Mudos de carteirinha (01/09)
Fidel Castro veio a público para assumir a responsabilidade pela discriminação dos homossexuais em Cuba. E pelas perseguições. Segundo o ex-governante, as pressões imperialistas no pós-revolução levaram-no a cometer o erro original. Pede agora desculpas e que o regime mude de atitude em relação a esse grupo social.
O aspecto bizarro é Fidel atribuir seus erros às circunstâncias. Mas é bacana, finalmente, Cuba abrir-se a um debate sobre mais uma deformação do processo político. A autocrítica de Fidel tem também outra utilidade: todos poderão agora criticar a discriminação dos gays em Cuba sem correr o risco de receber o rótulo de contrarrevolucionário. Ufa!
E se Fidel tivesse morrido rapidamente da doença que o tirou do poder? E se não vivesse para fazer a autocrítica? E se não viver o suficiente para fazer as demais? Como ficarão os que admiram o bravo povo cubano mas divergem dos caminhos adotados na ilha? Deverão ir para o túmulo com suas objeções, silenciados pela falta da autocrítica libertadora alheia?
Antes de ontem, quantas vezes os movimentos específicos dos partidos de esquerda e socialistas no Brasil tinham se dado ao trabalho de produzir ao menos uma miserável moção em defesa dos direitos dos homossexuais em Cuba? Alguém pode informar?
É um caso parecido com o da iraniana condenada à morte por “adultério”. O assunto transita entre a ameaça de apedrejamento e o “alívio” do enforcamento. Sob o silêncio eloquente do feminismo e do progressismo pátrios. Mas se Mahmoud Ahmadinejad der a ela o perdão será elogiado pelos atuais mudos de carteirinha.
Fidel tem estado ativo nos últimos tempos, especialmente no front das letras. Vem recentemente de abordar a crise iraniana, com previsões apocalípticas. Pelo menos sobre o lado iraniano ele deve saber o que diz, tem conhecimento de causa.
O Partido Comunista de Cuba tem o apoio dos aliados continentais para exigir dos Estados Unidos o fim incondicional do embargo econômico. É também a posição brasileira, baseada no princípio da autodeterminação dos povos. O “incondicional” tem um significado bastante específico: sem mudanças no regime político ou na esfera dos direitos humanos.
Já observei aqui que a atitude brasileira é defensável, com exceção de um detalhe: em Honduras, o caminho seguido pelo Itamaraty é o oposto. Para o Brasil, ou Tegucigalpa atende às exigências de Luiz Inácio Lula da Silva ou o presidente brasileiro não pega nem o mesmo ônibus que o colega hondurenho.
Em Cuba o governo é amigo, então que se defenda a autodeterminação. Em Honduras não é, então que se pratique a ingerência.
O Itamaraty afirma que as gestões brasileiras sobre os direitos humanos em Cuba precisam ser discretas, para não criar constrangimento e não erguer mais barreiras a soluções possíveis. Ainda bem que o humorismo está liberado no período eleitoral. É óbvio que, faz tempo, o Brasil decidiu abrir mão de qualquer protagonismo na pressão sobre Havana nesse terreno.
E vai ser assim até o dia em que, como na discriminação dos homossexuais, a posição cubana mudar, talvez por alguma transformação interna no próprio regime, ou por pressão externa. Então os áulicos daqui vão aplaudir, e reivindicar o mérito para si na cara dura.
É uma situação grotesca no plano moral, mas nada que faça despertar maiores preocupações políticas. Direitos humanos em Cuba não dão nem tiram votos suficientes para decidir uma eleição no Brasil. Para efeito de contabilidade eleitoral, o assunto fica catalogado no rol dos que exigem apenas respostas espertas, para evitar maiores repercussões.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (01) no Correio Braziliense.
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