima (16/11)


Resta a Assad e aliados ameaçar o mundo com a conflagração geral. Mas uma regra não escrita ensina que ameaçar com o caos e o apocalipse é recurso dos fracos, nunca dos fortes

Pouco menos de um ano após a eclosão das revoltas árabes, o processo parece longe de estancar. A bola da vez é a Síria, cujo regime caminha para o isolamento irreversível e o fim previsível.

Claro que em política tudo, ou quase, é possível. Mas se Bashar Assad sobreviver ao cerco será um milagre daqueles. Para figurar em páginas nobres nos livros de História.

Tem restado a Assad e aliados ameaçar o mundo com uma conflagração em larga escala. No cenário mais apocalíptico, Irã e Hezbollah arrastariam Israel ao conflito, alterando o caráter da disputa.

Parênteses. Uma regra não escrita ensina que ameaçar com o caos e o apocalipse é recurso dos fracos, nunca dos fortes.

Na universalização do conflito agitada por Damasco a luta para apear um regime despótico cederia lugar ao combate pan-islâmico contra os Estados Unidos e seu campo.

E o movimento das massas árabes e islâmicas viveria uma mudança qualitativa, passaria a um novo patamar. Anti-imperialista.

Mas é improvável que aconteça assim. 

Durante a Guerra do Golfo Sadam Hussein lançou mísseis sobre Israel para tentar provocar uma resposta israelense, o fato novo que permitiria ao líder iraquiano romper a frente adversária que se fechava sobre ele como tenaz.

Ação militar em que aliás a Síria estava aliada aos Estados Unidos.

Não deu certo. As tropas iraquianas foram expulsas do Kuait e uma década depois o próprio Sadam acabou na forca.

A Síria terá dificuldade de arrastar outros jogadores para o palco do infortúnio exatamente porque cada um zela em primeiro lugar pelo próprio pescoço.

E os regimes árabes e muçulmanos, mais ou menos despóticos, cuidam neste curto prazo, antes de tudo, da própria sobrevivência. O episódio líbio deve ter sido pedagógico.

É improvável que as imagens de um antes poderoso Muamar Gadafi barbaramente agredido, seviciado e morto não tenham tido efeito dissuasório entre os colegas,. Pelo menos entre os que ainda não cruzaram o rubicão.

E os sinais emitidos pelas potências são claros: há espaços na nova ordem, desde que o sujeito não tenha ultrapassado certos limites. E que escolha o lado, digamos, certo.

Um bom exemplo é o Líbano. O Hezbollah é a força hoje hegemônica, vem no ápice do poderio militar, mas anda politicamente tolhido, exatamente pelo peso específico que alcançou.

Eventual ataque da guerrilha xiita a Israel desencadearia contra-ataque devastador. E as demais forças libanesas não parecem dispostas a provocar uma tragédia nacional para defender a enfraquecida cúpula alauita de Damasco.

O momento do Irã é semelhante. Os iranianos precisam de tempo para concluir os passos necessários ao domínio da tecnologia nuclear bélica. Todos os movimentos de Teerã são para “comprar” tempo.

Inclusive para decidir se vão até o fim na empreitada. Uma dúvida com potencial para rachar o núcleo dirigente. Pois no melhor desdobramento o Irã se transformaria na potência regional hegemônica. Mas há o pior, em que deixaria de existir como nação independente.

Uma escolha e tanto.

Na operação para obter tempo o Irã conta com blindagens importantes, o Brasil incluído. Escorregar para a guerra prematuramente seria um erro. Correria o risco de perder aliados políticos e não teria chance no cenário militar.

O colapso de Assad constituirá um problema para Teerã, mas sempre será possível buscar o modus vivendi com eventuais sucessores.

Afinal, o Oriente Médio comprova a velha máxima de que a política é também a arte de estar pronto a se aliar com qualquer adversário, e a romper com qualquer aliado.

E agora?

O relatório mais recente da Agência Internacional de Energia Atômica deixa claros os passos do Irã para trilhar o caminho do poderio nuclear para fins militares.

Aguarda-se o que o Brasil fará a respeito. Provavelmente nada. O que apenas reforçará uma suspeita. Alguém concluiu, por algum motivo, que o Brasil tem a ganhar com um Irã nuclear.

Falta só explicar ao povo brasileiro o porquê.

Lá atrás o Brasil podia pretextar uma dúvida razoável a respeito dos objetivos bélicos do programa iraniano. Luiz Inácio Lula da Silva agarrou-se nisso até o fim.

Mas, e agora?


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (16) no Correio Braziliense.



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