quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mudos de carteirinha (01/09)

É uma situação grotesca no plano moral, mas nada que faça despertar maiores preocupações políticas. Direitos humanos em Cuba não dão nem tiram votos suficientes para decidir uma eleição no Brasil

Fidel Castro veio a público para assumir a responsabilidade pela discriminação dos homossexuais em Cuba. E pelas perseguições. Segundo o ex-governante, as pressões imperialistas no pós-revolução levaram-no a cometer o erro original. Pede agora desculpas e que o regime mude de atitude em relação a esse grupo social.

O aspecto bizarro é Fidel atribuir seus erros às circunstâncias. Mas é bacana, finalmente, Cuba abrir-se a um debate sobre mais uma deformação do processo político. A autocrítica de Fidel tem também outra utilidade: todos poderão agora criticar a discriminação dos gays em Cuba sem correr o risco de receber o rótulo de contrarrevolucionário. Ufa!

E se Fidel tivesse morrido rapidamente da doença que o tirou do poder? E se não vivesse para fazer a autocrítica? E se não viver o suficiente para fazer as demais? Como ficarão os que admiram o bravo povo cubano mas divergem dos caminhos adotados na ilha? Deverão ir para o túmulo com suas objeções, silenciados pela falta da autocrítica libertadora alheia?

Antes de ontem, quantas vezes os movimentos específicos dos partidos de esquerda e socialistas no Brasil tinham se dado ao trabalho de produzir ao menos uma miserável moção em defesa dos direitos dos homossexuais em Cuba? Alguém pode informar?

É um caso parecido com o da iraniana condenada à morte por “adultério”. O assunto transita entre a ameaça de apedrejamento e o “alívio” do enforcamento. Sob o silêncio eloquente do feminismo e do progressismo pátrios. Mas se Mahmoud Ahmadinejad der a ela o perdão será elogiado pelos atuais mudos de carteirinha.

Fidel tem estado ativo nos últimos tempos, especialmente no front das letras. Vem recentemente de abordar a crise iraniana, com previsões apocalípticas. Pelo menos sobre o lado iraniano ele deve saber o que diz, tem conhecimento de causa.

O Partido Comunista de Cuba tem o apoio dos aliados continentais para exigir dos Estados Unidos o fim incondicional do embargo econômico. É também a posição brasileira, baseada no princípio da autodeterminação dos povos. O “incondicional” tem um significado bastante específico: sem mudanças no regime político ou na esfera dos direitos humanos.

Já observei aqui que a atitude brasileira é defensável, com exceção de um detalhe: em Honduras, o caminho seguido pelo Itamaraty é o oposto. Para o Brasil, ou Tegucigalpa atende às exigências de Luiz Inácio Lula da Silva ou o presidente brasileiro não pega nem o mesmo ônibus que o colega hondurenho.

Em Cuba o governo é amigo, então que se defenda a autodeterminação. Em Honduras não é, então que se pratique a ingerência.

O Itamaraty afirma que as gestões brasileiras sobre os direitos humanos em Cuba precisam ser discretas, para não criar constrangimento e não erguer mais barreiras a soluções possíveis. Ainda bem que o humorismo está liberado no período eleitoral. É óbvio que, faz tempo, o Brasil decidiu abrir mão de qualquer protagonismo na pressão sobre Havana nesse terreno.

E vai ser assim até o dia em que, como na discriminação dos homossexuais, a posição cubana mudar, talvez por alguma transformação interna no próprio regime, ou por pressão externa. Então os áulicos daqui vão aplaudir, e reivindicar o mérito para si na cara dura.

É uma situação grotesca no plano moral, mas nada que faça despertar maiores preocupações políticas. Direitos humanos em Cuba não dão nem tiram votos suficientes para decidir uma eleição no Brasil. Para efeito de contabilidade eleitoral, o assunto fica catalogado no rol dos que exigem apenas respostas espertas, para evitar maiores repercussões.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (01) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dualidade de poder (31/08)

O risco de um único partido tomar conta da política no Brasil é residual. O gigante que ameaça nascer do sucesso de público (de crítica, nem tanto) da administração Lula não é o PT, mas o PMDB. Talvez esteja também aí um motivo para Lula falar seguidamente em liderar um bloco político a partir de 2011

No comecinho do governo Luiz Inácio Lula da Silva prevaleceu a ideia de não trazer organicamente o PMDB para o governo. A sustentação política seria obtida com uma maioria não esmagadora no Congresso, combinada ao diálogo com a oposição em torno de uma agenda comum. Da conversa de Lula com os governadores nasceram as propostas de reforma previdenciária e tributária.

Ambas deram conta do recado no primeiro ano de governo, mas a tática esgotou-se ali mesmo, na largada. A Previdência Social desencadeou uma guerra no Congresso e o projeto de um governo “de minoria” se revelaria fonte de inúmeras dores de cabeça, desembocando na grande crise de 2005. Essa curva de aprendizado o PT já percorreu, tanto que está hoje firmemente agarrado ao PMDB.

Por isso o bom senso e a prudência recomendam algum ceticismo em relação à proposta da “mão estendida”, ensaiada por Dilma Rousseff. Se eleita, Dilma terá tantas chances de obter um “governo de conciliação” quanto vai ter José Serra, caso vença. Pela mesma razão que a estratégia de 2003 deu com os burros n'água. Só é possível a união nacional em torno do governo quando a oposição abre mão de seu próprio projeto de poder.

Isso pode acontecer em duas circunstâncias. Quando a oposição não se organiza em torno de um único centro ou quando fica extremamente fragilizada. E o segundo quadro costuma resultar no primeiro.

Se, por hipótese, Lula conseguisse emplacar vitórias do PT e do PMDB em São Paulo e Minas Gerais transformaria o PSDB num ator político pouco relevante, o que facilitaria o trabalho de Dilma no Planalto. Mas o petismo começa a emitir outro tipo de sinal. De que um PMDB excessivamente forte tampouco interessa. Assim, o tom beligerante em último grau deverá, caso as tendências se confirmem, ser substituído por apelos à razão e ao patriotismo da oposição. É do jogo, mas também é divertido de olhar.

É interessante também porque replica algo da estratégia tucana dos anos 90. Posicionar-se firmemente no centro, podendo aliar-se de um lado ou de outro, conforme a necessidade. O que atrapalhava um pouco o PSDB era o PT/Lula ter projeto de poder. Agora com os tucanos no papel de desafiantes, é o que tem atrapalhado o PT e deixado o partido de Lula mais dependente do PMDB do que seria saudável. No governo, o PSDB enfrentava o mesmo desconforto com o PFL (hoje DEM).

O leitor já reparou que trato aqui de uma quadro partidário complexo, com ampla variação de alianças possíveis, para todos os gostos. O que afasta um pouco o temor da tal “mexicanização”. Aliás, sempre que um partido se fortalece em Brasília e ameaça estender sua hegemonia pelo país o assunto volta. Aconteceu com a Arena em 1970, com o PMDB em 1986 e com o PSDB em 1994.

O risco de um único partido tomar conta da política no Brasil é residual. O gigante que ameaça nascer do sucesso de público (de crítica, nem tanto) da administração Lula não é o PT, mas o PMDB. Talvez esteja também aí um motivo para Lula falar seguidamente em liderar um bloco político a partir de 2011, reunindo o PT às pequenas e médias siglas de esquerda. E aí vai uma boa razão para Dilma amaciar um pouco para a oposição.

Como o governismo acredita que já ganhou a eleição, faz sentido.

O desfecho mais provável dos oito anos de Lula será um tabuleiro com várias peças expressivas, não uma. Se eleita, mesmo a caloura Dilma não cometerá o erro de imaginar que poderá escantear o peemedebismo ou flertar com a oposição a custo zero. O veterano PMDB terá maneiras, convincentes, de manifestar seu desgrado.

É para isso que talvez Lula esteja a se preparar, quando rascunha seu projeto de líder popular no comando uma frente partidária e sindical à margem do governo. É ainda obscuro o que o presidente realmente planeja, mas trata-se de um embrião de poder dual.

Percebeu

O PSDB parece ter percebido que deixar o candidato presidencial à deriva pode implicar desastres nas guerras estaduais. Desta vez, o tradicional “cada um por si” teria boa chance de levar todos ao naufrágio.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça no Correio Braziliense.

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domingo, 29 de agosto de 2010

É só abrir a porta (29/08)

Luiz Inácio Lula da Silva reclama dia sim outro também dos jornais e dos jornalistas. E deixa florescer vetores obscurantistas. Mas o STF “de Lula” marca sua passagem como uma trincheira da liberdade

A decisão do ministro Ayres Britto de suspender a norma legal que proibia o humor televisivo e radiofônico no período eleitoral é mais um episódio bacana da trajetória recente do Supremo Tribunal Federal. Para sorte do Brasil, parece ter se formado ali uma ampla maioria comprometida com a defesa da liberdade de expressão.

Nos julgamentos recentes o tribunal tem reafirmado esse princípio. Ainda que no litígio entre o jornal O Estado de S.Paulo e Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, a maioria dos ministros tenha decidido não revogar a sentença de primeira instância que protegeu o segredo de justiça em detrimento do direito de o jornal publicar material relativo ao processo. É um debate jurídico complexo.

Mas foi uma exceção. O episódio não deve ser lido como regra. Seria injusto. Este STF já passou à História do Brasil como uma fortaleza em defesa das liberdades de expressão e de imprensa. E o fato ganha importância quando se insinuam vetores contrários a esses direitos fundamentais previstos na Constituição.

O poder não gosta que o critiquem. É um princípio geral. Um segundo princípio é que o poder deve sempre ser criticado, questionado. Ridicularizado quando possível. Ninguém deve temer ser injusto com o poder. Mais ainda num país como o Brasil, em que a sociedade se organizou a partir do Estado e o enxerga como a solução para todos os problemas. Bater nos governos, especialmente quando estão fortes, é vital para a democracia.

Governos gostam de se dizer favoráveis à liberdade de expressão e de imprensa. É chique e protocolar. Enquanto isso, gostam de buscar medidas práticas para limitá-las. É da sua natureza. Por fora bela viola, por dentro pão bolorento. Assim é o jogo. Imprescindível é haver uma instância suprema comprometida com a garantia dos direitos dos cidadãos.

O Supremo tem sido essa instância. E registre-se que o tribunal de agora foi majoritariamente nomeado pelo atual presidente da República. Pode-se gostar ou não de Luiz Inácio Lula da Silva. Ou do que ele diz dia sim outro também sobre os jornais e os jornalistas. Ou de como deixa florescer vetores obscurantistas. Mas o STF “de Lula” marca sua passagem como uma trincheira da liberdade.

Se o presidente arrependeu-se de ter nomeado um STF tão doutrinariamente aferrado à livre circulação de idéias, enquanto dentro do governo germinam as plantas carnívoras do “controle social”, só ele poderá dizer. Mas isso é irrelevante na prática.

Lula não será julgado pela História por seus discursos, mas pelos atos. Inclusive pelos que não teve força para executar. Até para sorte dele. Eis um aspecto a que os governantes raramente dão valor: a crítica é útil também, talvez principalmente, para impedir que reúnam força suficiente e cometam as bobagens aconselhadas pela onipotência e pelos áulicos. Pode doer na hora, mas acaba se revelando terapêutico.

O ministro Ayres Britto prestou um serviço ao país, e seria bom que os colegas seguissem sua posição.

E o curioso é que o fez de um modo simples. Tomou a decisão e ponto final. Como Michel Temer, quando deu um jeito para que as medidas provisórias não mais trancassem a pauta da Câmara dos Deputados e do Senado.

Um dos grandes filmes do cineasta hispano-mexicano Luis Buñuel é O anjo exterminador. Nele, um grupo de pessoas está preso numa casa sem que se saiba exatamente por quê, até descobrirem que podem sair se assim desejarem.

A sociedade brasileira pode devencilhar-se da teia de leis, normas, decretos e projetos que tolhem ou pretendem tolher a liberdade de pensar, de falar e de escrever. É fácil. É só querer, como demonstrou o ministro Ayres Britto.

Coluna (Nas entrelinhas) pubicada neste domingo (29) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A tampa do caldeirão (27/08)

A fila da política é como qualquer outra: quando ela estaciona, é bom para quem está na posição certa. E complicado para os demais. O mais grave não é o sujeito sentir-se derrotado, coisa normal na atividade. É o líder, ou candidato a líder, saber-se impedido na preliminar

Nos sonhos do PT o cenário está bem delineado. Dilma Rousseff ganha agora e daqui a quatro anos haverá duas opções. Pode ir de Dilma na reeleição ou recolocar na corrida um Luiz Inácio Lula da Silva sempre disposto a voltar para completar a epopeia.

Como teoria, tem chance de dar certo.

Dilma está confortável em todas as pesquisas e Lula diz dia sim outro também que ainda tem estrada pela frente na política. O arcabouço parece bem montado. A aliança com o PMDB é sólida, e não há motivo para imaginar que o peemedebismo irá atirar o cacife pela janela em troca de ilusões, ou aventuras.

Mas toda teoria bonita tem um problema, ou mais de um. O projeto de hegemonia estendida do PT suporia, na eventualidade da volta de Lula em 2015, que em quase três décadas, de 1995 a 2022, o Brasil teria apenas três presidentes. Um deles (Dilma) interino na prática.

É evidente que o eleitor tem a liberdade de decidir por aí, se assim entender. A peculiaridade é que esse cenário “tamponado” significa a virtual aposentadoria compulsória de toda uma geração, líderes hoje ainda regionais e cujo projeto estaria limitado a uma rotação entre o Senado e a tentativa de continuar mandando cada um no seu próprio quintal.

Águas bloqueadas acumulam-se. A fila da política é como qualquer outra: quando ela estaciona, é bom para quem está na posição certa. E complicado para os demais. O mais grave não é o sujeito sentir-se derrotado, coisa normal na atividade. É o líder, ou candidato a líder, saber-se impedido na preliminar de alcançar o troféu mais ambicionado.

Cada partido dos grandes tem um punhado de gente nessa fila. O PT um pouco menos, dada a carnificina da crise de 2005. Mas os governadores petistas eleitos agora vão amanhecer na cadeira em 2011 já pensando em passos maiores. É da natureza humana.

No PMDB idem, assim como no PSDB, que caso confirmadas as projeções precisará reagrupar-se em torno de um projeto de poder, para sobreviver como legenda de peso. Ou arriscar-se à digestão lenta (ou nem tanto) por ação das conhecidas forças centrípetas. Mesmo em partidos menores, sonhar não custa nada.

Como o PT irá lidar com as ambições represadas dos amigos de hoje que podem ser um pouco menos amigos amanhã? Lula tem agora peso suficiente para ser a tampa do caldeirão. Mas por quanto tempo?

Se o exemplo for Getúlio Vargas, para um tempo razoável. Getúlio foi o norte da política brasileira por um quarto de século.

Lula está posicionado para passar disso, se a conta for feita a partir de 1989, quando Fernando Collor se elegeu como o anti-Lula.

Terceirizar

Vida de marqueteiro é difícil. É como diz a bem-humorada observação portuguesa sobre os técnicos de futebol. Num dia é uma besta; no outro, bestial.

O de Dilma vive dias de festa. Dois anos atrás, era protagonista do triste episódio em que a campanha do PT à Prefeitura de São Paulo enveredou pela vida pessoal do adversário.

Talvez esteja na lista das funções da marquetagem segurar a onda quando as coisas que os políticos decidiram dão errado.

De todo modo, quando você ouve dizer que a campanha x ou y “tem um problema de comunicação” procure atrás do pano os problemas políticos. É mais prático.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (27) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Uma elite abstrata (26/08)

Lula foi mudando os adversários à medida que se consolidava no manche. Pouco a pouco, foram desaparecendo da narrativa de Lula e do PT os antes responsáveis pelas desgraças do Brasil

É preciso reconhecer que os jornalistas e o jornalismo somos chegados a um não me toques. Vivemos a pontificar e a fazer juízos de valor sobre tudo e todos, mas quando o sentido da crítica se inverte acomete-nos um excesso de sensibilidade.

É equivocado acreditar que as críticas à atividade jornalística são por hipótese um atentado à liberdade de expressão. A imprensa não pode pretender estar imune ao sistema de freios e contrapesos na democracia.

As seguidas reclamações do presidente da República contra o jornalismo pátrio devem ser catalogadas no rol das coisas normais, rotineiras, positivas. De toda crítica, mesmo a mais descabida, recolhe-se algo bom.

Há porém um detalhe curioso na atitude de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o tema: o discurso presidencial é bipartido, contraditório, antagônico em si mesmo. Uma hora sua excelência regozija-se ao decretar o fim do oligopólio dos “formadores de opinião”. Outra hora se preocupa em protestar contra o tratamento, segundo ele injusto, que recebe dos veículos de comunicação.

Se de fato o jornalismo dito profissional perdeu importância após a explosão planetária das redes que distribuem informação em formato digital, por que razão o presidente da República investe tanto do seu escasso e precioso tempo nesse combate sem tréguas?

Vocação incontrolável para ombudsman? Vontade de contribuir generosamente para o Brasil ter a cada dia uma imprensa melhor?

A explicação talvez esteja em outro ponto. Quando Lula se retirar para São Bernardo alguém deverá fazer a análise das transformações no discurso presidencial na passagem pelo poder. Não se faz política sem adversários, uma forma amena de nomear os inimigos. E Lula foi mudando os adversários à medida que se consolidava no manche.

Pouco a pouco, foram desaparecendo da narrativa de Lula e do PT os antes responsáveis pelas desgraças do Brasil.

Os latifundiários da cana viraram heróis nacionais quando interessou ao governo alavancar em escala planetária o etanol como biocombustível global. Os empresários que arremataram as estatais na era tucana viraram amigos de infância — o que não impede o PT de continuar falando mal da privatizações, ainda que não tenha revertido nenhuma delas.

E os bancos, com seus lucros estrondosos, gordas tarifas, spreads pornográficos? O que antes era defeito virou qualidade. Afinal, um sistema bancário sólido — e põe sólido nisso! — ajudou-nos a sair razoavelmente bem da crise.

Se fosse o caso de completar a lista, o espaço desta coluna seria insuficente. Permanece, é claro, o discurso genérico contra a elite, uma reverência ritual ao passado. Mas a elite em carne e osso passa ao largo das críticas presidenciais, a não ser quando pode se contrapor a algum objetivo do poder.

Os antes “inimigos” do PT são agora fustigados apenas nos horários eleitorais das microssiglas de esquerda, o pessoal que luta para sair do traço nas pesquisas de intenção de voto. Assistir a elas na tevê é quase um exercício de arqueologia.

Que inimigos sobraram para Lula? Os atores políticos que eventualmente possam representar obstáculo à consolidação e ampliação do poder. Encaixam-se aí, além de um gordo pedaço da imprensa, instituições como o Ministério Público, o Tribunal de Contas, os órgãos de fiscalização ambiental, o Congresso Nacional (quando resiste a seguir os ditames presidenciais).

Qualquer um que se atreva a questionar, no todo ou em parte, as decisões de sua excelência.

E a imprensa, é santa? Longe disso. Não há santidades nessa rixa. Ainda que cada uma das partes insista em apresentar-se como merecedora da canonização.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (27) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Jogo do Poder com José Eymael e Rui Costa Pimenta (25/08)

Os candidatos à Presidência da República José Maria Eymael (PSDC) e Rui Costa Pimenta (PCO), separadamente, são os entrevistados desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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O PMDB e as apostas (25/08)

O que fará o PMDB com seu belo cacife? A aposta dominante é que vai dilapidá-lo em pequenos lances, em joguetes por espaços orçamentários, em movimentos previsíveis da micropolítica brasiliense. Será?

O “momentum” da eleição está com a candidata do PT. A situação objetiva faz emergir um PMDB cioso de seu papel. Os últimos dias foram pródigos em notícias sobre as ambições peemedebistas na eventual futura administração, mas estes anos de Brasília convenceram-me de algumas coisas. Uma delas: o apetite do PMDB é grande, não maior entretanto que o dos demais. O PT incluído. Ou principalmente.

Talvez esteja passando despercebido certo detalhe na abordagem sobre o papel do PMDB num hipotético futuro governo Dilma.
O PMDB de 2010 é algo diferente em relação ao partido que se desmilinguiu no governo Sarney e entrou no corredor polonês com Fernando Collor e Itamar Franco, antes de pousar no limbo com Fernando Henrique Cardoso e com o Luiz Inácio Lula da Silva do primeiro mandato. De 2007 para cá, Lula reconstruiu e unificou o velho PMDB, para usá-lo como mecanismo de proteção do próprio poder. Proteção inclusive contra o PMDB.

Um bom amigo que sabe das coisas já observava anos atrás, com o conhecido humor. Se o PMDB dividido é uma dor de cabeça para qualquer governo, unido será um desafio maior ainda. Ainda mais se se tornar um fiador insubstituível.

Era o papel que o antigo PFL sonhava desempenhar no governo FHC, mas o plano não deu tão certo. O pefelismo saiu dos oito anos da aliança mais fraco do que entrara. A situação do PMDB agora é comparativamente melhor: se enfraquecer o PFL nos anos 1990 era chique para um segmento da opinião pública, por supostamente ajudar a “libertar” o PSDB do “atraso”, enfraquecer o PMDB num eventual governo Dilma resultará em mais força para o PT.

Coisa de que o pessoal chique não quer nem ouvir falar. Ainda mais quando vê os caminhos da política em alguns vizinhos.

O PMDB chega a este estágio da corrida eleitoral bastante confortável, com o candidato a vice, Michel Temer, dando-se ao luxo de descartar publicamente propostas da titular. Como a tal Constituinte exclusiva. Ou mandando avisar que aqui no Brasil ninguém vai bulir na liberdade de imprensa. Temer sabe bem para que público se dirige.

Sobre a Constituinte, o PMDB terá força maciça no Congresso. Por que abriria mão para ajudar a construir uma “dualidade de poder”? Para dar combustível a tentativas de ruptura? Não faz sentido.

De todos os jogadores que chegam a esta reta final da corrida pelo Palácio do Planalto, dois vêm em posição destacada: Lula e o PMDB. Com uma diferença. O presidente tem data marcada para ir embora, o PMDB, não.

Mas o que fará o PMDB com seu belo cacife? A aposta predominante é que vai dilapidá-lo em pequenos lances, em joguetes por espaços orçamentários, em movimentos previsíveis da micropolítica brasiliense. Será?

Se agir assim, o PMDB demonstrará pouca inteligência, o que é sempre possível. Mas considerando a história recente, talvez não seja o mais provável. Eu apostaria no contrário.

De todo modo, são apenas apostas.

De fora

O Brasil está à margem das negociações diretas entre Israel e Autoridade Palestina, previstas para começar em setembro. A diplomacia pátria movimentou-se bastante nos últimos tempos para nos inserir no imbróglio levantino, mas a ausência brasileira não deve ser vista como fracasso.

As negociações seguem o escopo da política do chamado quarteto: Estados Unidos, Rússia, Nações Unidas e União Europeia. Não inclui jogadores como o Irã, o Hezbollah e o Hamas. Já o Brasil esboçou uma posição distinta, ao trabalhar pela ampliação do escopo exatamente em direção a estes últimos.

A fragilidade da posição brasileira é conceitual. Para entrar numa conversa, é razoável que os participantes estejam de acordo ao menos num ponto: o direito de os demais saírem vivos ao fim das negociações. Daí a dificuldade de realizar o que o Brasil propõe, na amplitude.

Mas como no Oriente Médio é sempre boa a possibilidade de conversas acabarem mal, há uma chance razoável de no futuro o Brasil poder dizer “eu não disse?”.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (25) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Oportunidade perdida (24/08)

A esquerda latino-americana oferece argumentos aos que a acusam de só aceitar a legitimidade do Estado quando ela própria está no poder. Como reagiria o Foro de São Paulo à emergência de uma eventual guerrilha antichavista na Venezuela?

Os partidos e as organizações do Foro de São Paulo estiveram reunidos em Buenos Aires na semana passada e produziram teorias complicadas sobre a guerra civil colombiana. Na prática, equalizaram-se os tratamentos ao governo constitucional da Colômbia e à guerrilha das Farc. A linha do PT foi derrotada, ainda que os representantes do partido tenham formalmente aceito o consenso final.

Em resumo, o PT gostaria que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia declarassem um cessar-fogo unilateral e libertassem os sequestrados, passo para levar o governo de Juan Manuel Santos a negociar seriamente a saída definitiva do conflito. É razoável.

Mas os petistas não conseguiram apoio suficiente entre os colegas da esquerda latino-americana, e a convergência alcançada fala genericamente em “saída negociada”, “mediação internacional” e “libertação das pessoas detidas”, de ambos os lados. Os interessados podem obter mais informações no site operamundi.com, que cobriu o evento.

A resolução mistura alhos com bugalhos. Uma coisa é o status dos presos pelas autoridades, submetidos ao devido processo legal e condenados à perda temporária da liberdade. Outra coisa é a situação dos sequestrados pela guerrilha. São situações incomparáveis, se se considera haver na Colômbia um estado de direito em vigor.

Na prática, a esquerda latino-americana relativiza a legitimidade do Estado colombiano. Uma pena, pois oferece argumentos aos que a acusam de só aceitar a legitimidade estatal quando ela própria está no poder. Como reagiria o Foro de São Paulo à emergência de uma eventual guerrilha antichavista na Venezuela? Com as mesmas luvas de pelica que usa para mexer com as Farc? Duvido.

Talvez o PT, partido hegemônico da coalizão de governo no Brasil, devesse ter pensado duas vezes antes de participar da produção e da legitimação de tais ideias. Certamente pesou a necessidade de não se isolar no âmbito do Foro, fundado sob os auspícios do partido, mas a linha da reunião de Buenos Aires contrasta na essência com a posição reiterada em público pelas autoridades brasileiras.

Já faz tempo o Brasil decidiu não se decidir entre duas opções: ou as Farc são um grupo terrorista ou uma força beligerante, categoria reivindicada pela guerrilha. Os argumentos para ficar em cima do muro são conhecidos.

Em primeiro lugar, o Brasil afirma não catalogar ninguém na categoria de “terrorista”, até por não possuir uma legislação para isso. Em segundo, tampouco deseja ser visto como aliado tácito das Farc, o que acontecerá se as reconhecer como força beligerante.

Só que em Buenos Aires o muro pendeu para um lado. Na prática, o consenso ali construído reconhece as Farc como legítima força militar em guerra. É tudo o que pedem as Farc. A decisão ajudará a dar um gás diplomático para a guerrilha na sua busca de ganhar tempo e fôlego para reorganizar forças depois de ter sido colocada em estado terminal pelo governo de Álvaro Uribe.

A pior sinalização que se poderia ter dado às Farc era acenar que elas contam com apoio continental — num continente maciçamente governado pela esquerda — para impor condições inaceitáveis ao governo colombiano.

Se as decisões do Foro de São Paulo contribuírem para alavancar a pacificação da Colômbia, será uma imensa surpresa. Mais provável é que tenham representado um passo atrás. A única solução realista na Colômbia é as Farc deporem as armas, libertarem os reféns e, se assim desejarem, integrarem-se ao processo político regular daquele país vizinho.

Negociações? Sim, mas concentradas em apenas dois pontos. Uma eventual anistia e também a busca de mecanismos para impedir que reste aos contingentes da futura ex-guerrilha a única opção do banditismo como meio de vida. Ainda que elas estejam bem próximas desse ponto.

No item de pauta da Colômbia, a reunião do Foro de São Paulo em Buenos Aires foi uma oportunidade perdida de avançar e de dirimir certas dúvidas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (24) no Correio Braziliense.

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domingo, 22 de agosto de 2010

Guerra Santa (22/08)

No plano do frio cálculo eleitoral, “pai” e “mãe” são expressões fáceis de compreender e comunicar, e preenchem uma necessidade, pois é bem possível que a maioria do eleitorado esteja atrás desse tipo de relação

Aqui e ali ouvem-se reclamações sobre como Luiz Inácio Lula da Silva conduz a campanha, recorrendo a categorias ditas infantilizantes pelos críticos. Ora, o presidente da República usa no discurso as armas que imagina mais eficazes para garantir a eleição de Dilma Rousseff. Não é inteligente pedir a Lula que faça o serviço dele e também o dos adversários. Não dá para imaginar sua excelência matutando: `Puxa, esse argumento é bom para eleger a Dilma, mas se eu usar vou contribuir para a regressão da cultura política brasileira. Então é melhor não usar.”

Sobre “cultura política” tem uma cena esclarecedora em Reds, o filme, com Warren Beatty no papel de John Reed, o jornalista americano que foi cobrir e se envolveu na Revolução Russa. No processo de consolidação do poder bolchevique em todo o antigo Império dos czares, o comboio ferroviário vermelho chega a uma região islâmica e Reed começa a discursar para a multidão, noticiando o advento da nova era. Certa hora ele percebe, surpreso, ter dito “guerra santa” em vez de “luta de classes”. O discurso havia sido adaptado para ser mais bem compreendido pelas massas.

Assim é a vida. Lula descobriu-se o “pai” e vende na eleição a promessa de que Dilma o sucederá como “mãe”. Nada tem a ver com as ancestrais promessas petistas de uma nova cultura política, de mais autonomia da sociedade em relação ao Estado, de recriação do povo como sujeito de sua própria história, etc. Tais categorias repousam na prateleira à espera de intelectuais dispostos a entender e explicar mais este caso de digestão teórico-política. No plano do frio cálculo eleitoral, “pai” e “mãe” são expressões fáceis de compreender e comunicar, e preenchem uma necessidade, pois é bem possível que a maioria do eleitorado esteja atrás desse tipo de relação.

E Lula vai em frente, sem medo de ser feliz, como escrevi aqui outro dia. Os que pretendem interromper o domínio do PT que espremam a cabeça para descobrir o que e como fazer. Política é relação de vetores, de forças. Se um vetor não enfrenta resistência eficaz, é natural que siga adiante. Como agora na eleição.

A proposta de Lula para o Brasil está clara: eleger Dilma, sustentada na aliança PT-PMDB, e abrir uma era de reformas político-institucionais que consolidem certa visão econômico-social.

Não se sabe exatamente o que seriam essas mexidas, mas eleição não é torneio de detalhismo. Nem a maioria está interessada em saber se a reforma política virá por voto em lista fechada ou distrital.

Mas é fácil de compreender quando o PT diz que quer eleger Dilma para continuar o que Lula fez, e que ela vai precisar de uma sólida maioria congressual para evitar que o governo seja atrapalhado pelos adversários.

A mensagem do PT está claríssima, a da oposição ainda não. Nem é aqui o caso de criticar, pois a tarefa da oposição está longe de ser trivial. É só uma constatação.

Inimputável

E aconteceu. O deleite do horário eleitoral, nossa ilha da fantasia eletrônica, foi bruscamente interrompido pela realidade. O Rio de Janeiro, aquele lugar com a política de segurança tão bacana (tem umas “upepês” que o pessoal cita muito em palanques), encarregou-se de dar o choque de realidade.

Num lance de imprudência, bandidos acabaram saindo dos limites geográficos em que o domínio deles é bem aceito pelo establishment carioca, foram surpreendidos pela polícia e construíram na fuga um cenário de simbolismo quase insuperável: fizeram reféns num hotel chique.

É o Rio da final da Copa de 2014. É a sede da Olimpíada de 2016. Mas o governador Sérgio Cabral não tem maiores motivos para se preocupar.

Com a quantidade de amigos e protetores que amealhou, poderá continuar vendendo a teoria de que a segurança no Rio vai bem, obrigado.

E em último caso pode acionar Lula, que não terá dificuldade para colocar a culpa em algum adversário político, ou nos que “torcem contra o Brasil”. Ou no “olho gordo” de alguém.

Inimputável mesmo, só Cabral.

Coluna (nas entrelinhas) publicada neste domingo (22) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Leis que retroagem? (20/08)

Seria interessante se os candidatos explicassem o que entendem por Estado de direito, e de que modo irão defender as garantias fundamentais estabelecidas na Constituição

O combate à corrupção não pode ser feito ao custo de rasgar a Constituição. O mesmo vale para outros combates, mas o Ficha Limpa tornou urgente a discussão. A lei, infraconstitucional, não tem o poder de alterar a Carta, ainda que esta seja, no frigir dos ovos, o que os ministros do Supremo Tribunal Federal entendem que ela é.

Está aliás na hora de o STF colocar ordem na bagunça do Ficha Limpa, aplicar um freio de arrumação. Ou a lei retroage ou não. Intolerável é a coisa ficar ao sabor das influências políticas sobre os tribunais nos estados. O Ficha Limpa é uma boa ideia, que corre o risco de virar instrumento arbitrário. Com a palavra, o STF.

Aqui entre nós, lei que retroage é um atentado ao Estado de direito democrático e à Constituição. Mas esperemos pelo que vai dizer a Suprema Corte.

O que fazer quando na esfera da corrupção, ou de outros problemas sociais, a democracia aparece como “obstáculo” a que a sociedade encontre o paraíso? Aqui, o “vou colocar todos os corruptos na cadeia” aparece como irmão siamês do “não se pode falar em democracia numa sociedade tão desigual quanto a nossa”.

O impulso autoritário está no DNA das diversas camadas da organização social brasileira. A primeira frase entre aspas no parágrafo anterior é tipicamente “da direita”, enquanto a segunda é “da esquerda”. Mas são xifópagas.

É preferível alguns corruptos estarem fora da cadeia, e mesmo poderem disputar as eleições, do que o sistema jurídico brasileiro engolir a barbaridade da norma legal que retroage a partir da data de vigência. Se o Ficha Limpa pode, por que não as outras leis?

E é preferível certa política social não ser executada, se a execução implicar lesão a direito fundamental. Paciência, é o custo de viver numa democracia. Uma ótima relação custo/benefício.

Mas admito que tais ideias não são muito populares. Para que acabem entranhadas no nosso tecido social, seria necessária uma das duas opções: ou a forte e continuada pressão popular para inverter a relação deformada entre a liberdade excessiva do Estado e o deficit de liberdade do indivíduo, ou a sucessão de governos empenhados em autolimitar-se.

Aqui o leitor poderá argumentar que uma coisa não existe sem a outra, e terá dose de razão. Veja-se por exemplo a alternância de poder no último meio século no Brasil. Passaram pela cadeira — ou estão nela — todas as correntes políticas e históricas relevantes. Todas sem exceção adaptaram-se rapidamente aos princípios da absolutização do líder e da supremacia do Estado. Em palavras ou atos.

Pois a sociedade brasileira organizou-se a partir do Estado e carrega essa marca de nascença. Mas a deformação não é incurável, pode e vai sendo corrigida à medida que aumenta nosso grau de complexidade social. O crescimento da classe média não terá vindo em vão.

Outro dia a candidata Dilma Rousseff deu uma declaração interessante, ao falar sobre o proposto (por ela) ministério das pequenas e das médias empresas. Disse que a multiplicação dessas empresas é uma questão democrática. Fato.

Mas é também verdade que o governo do PT estimula a oligopolização em diversas esferas.

São debates estratégicos, e campanha eleitoral não é propriamente um lugar para tertúlias doutrinárias. Mas seria interessante se os candidatos explicassem o que entendem por Estado de direito, e de que modo irão defender as garantias fundamentais estabelecidas na Constituição. E como avançar na democracia.

Poderiam começar condenando a tese de fazer retroagir as leis novas. Mesmo que elas contem com a simpatia geral. Como é o caso do Ficha Limpa.

Nus

A única coisa realmente indispensável numa campanha eleitoral é cada candidato dizer tudo que pensa sobre o adversário, ou sobre o partido adversário. Ou sobre os aliados do partido adversário. É fundamental para a escolha soberana do eleitor.

Nesse aspecto, parece que a eleição presidencial de 2010 não vai decepcionar. Aqui, os apelos pelo “alto nível” devem ser vistos com cuidado. Nível alto mesmo é quando os políticos ficam nus diante da sociedade.

No sentido figurado, claro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (20) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Foto escondida na carteira (19/08)

Você acha que algum dos candidatos vai colocar um heterodoxo (de verdade, não de boca) na Fazenda ou no Banco Central? Chance zero

A cidadania já registra pelo menos uma vitória nesta eleição. A cultura dos debates veio para ficar, ainda que falar de permanências num país como o Brasil seja sempre arriscado. Só entre os presidenciáveis serão no total cinco encontros, incluído o da web promovido ontem pelo UOL.

Ajuda a circunstância de nenhum dos corredores estar tão na frente que possa se dar ao luxo de recusar a debater. Mas mesmo essa observação deve ser relativizada, pois em estados onde há um líder disparado tampouco existe clima para os fujões.

Com a disseminação das assim (mal) chamadas redes sociais, o candidato pode até correr, mas não conseguirá fugir, para dar razão ao velho ditado. Melhor ir ao debate, aguentar bem as pancadas, defender-se delas e tentar encaixar algumas.

Um debate pode decidir a eleição? Sim, na hipótese de produzir uma rachadura no casco de credibilidade do candidato. Se o sujeito construiu para si certa narrativa e ela sai trincada da refrega verbal, ele passa a ter um problema.

Daí que todo o esforço dos contendores concentre-se em trincar a narrativa do adversário. Ou pelo menos defender a própria, no caso dos líderes.

Qual é a essência da narrativa do PT nesta eleição? O Brasil está melhorando e não há motivo para mudar. Em time que está ganhando não se mexe. Uma lógica forte. A resposta da oposição é uma pergunta. Por que continuar com os desacertos se é possível manter o que vai bem e corrigir o que anda mal? Uma batalha morro acima.

O situacionismo reage colocando em dúvida a capacidade de o PSDB manter o país no rumo, dado que os números de Fernando Henrique Cardoso foram piores que os de Luiz Inácio Lula da Silva. E há também o trabalho sistemático e obsessivo de Lula para desconstruir o antecessor.

Ontem no debate, José Serra fez uma referência ao que chamou de ingratidão de Dilma Rousseff em relação aos ex-presidentes que conquistaram a estabilidade econômica, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Foi um soco bem encaixado.

A petista recorreu ao argumento de instabilidade inflacionária no fim do governo FHC, mas aí é ela quem trava a batalha simbólica morro acima. Do mesmo jeito que Lula encarna a busca de justiça social e o combate à desigualdade, Itamar e FHC já estão nos livros de História como os arquitetos da moeda forte.

Dilma insistir que o PT recebeu um país em ruínas e sem rumo é tão crível quanto o PSDB afirmar que deu tanta ênfase nos programas sociais quanto o atual governo. Simplesmente não cola. Pode fazer sucesso em círculos de militantes fanáticos, mas não cola.

O repique inflacionário no fim do governo FHC existiu e teve dupla origem. Havia alguma desconfiança quanto aos compromissos macroeconômicos do PT, mesmo mitigada depois da Carta aos brasileiros. E havia também um certo clima de fim de feira no epílogo da administração tucana.

O PT enfrentou sim um quadro algo complicado quando assumiu em 2003. E resolveu como? Com juros e superávit primário, na moldura institucional deixada pelo governo que saía. Teve ainda o cuidado extremo de revogar o dispositivo constitucional que limitava os juros em 12%. Quis dar e deu um sinal de docilidade ao capital financeiro.

O fato é que o sucesso econômico da era petista está erguido sobre alicerces alheios. O que é normal. Tampouco Itamar e FHC teriam dado cabo da inflação sem as contribuições de José Sarney e Fernando Collor. Nos acertos e nos erros. E por aí afora.

Mas a maior homenagem que a contemporaneidade política presta aos pais da estabilidade é Dilma e Serra, dois conhecidos críticos da condução econômica, estarem impedidos de seguir adiante com as próprias ideias.

Os economistas heterodoxos? São úteis para assinar manifestos de apoio (é chique), publicar artigos furibundos em jornais, verter lágrimas de emoção ou arrumar confusão em fóruns multilaterais sem importância. Você acha que algum dos candidatos vai colocar um heterodoxo (de verdade, não de boca) na Fazenda ou no Banco Central? Chance zero.

Quando fala sobre a oposição, Lula gosta de usar a imagem do ex-marido que torce para a ex-mulher não encontrar alguém capaz de fazê-la feliz. Já no caso da dupla Lula/Dilma, a imagem poderia ser outra. Fala mal da mulher para os amigos na mesa de bar, mas não tem coragem de procurar uma nova.

Anda até com uma foto dela na carteira, para mostrar escondidinho aos banqueiros, quando convém.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (19) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Jogo do Poder com Levy Fidelix e Plínio Sampaio (18/08)

Os candidatos à Presidência Levy Fidelix (PRTB) e Plínio Sampaio (PSol), separadamente, são os entrevistados desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique nos links para assistir:

Fidelix 1 - Fidelix 2 - Plínio 1 - Plínio 2

Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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Atributos e benefícios (18/08)

A arte está também na construção do elo entre os dois pontos. Não basta só o cara ser bacana, tem que entregar a mercadoria. Mas um cara bacana desperta mais esperança de entregar a mercadoria

O horário eleitoral foi inaugurado no previsível, com cada candidato buscando principalmente enfatizar atributos, especialmente em facetas que possam ser atacadas pelos adversários. Para vacinar ou blindar. E a campanha começou razoavelmente positiva, afinal haverá ainda tempo suficiente para começar a despejar chumbo grosso sobre os outros. Ninguém chega na casa do telespectador, assim de primeira, já chutando a canela. Seria desagradável. Não ficaria bem.

Uma curiosidade nas campanhas eleitorais brasileiras é a propaganda regulamentar radiofônica e televisiva dirigir-se apenas a certo país, que não necessariamente é o Brasil. No rádio e na tevê os postulantes falam a quem — imaginam eles — forma opinião a partir desses dois meios. Costuma funcionar, especialmente quando a primeira etapa deve ser usada para tornar alguém conhecido.

Mas incomoda que a tevê e o rádio pratiquem a infantilização de modo algo excessivo. Compare com os debates e notará a assimetria.

Nesta largada, a arma do PT é Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que no subliminar. Sem surpresas. A dúvida é como vão agir (e quantos são) os eleitores que ainda não sabem da preferência de Lula por Dilma Rousseff. Mas esse dado é relativo, pois a presença forte do presidente na tela poderá, quem sabe?, até converter quem estava inclinado a escolher outro caminho, mesmo sabendo da opção presidencial.

No campo de José Serra, aparentemente a estratégia é alcançar incrementos graduais. Deu certo com Geraldo Alckmin em 2006 e o tucano conseguiu levar a contenda para o segundo turno. Depois perdeu-se, mas aí foi menos culpa da estratégia que da tática. Da sofreguidão e da falta de medida. Fazer a disputa com Lula exige know-how, profissionalismo, e Alckmin era estreante no jogo.

Na área de Dilma, calculam-se as medidas necessárias para liquidar a fatura já, não dando margem para grandes riscos. Mas se Lula não conseguiu vencer de cara nas duas vezes em que se elegeu, por que Dilma conseguiria? A pergunta faz sentido, mas na comparação, por exemplo, com 2006, a dúvida omite um fato: a situação econômica vai melhor que quatro anos atrás.

A análise jornalística tende a reduzir, a simplificar. É da nossa natureza. Se precisássemos destrinchar todas as variáveis até o limite do erro zero nunca chegaríamos a concluir um texto e estaríamos todos desempregados. É fácil dizer que o eleitor satisfeito com Lula tende a votar em Dilma, mas ela estar no patamar dos 40% sendo a candidata de um governo com mais de 70% de aprovação deveria dizer algo sobre a relatividade da conclusão.

Quem é o eleitor satisfeito com Lula mas menos disposto a votar na candidata dele? Por que essa separação entre juízos e consequências? Quem souber dissecar melhor o enigma estará em vantagem.

De volta à campanha, há uma curiosidade no ar sobre como serão as críticas mútuas, quando vierem para valer. O que vai colar e o que não? Ainda está por ser verificado o resultado do investimento na tese da suposta incompetência de Dilma para a função que pleiteia. Bem como a tentativa de pintar Serra como um elitista insensível.

Meu palpite é que foram desperdícios. Como nem Dilma é a incompetente que pinta a oposição nem Serra poderá ser facilmente desconstruído a partir do rótulo de “candidato dos ricos”, resultará em soma zero de vetores.

É o óbvio e o banal, mas a disputa deve decidir-se na reflexão de “quem é melhor para o Brasil”, a versão açucarada da mensagem real: o “quem é melhor para mim”. Novidade? Não, mas nem sempre a notícia é sinônimo de novidade, com o perdão dos dicionários.

Ou seja, se estamos na fase dos atributos, ela é apenas o aquecimento para a etapa decisiva, a dos benefícios, como se aprende em qualquer curso básico de vendas. Mas seria um erro imaginar a existência de uma muralha chinesa entre as duas variáveis. Capacidade de trazer benefícios tem a ver com atributos.

A arte está também na construção do elo entre os dois. Não basta só o cara ser bacana, tem que entregar a mercadoria. Mas um cara bacana desperta mais esperança de entregar a mercadoria.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (18) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Incólumes no lamaçal (17/08)

O Itamaraty opera no terreno do pragmatismo frio e dos interesses brutos, especialmente os comerciais, mas gostaria de atravessar a lama vestido de branco e sair limpinho do outro lado

O ministro Celso Amorim publicou artigo neste fim de semana na Folha de S.Paulo para refutar os críticos do tratamento que a política externa reserva aos direitos humanos. A essência do argumento do chanceler: mais vale agir cuidadosamente nos bastidores e obter resultados tangíveis do que fazer barulho e agravar os impasses.

Afinal, toda manifestação brasileira poderá ser vista como ingerência inaceitável nos assuntos internos de outra nação soberana.

Em teoria, uma beleza. Há porém pelo menos um problema na linha argumentativa do titular do Itamaraty. Ela cai bem nas situações para as quais foi confeccionada. Mas infelizmente não se encaixa em outras.

Uma exceção evidente é o duplo padrão dos votos brasileiros na ONU em temas de direitos humanos.

O Brasil comporta-se ali com extremo cuidado quando o alvo são tiranos aliados do atual governo brasileiro, ou países despoticamente comandados mas prenhes de oportunidades comerciais. Já quando a pauta traz acusações a adversários, explícitos ou não, somos tomados por um principismo granítico.

Aí os direitos humanos passam a ser inegociáveis.

Agir com cuidado, não soar os tambores antes da hora, respeitar (ou pelo menos fingir que se respeitam) os limites da interferência na economia doméstica alheia, eis o cardápio dos itamaratecas quando o cenário estratégico recomenda a defesa do status quo. Já quando interessa ao Brasil a desestabilização (ou impedir a estabilização) de regimes antipáticos, ou incômodos, a conversa é outra.

Tem sido o caso de Honduras. Quando o chanceler fala em discrição, lembro sempre de como ele veio a público, logo após a deposição do presidente Manuel Zelaya, para prognosticar que o novo regime não duraria muito e que deveria ser isolado internacionalmente. Aliás toda a estratégia brasileira no episódio baseou-se nisso.

Na solenidade de posse do novo primeiro mandatário colombiano dias atrás, Luiz Inácio Lula da Silva recusou-se a tomar o mesmo ônibus do presidente hondurenho, recentemente eleito. Afinal, a eleição em Honduras foi o epílogo de um golpe de estado. O fato de Zelaya ter desencadeado a confusão, tentado ele próprio um golpe antes de ser ilegalmente deposto, não entra na narrativa de Lula ou de Amorim.

O governo do PT milita na linha de frente pela readmissão plena de Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA), sem precondições. É razoável, à luz dos princípios da não ingerência. É aliás a posição brasileira desde a redemocratização. Mas o mesmo governo resiste heroicamente à normalização das relações hemisféricas com Honduras, porque tem objeções a aspectos da política interna hondurenha.

Ou seja, a coisa toda não para em pé. É a era dos argumentos à la carte. Para cada situação uma explicação diferente, sem que umas precisem necessariamente encaixar-se nas outras.

Não haveria problema se o Itamaraty assumisse abertamente que sua política é pragmática mesmo. Lembram-se do “pragmatismo responsável”? Pois é.

O Itamaraty opera no lodaçal da realpolitik e dos interesses brutos, especialmente os comerciais. Sua cartilha é a da relativização absoluta dos princípios, mas pretende atravessar o lamaçal vestido de branco e sair limpinho do outro lado.

Daí que de vez em quando alguma autoridade da área compareça ao palco para desfilar princípios morais e éticos, apenas para voltar à rotina em seguida.

E agora?

O Irã recusou a proposta brasileira de mandar para cá a condenada ao apedrejamento. Por “adultério” ou outros crimes, já que o singular sistema jurídico iraniano parece permitir a metamorfose das acusações conforme a conveniência de quem deseja condenar.

Independente do desfecho, Lula poderá dizer agora que tentou fazer algo para evitar a crueldade. E o Irã continuará a fazer o que bem entende na esfera dos (poucos) direitos humanos. O que não impedirá o Brasil de seguir aliado ao Irã.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça no Correio Braziliense.

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domingo, 15 de agosto de 2010

Sem espaço para errar (15/08)

Quando você precisa se explicar a toda hora é porque alguma coisa não vai bem. Essa é uma regra geral, sem margem de erro ou grau de incerteza

Na véspera dos programas e inserções eleitorais de rádio e televisão, não apenas os candidatos estão alinhados para a largada, mas também os institutos de pesquisa. Após meses de alguma dissonância, os quatro (Datafolha, Ibope, Sensus, Vox Populi) dizem mais ou menos a mesma coisa: Dilma Rousseff (PT) abre esta etapa na frente de José Serra (PSDB). Por poucos pontos, ainda na casa de um dígito.

Enquanto afirmavam coisas diferentes, os institutos andaram estranhando-se nos números e nas interpretações, com a natural repercussão entre as torcidas. Assim como no jornalismo, o “pesquisismo” também tem sido cenário para o “você está dizendo isso só porque apoia fulano”. É a conversa da arquibancada. Na versão benigna.

Já no campo de jogo a peleja tem outras regras: as caneladas e carrinhos vêm na forma de polêmicas entre o “ponto de fluxo” e a “consulta domiciliar”, entre fazer a indagação sobre o voto antes ou depois de perguntar o que acha do governo, entre dizer ou não que o candidato “x” é apoiado pelo político “y”. E, se não é suficiente, tem sempre a margem de erro para dar uma mãozinha.

Mais ainda. Tem uma coisa chamada “incerteza”. Com as mesmas letras miudinhas dos contratos duvidosos, os institutos avisam sempre haver uma chance (geralmente 5%) de a pesquisa estar completamente errada. De o resultado colhido na amostra ser diferente (para além da margem de erro) do que seria se todo o universo fosse auscultado.

Nas pesquisas, como nos consultórios médicos, o doutor sempre tem razão, até quando não tem. Pois ciência mesmo é dar a si próprio uma probabilidade generosa de estar errado. O tratamento não funcionou? Lamento, mas você está naqueles poucos casos em que não funciona. Tudo bem, doutor, mas o senhor me devolve então o dinheiro das consultas? E dos remédios?

Um consenso é que institutos de pesquisa vivem da credibilidade. Será? Assim como políticos vivem de ganhar eleição, pesquiseiros precisam acertar. No desfecho, claro, mas também nas parciais. Com um detalhe: é fácil verificar se a pesquisa de véspera de eleição acertou, basta compará-la com o resultado. Já nas parciais é mais complicado, pois só dá para comparar mesmo umas pesquisas com as outras.

Agora, por enquanto Sensus e Vox Populi estão levando vantagem sobre o Datafolha, com o Ibope mais ou menos no zero a zero. Já duas vezes o Datafolha chegou a resultados parecidos com os dos concorrentes, mas depois. Hoje as pessoas creem que Dilma ultrapassou Serra, e quem apontou nisso primeiro anda numa boa. Já os outros têm que se explicar.

E quando você precisa se explicar a toda hora é porque alguma coisa não vai bem. Essa é uma regra geral, sem margem de erro ou grau de incerteza.

Isso garante que uns estejam “certos” e os outros, “errados”? Claro que não. No limite podem estar todos errados.

E daí? O drama para os institutos de pesquisa é que a disputa entre eles na maior parte do tempo se passa numa esfera intangível, a das percepções. Daí o valor da tal “credibilidade”. Se eu tenho credibilidade, tenho e ponto final. Mas credibilidade nenhuma resiste intocada ao erro. Menos ainda ao erro sistemático e à necessidade sistemática de se explicar.

E mesmo quem não larga na corrida com muita credibilidade pode acumular capital político, se acertar mais do que os outros, se der sistematicamente a impressão de que vai na frente e os adversários vão atrás. Aliás, quem precisa recorrer muito à própria credibilidade está a meio caminho dar um tchauzinho a ela.

Vai começar

O desafio para para os profissionais de Marina Siva é impedir que seja tragada pelo escasso tempo de tela e pela polarização há muito anunciada. Já no caso de José Serra, a tarefa, não trivial, é explicar por que mudar se as coisas vão bem. A missão de Dilma Rousseff é mais simples, basta impedir que Serra consiga dar essa explicação.

Dilma chega na frente na largada, o que é bom para ela. Estar na frente é sempre melhor. Serra chega precisando segurar um punhado de votos para levar a eleição ao segundo turno. E virar um punhado deles para ganhar.

Numa eleição em que esse punhado é de cinco milhões num universo de 135 milhões, dizer que ela já acabou parece algo precipitado.

Mas é óbvio que o grande desafio está no campo de Serra e não no de Dilma.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (15) no Correio Braziliense.

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sábado, 14 de agosto de 2010

De volta (14/08)

Amanhã tem coluna/blog.

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