quinta-feira, 11 de março de 2010

Nem sabedoria, nem coragem (11/03)

É habitual lutadores políticos autênticos aceitarem a morte pela causa. Mas ninguém nunca viu bandido oferecer voluntariamente a própria vida em sacrifício por motivo político. Bandido não está atrás de morrer, ao contrário. É uma diferença fundamental

O PT e Luiz Inácio Lula da Silva precisam decidir se é desejável a transição democrática em Cuba. Ou se seria retrocesso. Precisam resolver se a mudança no sistema político de lá -para talvez aproximá-lo do nosso- representaria avanço. Ou se viria como capitulação ao imperialismo norte-americano. Precisam dizer se o socialismo melhora quando incorpora valores universais nascidos com a democracia liberal. Ou se piora. Ou se é incompatível com eles.

São questões objetivas.

Não peço ao governo do Brasil ou ao PT para se meterem na política interna de Cuba. Não defendo isso. Mas um debate verdadeiro exige que as posições políticas estejam claras. E já registrei aqui noutra ocasião ("Um poço de bom senso") que o PT talvez não tenha maior dificuldade quando decidir pegar esse touro a unha. Afinal a sigla é, nas suas próprias palavras, um produto histórico da “esquerda democrática”. Conceito que só existe em oposição a uma esquerda “não democrática”.

Mas você pode achar essa abordagem absurda, pois cada país tem uma história, uma circunstância, e não cabe julgar de fora, por nenhum critério. Nem tentar estabelecer padrões. Não haveria portanto uma escala civilizatória a percorrer, mas processos específicos, baseados apenas na absoluta soberania nacional e cultural. Não nos metemos na vida dos outros e eles não se metem na nossa. E ponto.

É intelectualmente defensável. Mas o argumento precisaria ser conduzido com radicalidade e amplitude, pois do contrário desmoraliza o proponente. Como, infelizmente, tem provado o nosso querido Itamaraty.

Ou talvez o sujeito acredite que existe sim a tal escala civilizatória, e que nela Cuba está adiante de nós. Por ter abolido a propriedade capitalista e trocado o projeto de uma democracia burguesa por outro, bem mais avançado. Então, pela lógica, se é bom lá também deveria ser proposto aqui. Nem que só para o futuro. O eleitor tem o direito de saber.

Se entre nós tal debate é em boa medida teórico, para os cubanos é bem prático. Especialmente para os que divergem do governo de Havana. Como os Estados Unidos querem e incentivam a mudança do sistema político de Cuba, todo mundo que ali defende a mesma coisa e começa a lutar pelos seus objetivos, mesmo quando pacificamente, acaba enquadrado pelas autoridades na categoria de inimigo do país. E corre o risco de puxar uma cana brava.

Terça-feira Lula comentou sobre a greve de fome de presos políticos em Cuba. O ato desesperado busca sensibilizar o governo cubano para que solte um grupo de prisioneiros. Lula criticou a greve. Poderia tê-lo feito com elegância. Poderia ter usado um argumento humanitário, ou religioso (religiões costumam proibir o suicídio). Mas preferiu fazer o paralelo talvez mais equivocado e deplorável de todo o abundante estoque de falas presidenciais, desde 2003.

Não é razoável soltar presos políticos só por causa de uma greve de fome, diz Lula, assim como não seria razoável libertar bandidos comuns que usassem essa mesma forma de pressão.

Poucas vezes, talvez nunca em sua longa e vitoriosa carreira política, Lula esteve tão completamente errado. São situações incomparáveis. Pode haver uma superposição, uma zona cinzenta entre a militância política e o banditismo. Mas são coisas diferentes, nunca iguais. E há um jeito fácil de distinguir uma categoria da outra.

É habitual lutadores políticos autênticos aceitarem a morte pela causa. Mas ninguém vê bandido oferecer voluntariamente a própria existência por um motivo político. Bandido não está atrás de morrer, ao contrário. Pode até perder a vida por causa das opções que faz, mas será um acidente, uma contingência, e nunca um sacrifício de caso pensado.

Claro que Lula sabe distinguir entre as duas turmas. Ainda mais como presidente da República. Ninguém chega onde ele chegou, nem sobrevive no poder, se não souber separar os dois segmentos.

Em termos simples e práticos, e para resumir, os presos políticos cubanos não são bandidos, são militantes de uma causa com a qual o presidente do Brasil parece não concordar. Paciência. Mas nem por isso nosso chefe de Estado tem o direito de se referir a eles como se fossem criminosos comuns.

Humilhar os adversários nunca é ato de sabedoria. Neste caso particular, considerando que Lula é o todo-poderoso presidente do grande Brasil e os alvos da fúria verbal dele estão presos, nas condições conhecidas, sequer pode ser entendido como ato de coragem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta qunta (11) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Cotas, passado e futuro (10/03)

Nossa Independência não aboliu a escravidão, e o fim desta não trouxe a reforma agrária. Não se deram aos negros libertos meios para avançarem ainda mais na busca de cidadania. As cotas raciais são uma proposta — pode haver outras melhores — para fazer agora o que não foi feito antes

No meio da discussão das cotas para negros em universidades públicas, debate-se o papel das relações escravistas africanas “endógenas” na formação do mercado ocidental de escravos, na América Colonial. Historicamente é um aspecto bem conhecido e resolvido, apesar dos impulsos revisionistas. O tráfico de negros da África para o Ocidente construiu-se sobre alicerces de uma arquitetura social e econômica ali preexistente, escravagista. O colonialismo não a criou. Integrou-a, subordinou-a.

Mas o que isso tem a ver com o debate das cotas raciais nas universidades, objeto da audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) em que a polêmica político-jornalístico-acadêmica começou a germinar? Rigorosamente nada. As cotas não respondem a uma suposta necessidade de reparação histórica, nem têm aí um mecanismo legitimador objetivo. Elas são apenas um meio de acelerar a oferta equilibrada das oportunidades num país desigual demais.

As consequências serão realmente impressionantes se formos discutir as ações afirmativas com base em dívidas ancestrais, reais ou alegadas. Infelizmente, pode acontecer. Será mais uma deformação no nosso debate político, mais uma cria da fértil coabitação do multiculturalismo com o oportunismo.

Pelo critério da reparação, a compensação razoável aos povos originais deveria então incluir a completa devolução das terras brasileiras aos descendentes dos índios que aqui viviam quando os portugueses desembarcaram no século 16. E chegaríamos a um beco sem saída. Além dos índios, há outros oprimidos a reivindicar terras. Como atender uns e não atender outros?

Tem havido nos últimos anos uma notável expansão das áreas catalogadas como antigos quilombos. Mas, se os índios têm direito a tudo que foi tirado dos ancestrais deles, como fica o direito dos demais grupos também “de baixo”? Como resolver isso? Com base em laudos antropológicos? Mas por que critérios? Ou seria melhor convocar historiadores? Mas de que correntes de pensamento? Bem, se não der de outro jeito, que tal no braço?

Discutir reivindicações econômicas ou territoriais com base na contabilidade de débitos históricos é uma aberração que leva a caminhos perigosos. No Oriente Médio, a arqueologia, entrelaçada com a religião, tem sido ferramenta habitual na disputa para definir de quem deve ser tal ou qual pedaço de chão.

O sujeito encontra um fragmento de vaso, um pedaço do que seria um candelabro, ou lê um trecho do livro que elegeu como verdade absoluta e pronto: está aberto o caminho para o lunático pedir a remoção de populações e mesmo a eliminação de países inteiros.

Fazer política com base na História, vista como certificadora em última instância, mais ainda quando isso se dá a partir de critérios de “culpa” e de “direitos originais”, nunca acaba bem. Pelo menos eu não conheço caso em que tenha acabado bem. Você conhece?

Até por não ter visto ainda uma proposta melhor, sou favorável às cotas raciais, com alguns critérios. Como garantir que o candidato é mesmo negro? Por mim, basta que ele se declare negro. Eventuais fraudadores teriam que arcar com o custo social da sua fraude. Seria mais do que suficiente.

Ao julgar o assunto, penso que o STF deveria proibir a tentativa bizarra de instituir supostos critérios “objetivos” para o estudante obter o “atestado de negro”. Assim como deveria vetar os critérios subjetivos, tão odiosos quanto, por embutirem a possibilidade real de discriminação político-ideológica.

Feita a ressalva, defendo que as cotas para negros nas universidades públicas sejam limitadas no tempo, adicionais e declinantes. A provisoriedade é autoexplicativa, pois o objetivo delas é extinguir-se. Adicionais, porque em vez de separar vagas já existentes o Estado deveria criar novas. E declinantes, ainda que a uma taxa suave, para garantir a provisoriedade.

O Brasil fez sua Independência sem abolir a escravidão, e quando acabou com ela não fez a reforma agrária, não deu aos negros libertos meios para avançarem ainda mais na busca de cidadania. As cotas raciais são uma proposta — pode haver outras melhores — para fazer agora o que não foi feito antes. Não para reescrever o passado, mas para construir um futuro diferente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (10) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 9 de março de 2010

A semente do mal (09/03)

A tragédia delineia-se quando no debate sobre a livre expressão os dois lados acabam concluindo que ela só se realiza plenamente caso ele próprio tenha o direito inalienável de amputar a liberdade do rival

O debate sobre a liberdade de expressão vai de vento em popa na nossa elite política e intelectual. É uma discussão sempre necessária, pois não há democracia sem a plena garantia desse direito básico. Parece haver algum consenso aqui.

Mas ele é só aparente. Acontece algo parecido na reforma tributária e na reforma política: todo mundo é a favor até a coisa enveredar pelo conteúdo das medidas. A partir daí ninguém mais se entende.

O governo Luiz Inácio Lula da Silva e o PT impulsionam por dois caminhos as discussões e as políticas públicas ligadas ao tema. No primeiro, afirmam ampliar o acesso aos canais de informação, para quem produz ou consome. No segundo, estimulam iniciativas pelo assim chamado controle social da comunicação.

Mas em nenhuma das duas frentes o PT e Lula têm realizações significativas a exibir. Falta vontade numa e força na outra.

A televisão digital engatinha, a banda larga é cara e ruim, a telefonia móvel é caríssima e péssima. O oligopólio estruturado na década de 1990 está aí, inteiraço. Como bom amigo dos ocupantes do poder, não tem razão para se preocupar.

Vide o debate sobre o novo plano nacional de banda larga. O governo vai participar com a rede (se desatar o nó da Eletronet) e as empresas vão “cuidar” dos consumidores. Tem tudo para ser mais um remake do velho filme de terror. Vamos continuar nas mãos do consórcio entre um punhado de empresas (muito) felizes e uma agência reguladora (muito) flexível.

Parecem ter ido para o arquivo morto os planos da estatal que entraria no mercado forçando a elevação na qualidade e o mergulho nos preços cobrados do usuário final. Pelo jeito, foi só mais uma ameaçazinha para assustar a rapaziada.

O governo é assim: aconchega-se junto aos vencedores das privatizações realizadas pelo PSDB e apressa-se na garantia dos interesses deles, enquanto coloca a moçada na rua, bandeira vermelha na mão, para demonizar as privatizações do PSDB.

Eis uma receita eficaz: manter no fogo o palavrório antiprivatista e antimonopolista, para usar a ebulição como moeda de troca política com os donos do dinheiro. E depois reclamam quando os tucanos ficam enciumados.

Chegamos à conexão com a segunda frente. Enquanto mantém intocada a base material nas comunicações, o governo impulsiona todo tipo de barulho pelo controle social da imprensa. Mesmo sabendo que a nossa democracia impede. O país não deseja e não apoiaria um passo assim, e hoje o PT não tem meios para ir por aí.

É impossível fazer o controle a priori da produção e da veiculação jornalísticas. Seria censura, proibida pela Constituição. E a posteriori existe a Justiça, também na forma constitucionalmente determinada.

Mas essa movimentação pelo controle social não é 100% estéril. Ela produz outro resultado, além da intimidação dos intimidáveis. Permite, no campo oposto, que o apologista do pensamento único se autoproclame campeão de uma liberdade de imprensa “seriamente ameaçada”. Bem ele, o habituado a dar voz apenas às próprias ideias, a defender o próprio monopólio e a usar o poder para guerras de extermínio contra quem —e quando— convém.

Se a pessoa não conhece, pode até pensar em comprar.

De saldo, a tristeza de ver como no debate sobre a livre expressão o polemista acaba facilmente arrastado a concluir que ela só existirá, de fato, caso ele próprio tenha o direito inalienável de amputar a liberdade do rival.

É uma tragédia quando os dois lados da polêmica conduzem a discussão por aí. Mesmo sem efeito prático imediato, o esgarçamento acaba plantando a semente do mal.

Garganta soberana

O Brasil junta-se aos Estados Unidos nas pressões sobre a China para ela deixar, assim como já fazemos nós, o valor da sua moeda ser definido pelos fluxos globais do dólar, do euro etc.

Os chineses resistem pois não querem, nem teriam como, seguir os nossos passos. Trabalham há décadas para ser mais do que uma potência agrícola. Nem poderiam oferecer-se para celeiro do mundo desenvolvido. Ali sobra gente e faltam terras agricultáveis.

É (mais) um belo capítulo da nossa política externa soberana e altiva, sempre na contramão dos projetos hegemônicos.

Blá, blá, blá.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (09) no Correio Braziliense.

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sábado, 6 de março de 2010

À espera dele (07/03)

Convém aguardar pela chegada de sua excelência, o fato, na maneira peculiar como Ulysses Guimarães a ele se referia. Há certa ansiedade no ar, uma pressão difusa para antecipar o resultado da eleição. Um ambiente de jóquei clube

Muito barulho, muitas chacoalhadas e muito levantar de poeira depois, o quadro eleitoral está mais ou menos como se projetava lá atrás. A competitividade da chapa do PSDB espera pela definição entre as forças partidárias de São Paulo e Minas Gerais. A pré-candidata do PT vai recolhendo o suporte de Luiz Inácio Lula da Silva e dos muitos militantes e simpatizantes (o partido é, de longe, a legenda preferida pelo eleitor que apoia partidos). A pré-candidata do PV conseguiu implantar uma cabeça de praia no pedaço do público que não se enxerga representado pela polarização.

Um nó da eleição está no primeiro vetor. Se os peessedebês paulista e mineiro alcançarem configuração, qualquer uma, que sugira unidade real produzirão fato político capaz de criar novas expectativas. Para ganhar eleição é preciso antes de tudo querer ganhar. O PT deseja, e muito. O eleitor já percebeu. Eleger Dilma é a razão de viver de todo o PT, a começar por Lula. Na oposição a coisa não vai tão clara. A observação dos acontecimentos pode fazer supor que a prioridade de cada facção é ferrar a outra.

Mas para confirmar essa impressão convém esperar pela chegada de sua excelência, o fato, na maneira peculiar como Ulysses Guimarães a ele se referia. Há certa ansiedade no ar, uma pressão difusa para antecipar o resultado da eleição. Um ambiente de jóquei clube. Todo mundo apostando. Uns por gosto, outros por necessidade. No segundo grupo, a turma que se alimenta à sombra do Estado. Um pessoal que quando erra de lado sempre pode esperar dor de cabeça.

Quem sobrevive bem no cenário turbulento é o governador de Minas, Aécio Neves, cujos movimentos se concentram na defesa do território e dos atributos dele. E vai funcionando. Qual é o principal cacife do neto de Tancredo Neves na rinha nacional? São dois. A força em seu importante estado e a imagem da renovação. Há também a capacidade potencial de aglutinar apoios vindos da base do governo, mas isso não parece animar o PSDB, pois precisaria ser comprovado na prática.

Ninguém subestima a força de atração da popularidade de Lula e do orçamento federal e das estatais, tudo combinado.

No outro campo, as últimas pesquisas vitaminaram a autoconfiança. A operação política do PT-Planalto tem pista relativamente livre no curto prazo, e procura ganhar o mais de terreno que conseguir. Pode fazer a diferença lá na frente, quando a disputa entrar em fase mais renhida.

Há entretanto um aspecto da tática petista que ainda transmite perplexidade em certos públicos. Umas horas o PT parece reeditar as linhas conciliatórias da Carta aos Brasileiros e do “deixa o homem trabalhar”. Outras, que aposta na divisão “classista” do país, confiando em fazer maioria suficiente para atravessar o desfiladeiro. Num dia emissários comparecem a plenários seletos para garantir que o PT é bonzinho. No outro a mensagem é ao contrário.

Quem administrará melhor sua contradição particular?

Honestidade

O economista e professor da PUC-SP Carlos Eduardo Carvalho publica interessante artigo no Valor Econômico sobre as circunstâncias do Plano Collor, que faz 20 anos. Além de interesante é honesto. Um
feito, dado o atual ambiente.

Há personagens que na época viram com simpatia -ou apoiaram- o enxugamento da liquidez e depois, "indignados", passaram a repudiar o “bloqueio da poupança". Mas só quando Collor caiu em desgraça.
Carvalho afasta-se desse oportunismo e joga luz sobre aquele complicado episódio da luta contra a hiperinflação.

Carvalho sabe o que diz, ou escreve. Ele estava no coração da campanha de Lula em 1989.

Desperdício

Reescrever a História é mesmo arma habitual na disputa política. Ainda agora, há um esforço de economistas deste mandato de Lula para “provar” que houve uma “inflexão” na política econômica na transição do primeiro para o segundo governo do PT. Talvez estejam em busca de um “significado histórico” para sua passagem pela administração. É humano.

Não há qualquer elemento a comprovar mudanças qualitativas, mas a discurseira serve para alimentar a mitologia. São os supostos “heterodoxos” do superávit primário, do câmbio flutuante, das metas de inflação e da independência do Banco Central. Batendo-se contra os supostos “ortodoxos” que defendem a mesma coisa.

Cada um desperdiça o tempo como lhe convém.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada este domingo (07) bo Correio Braziliense.

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Um soco em boa hora (05/03)

Será que nossos modelos de eleição e de cobertura jornalística da dita cuja não estão a reproduzir na circunstância eleitoral exatamente o desenho econômico e social excludente que os políticos sem exceção dizem querer combater? E que o jornalismo teoricamente deveria criticar?

Circunstâncias profissionais fizeram eu estar sentado na noite da quarta-feira diante de um filme não propriamente novo, mas ao qual eu deveria ter dado bola antes: “Pro dia nascer feliz”, de João Jardim, lançado há três anos. Tomei um soco no estômago. E veio em boa hora.

O filme dura o tempo de um jogo de futebol e capta as realidades contrastantes de adolescentes nas extremidades sociais e regionais do Brasil. Na pauta, a educação (ou a falta dela), a cultura, a sexualidade, a violência. Bom de passar na televisão aberta em horário nobre. Logo depois da novelinha “como é verde meu vale” da vez.

Quando o comentarista político senta diante do teclado, especialmente no ano eleitoral, a tentação quase irresistível é escrever sobre a politicagem, sobre os joguinhos. “Oposição acusa Dilma de fazer campanha antes da hora”, “Ciro mantém mistério sobre se vai ser candidato a presidente ou a governador”, “PSDB não se entende sobre a vice”, “Lula diz que a eleição não vai ter terrorismo”.

E daí?

Tem também as pesquisas, E lá se vão páginas e mais páginas, manchetes sobre manchetes. As eleições transformaram-se nisto: um mar de politicagem pontilhado aqui e ali por levantamentos estatísticos de intenção de voto e escândalos –reais ou convenientemente fabricados. Só.

Parece-lhe até aqui pueril, um adjetivo incompatível com a função de colunista? Talvez seja mesmo. Mas vou correr o risco, para tentar abrir cartas novas no baralho. Uma: será que os modelos de eleição e de cobertura jornalística da dita cuja não estão a reproduzir na circunstância eleitoral exatamente o desenho econômico e social excludente que os políticos dizem querer combater? E que o jornalismo teoricamente deveria criticar?

Qual é a maior tragédia nacional? Todos têm uma opinião. Na minha modesta, é a distância galáctica entre, de um lado, a beleza de escola frequentada pelo filho do rico e do classe média e, de outro, a tristeza da “escola” oferecida ao filho do pobre. Se você discorda dessas minhas aspas, assista “Pro dia nascer feliz”.

Querem uma segunda desgraça? A expansão ainda muito lenta da rede de água e esgoto para as regiões que o eufemismo nacional chama de “carentes”. Uma terceira? A deplorável situação do transporte coletivo nas grandes cidades. Metrô escasso e ônibus caindo aos pedaços, enquanto empresários espertos, além de muito bem relacionados e sortudos em licitações, faturam os tubos.

Uma quarta? A impunidade crônica dos autores de crimes de morte. O Brasil é o país da boa relação custo-benefício para o homicida. Especialmente se é “de menor”.

Assuntos há de monte. Mas é como se os temas “populares” pertencessem a uma casta inferior. Perto da eleição, o marqueteiro talentoso e maravilhosamente bem pago com o dinheiro de doações ocultas dos sócios do Estado vai dar um jeito de mostrar como o candidato dele, sempre sorridente, “já fez muito, e fará muito mais pelas pessoas, pelos que precisam”. Quais vão ser as prioridades? “Educação, Saúde e Segurança!”. O fulano se dará inclusive ao trabalho de apresentar um “programa de governo”. Ah bom.

Pronto. Já desabafei e estou novamente em condições de voltar à rotina. Antes, fica uma pergunta aos presidenciáveis. “Quais medidas o senhor (ou senhora) adotará para igualar a qualidade da escola pública à da particular nos níveis fundamental e médio? E em quanto tempo o senhor (ou senhora) acredita que a defasagem estará superada? O senhor (ou senhora) assume esse compromisso?”

Empilhados

Por falar em programa de governo, a habilidade política da candidata Dilma Rousseff será testada na prática quando ela tiver que se definir sobre questões centrífugas que ganham relevância à medida que se amplia a base dos apoiadores.

Um exemplo é a jornada de trabalho de 40 horas semanais. O governo e Dilma sempre poderão recorrer ao habitual “não é comigo” e jogar o abacaxi para o Congresso. O risco é a ministra passar a impressão de que com ela na cadeira o Legislativo correria razoavelmente solto, e o PMDB daria as cartas e jogaria de mão.

Aliás, há um detalhe na praça sobre o eventual governo Dilma. Se for somar todo o poder que cada interlocutor dela acredita que terá, seria poder em quantidade suficiente para uns dez governos empilhados. Pelo menos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 4 de março de 2010

O poder e o pescoço (04/03)

O Irã é a mais desafiadora mesa de pôquer a que a diplomacia brasileira comparece desde que Getúlio Vargas pendulou entre o nazifascismo e os aliados. Vargas deu-se bem no final. Sorte nossa que o presidente agora é Lula, outro craque da metamorfose

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, dá as caras na América Latina. Na rotina de responsável pela política exterior dos Estados Unidos, deve arquivar os briefings sobre nossa região numa pasta “Oásis”, ou algo assim. Aqui não há terrorismo nem —por enquanto— armas nucleares, químicas ou biológicas. Tanto o discurso antiamericano quanto o alarmismo a respeito dele andam meio sem fôlego, circunscritos a grupos ideológicos ou a eventos cujo único objetivo é entreter platéias úteis de radicalizar.

Na vida real, os governos locais estão é empenhados em melhorar as relações e fazer bons negócios com o capital vindo de Washington. Hugo Chávez acaba de fechar com a americana Chevron o maior contrato de exploração de petróleo do já longevo governo dele. A Venezuela precisa de investimentos e foi buscá-los nos Estados Unidos. Faz bem. O país está sedento de pesadas inversões em energia e infraestrutura. Ali, como aqui, talvez seja hora de esbravejar um pouco menos e realizar um pouco mais.

Escrevi em junho do ano passado que as coisas andavam bem melhores para o Tio Sam na América Latina depois da posse de Barack Obama (“O 'soft power', um sucesso latino”). Com um gesto simples, a diplomacia americana havia retirado do primeiro plano o bloqueio a Cuba. Para eventualmente poder manter a política, e com menos dores de cabeça. Aconteceu.

E a Casa Branca ainda não tinha recebido de bandeja o presente chamado Honduras.

De qualquer ângulo analítico, a trapalhada de Manuel Zelaya será vista no futuro como marcador, daqueles fosforescentes, no gráfico das relações hemisféricas. Por evidenciar que o anti-imperialismo latino-americano tem características de “tigre de papel”, como diria Mao Tse-tung. Aparentemente feroz, mas inofensivo.

Obama e Hillary devem essa ao ex-presidente Zelaya e aos geniais conselheiros dele.

A agenda do momento da secretária conosco é o Irã. Tecnicamente, não haveria por que estarmos no debate. O Irã não é um país da América do Sul, não somos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas e tampouco temos poder econômico ou militar capaz de influir de maneira relevante no desenlace da queda de braço entre as grandes potências e Teerã, cujo foco é o programa nuclear iraniano.

Por sinal, parece faltar-nos força até para sustentar a posição original, a julgar pelas declarações de ontem.

Podemos muito bem ocupar espaço no debate do Oriente Médio sem isso. Basta o Brasil aferrar-se à solução de dois estados, um judeu e um palestino. É nossa política tradicional e abre-nos portas. Por causa dela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera —e com certeza terá— uma bonita recepção em Israel e na Palestina daqui a alguns dias.

O Brasil quer, por acaso, pegar carona nas ambições nucleares do Irã para colocar areia no tratado de não proliferação, de que somos signatários? É uma hipótese, protocolarmente negada pelas autoridades. Parte do novo establishment governamental brasileiro sonha com a imposição, pelos aiatolás, de uma derrota militar estratégica aos Estados Unidos e a Israel? Quem sabe?

Ou talvez Luiz Inácio Lula da Silva enxergue no tema sua melhor oportunidade para esticar a corda. O Brasil tem uma múltipla agenda frustrada nas relações bilaterais com Washington, e criar dificuldades costuma ser o outro caminho para a busca de saídas, quando a coisa é feita com jeito. Considerando que o presidente tem uma carreira de sucesso no sindicalismo, é possibilidade a considerar com atenção.

Haverá um pouco de cada um dos ingredientes?

O Irã é a mais desafiadora mesa de pôquer a que a diplomacia brasileira comparece desde que Getúlio Vargas pendulou entre o nazifascismo e os aliados. Vargas deu-se bem no final da história e arrastou as fichas, pois conseguiu ver as cartas dos adversários, teve como sentir a mudança nos ventos da guerra. Deu tempo de ajustar a aposta sem ficar muito feio. Perdeu o poder, mas manteve o pescoço.

Sorte que o presidente agora é Lula, um craque, o mais legítimo herdeiro vivo de Getúlio nas nobres artes da metamorfose e da dissimulação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (04) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 3 de março de 2010

Jogo do Poder com Antônio Reguffe (03/03)



O deputado distrital Antônio Reguffe (PDT-DF) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Lilian Tahan, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Tancredo aos 100 anos (03/03)

Alguns lutam desesperadamente para escrever a própria biografia em vida, tentando determinar de modo imperial o julgamento da História. É inútil. Já Tancredo Neves está confortável. O tempo passa e a imagem construída por ele vai bem

O centenário do nascimento de Tancredo Neves deverá ser prestigiado pelos diversos personagens e grupos envolvidos na atual luta pelo poder. É do jogo. A ideia é fazer uma homenagem ao líder político. Muito justo, mesmo se servir à autopromoção de quem nada teve a ver com a trajetória dele. Também é do jogo. A História é uma só, mas costuma ser reinterpretada conforme o sentido do vento, o interesse imediato ou a resultante vetorial dos litigantes.

Tancredo viveu e morreu colado nos principais episódios da nossa política no século 20. Até aí, nada. Seria apenas a fortuna ajudando o político sagaz. O mais notável na trajetória dele é outro detalhe: em todas essas ocasiões, sem exceção, ele estava do lado certo, do lado no qual deveria estar para ajudar o país a sair melhor da confusão.

Com Getúlio Vargas em 1954. Contra a radicalização política e o golpismo antes de março de 1964. Contra a ditadura depois, no MDB. A favor da abertura política nos anos 1970. Pela reaglutinação no PMDB quando o regime impôs o voto vinculado em 1982 para tentar garantir maioria no colégio eleitoral que escolheria o sucessor de João Figueiredo. A favor de usar o Colégio Eleitoral para fazer pacificamente a transição democrática na sucessão do último presidente militar, depois do insucesso formal das diretas já.

No Brasil, as circunstâncias levaram a palavra “conservador” a adquirir conotação pejorativa. Pena. Pois talvez falte entre nós hoje alguém como Tancredo, que a cada passagem crítica da sua longa militância agiu sempre de modo a ajudar na conservação da democracia, mesmo quando isso implicava o risco de ver amputada a carreira política.

Seria devaneio idealista e ilusão acreditar que em 1985 a simples presença de alguém como ele no comando do país, saído do autoritarismo, teria tido o poder de legar um ambiente menos conflagrado às futuras gerações políticas.

Mas, se o indivíduo tem seu papel nos acontecimentos, é razoável creditar à morte precoce do presidente eleito e não empossado a desagregação acelerada de um núcleo democrático e nacionalista, que fez do MDB talvez o mais importante partido do nosso portfólio, por representar a possibilidade de um projeto nacional e progressista com a mais ampla base social. Na herança do campo PSD-PTB.

Em meados dos anos 1980 já estavam presentes as forças centrífugas hoje hegemônicas, mas a tarefa pós-udenista delas foi facilitada pelos limites óbvios de um presidente da República com a legitimidade sob pressão, um José Sarney recém-imigrado do outro campo.

Como teria sido um governo Tancredo Neves? Ninguém pode garantir, mas é razoável supor que seria pelo menos tão democrático quanto foi o de Sarney, e com mais condições de influir na Constituinte. E talvez o nó fiscal não tivesse se arrastado por mais uma década e meia, enterrando sucessivas administrações até Luiz Inácio Lula da Silva finalmente agarrar o touro a unha em 2003, depois de um ensaio tardio esboçado por Fernando Henrique Cardoso na vigésima quinta hora do Real.

O mais são conjecturas, e cada um é livre para fazê-las. Eu fico com os fatos. Um fato: Tancredo foi do tipo de político cuja alma nunca está à venda. Outro fato: ele era um assim chamado conciliador, mas nunca transigiu nos princípios democráticos. Outro fato: nunca se soube que fosse adepto do culto à personalidade.

Alguns lutam desesperadamente para escrever a própria biografia em vida, tentando determinar de modo imperial o julgamento da História. É esforço inútil, quixotesco. Batem-se contra moinhos de vento. Para o candidato a protagonista (êta profissãozinha de risco), mais seguro é agir de olho no juízo pós-morte, quando seu poder já não mais terá como intimidar os magistrados.

Nesse particular Tancredo Neves está confortável. O tempo passa e a imagem construída por ele vai bem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (03) no Correio Braziliense

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segunda-feira, 1 de março de 2010

Chega de sofrimento (02/03)

Se o PSDB deseja tanto assim ser reconhecido pelo PT como igual, o melhor é apoiar Lula, o governo dele e a candidata Dilma Rousseff. O PT “reabilitou” personagens ideologicamente até mais distantes, e não teria dificuldade para dar mais este passo

Registrei em dezembro (“Rumo ao plebiscito”) que a oposição previa mudanças dramáticas nas pesquisas que viriam. Foi captado por estes tímpanos que a terra irá reciclar. Assim, se há alguém sem razão para surpresa com o estreitamento da margem entre José Serra e Dilma Rousseff, é a própria oposição.

Tal previsão, entretanto, não produziu um movimento capaz de colocar no jogo, para valer, o pessoal que deseja tirar o PT do Palácio do Planalto (cuja reforma, aliás, anda de vento em popa). As últimas pesquisas foram ruins? Sim, mas está longe de ser o maior problema de tucanos e democratas. Grave é não terem ideia de como tentar brecar o avanço do governismo e pelo menos zerar o vetor da iniciativa política. Se têm, escondem muito bem.

Por que a oposição não consegue retomar a iniciativa? Será porque o governo de Luiz Inácio Lula da Silva é bom? No passado, o PT conseguia opor-se até a aumento salarial para professor. Quem deseja, de verdade, travar a luta política acaba dando um jeito de encontrar a brecha.

Já tratei de uma dificuldade oposicionista: a falta de unidade. Mas reconheço que há aqui alguma tautologia. Esse tipo de unidade costuma ser catalisado pela expectativa de poder, algo que combina vetores quantitativos e qualitativos. Pesquisas têm lá sua importância, assim como as alianças. Mas o decisivo é projetar uma visão clara de futuro.

Pode até ser genérica, mas precisa encaixar no desejo do eleitor e formar um polo de aglutinação da opinião pública, tomada no sentido amplo. É uma tarefa difícil quando se enfrenta um governo popularíssimo, cuja mensagem é a continuidade. Difícil, mas não impossível.

O melhor exemplo é Marina Silva (PV), a cuja campanha os jornalistas e políticos temos prestado menos atenção do que seria saudável. A autocrítica não é tanto pelos índices dela, já bastante bons, e sim pela maneira cirúrgica e sempre adequada como a senadora do Acre intervém. Ela nunca bate de frente, mas invariavelmente busca um defeito no adversário. E assim, de modo objetivo e focalizado, vai minando o oponente e construindo um caminho. Como fazem os grandes pugilistas.

Claro que falar é fácil. Marina não carrega o estigma do passado nem precisa ficar explicando por que o governo dela não será uma volta aos tempos de Fernando Henrique Cardoso. Pode até dar-se ao luxo de fazer elogios a FHC sem abrir brecha para que colem nela o rótulo de “neoliberal”. E, se um dia crescer mais e virar ameaça, os ataques que certamente sofrerá por reunir eventuais apoios “neoliberais” terão tanto efeito quanto os sofridos por Lula devido aos aliados complicados dele: nenhum.

Marina é a prova definitiva de que na esquerda ou na centro-esquerda a oposição mais eficaz contra Lula deve ser executada na margem, como diriam os economistas. Para governar e perpetuar seu projeto de poder, Lula deslocou-se para um centro político, ali montou acampamento e ergueu muralhas. Mas sem descuidar dos elementos simbólicos que o unem à esquerda. Só que persiste uma tensão latente entre o discurso e a vida, entre as ideias originais e a prática, entre o sonho e a realidade. Há um espaço a ser ocupado, uma cabeça de praia a instalar.

Haveria também outra maneira eficiente de fazer oposição a Lula: pela direita. Para isso, precisaria surgir no Brasil uma força organizada, e combativa, efetivamente liberal. Um “Tea Party” verde-amarelo. Mas as circunstâncias do liberalismo brasileiro são conhecidas. Discursos, editoriais e artigos em jornais e revistas, mas sem renunciar aos empréstimos a juros subsidiados do BNDES, ao dinheiro do Banco do Brasil que não é preciso devolver e à ordenha do Tesouro.

Quanto àquele hipotético e teórico liberalismo, o PSDB está no pior dos mundos: leva a fama mas não consegue tirar vantagem. Pois não é liberal, nem tem vontade de parecer que é. No fundo, o que o PSDB talvez deseje é ser reconhecido pelo PT como um parceiro, como cofundador do sucesso petista, da hegemonia social-democrata. Um desejo irresolvido, e que insatisfeito desemboca em mágoas muito perceptíveis.

Se o PSDB precisa tanto desse reconhecimento, eu ofereço modestamente uma sugestão: passem a apoiar o governo, Lula e a candidata dele, Dilma Rousseff. Nem que só “criticamente”. Se o PT teve a frieza e o pragmatismo necessários para repaginar as relações com José Sarney, Fernando Collor, Delfim Netto e mais um punhado de personagens que combateu mortalmente no passado, não terá dificuldade de, caso seja conveniente, “reabilitar” FHC e o PSDB. Afinal, são primos e têm uma história até certo ponto comum. Se o PSDB sofre tanto com isso, se necessita tanto disso, talvez seja o jeito.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (02) no Correio Braziliense.

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um poço de bom senso (28/02)

Autodefinido como partido da “esquerda democrática”, conceito que na lógica e na política só existe em oposição a uma “esquerda não democrática”, o PT certamente estará confortável no apoio à abertura política em Cuba

Luiz Inácio Lula da Silva está certo quando insinua, sem muita sutileza, que falta coragem a Barack Obama para levantar unilateral e incondicionalmente o bloqueio a Cuba. Lula estaria ainda mais coberto de razão se completasse o raciocínio. Pois tal coragem é a mesma que inexiste nos irmãos Raúl e Fidel Castro para convocar eleições livres e multipartidárias na brava ilha caribenha.

Mesmo em escalas muito diferentes, a modalidade de valentia que nosso presidente propõe ao colega americano é do tipo que ele, Lula, precisaria juntar para atualizar os índices de produtividade no campo, para impedir que os bancos cobrem 10% ao mês no cheque especial -quando remuneram o poupador a uma taxa dez vezes menor e quando a inflação está em 4% ao ano- e para dar um jeito no absurdo que pagamos ao falar no celular, recorde mundial.

Vejam que escrevi “do tipo”. As coisas para as quais, numa analogia, parece faltar coragem a Lula são menos complexas e difíceis do que o imbroglio entre Cuba e os Estados Unidos, e mesmo assim a administração do PT, rumo a oito anos na cadeira, não encontrou ainda força suficiente para completar a missão. É dura a vida de quem governa. Ninguém faz só, e sempre, o que quer.

As decisões governamentais são resultado da soma de vetores. O líder é expressão dessa resultante vetorial. É ele e suas circunstâncias. Quando sai da linha e ultrapassa as fronteiras do equilíbrio político, corre o risco de ser politicamente degolado. Governantes não devem ser necessariamente corajosos. Melhor serem sábios, e excesso de coragem nunca foi sinônimo de sabedoria.

Sobre isso, o congresso recente do PT e as entrevistas nos últimos dias de líderes do partido, do presidente da República e da candidata ao Planalto são arquetípicos. É um festival de panos quentes. Um poço de bom senso. Falta coragem para enfrentar o "mercado"? Talvez sobre inteligência.

A lamentar, apenas que Lula, o PT e o governo brasileiro contribuam pouco para o fim do impasse entre Havana e Washington. Cuba quer ser tratada como país normal. E os Estados Unidos pedem que Cuba se reorganize politicamente, para permitir a transição rumo a um estado de direito democrático.

A linha brasileira tradicional na abordagem do assunto era conhecida, desde pelo menos um quarto de século. A política interna de Cuba é tema dos cubanos, e não é razoável que os Estados Unidos se metam na vida dos ilhéus. Acontece que os americanos se comportam ali mais ou menos como nós e a Venezuela gostaríamos de agir em relação a Honduras. Com uma única diferença: eles têm força para ir além do discurso e praticar de fato a ingerência.

Já que nosso manual de não intervenção foi arquivado pelo Itamaraty na nova fase, talvez seja o caso de transformar também este limão numa limonada. É inexplicável que o Brasil se candidate a mediar um conflito no qual pouco ou nada pode influir, lá longe no Oriente Médio, e se omita na busca de uma solução negociada aqui perto, entre cubanos e americanos.

Até porque a saída possível, para atender a quem advoga mudanças estruturais em Cuba, é óbvia. Que tal um cronograma de transição? Poderia começar pelo fim do bloqueio e terminar em eleições livres, fiscalizadas pela ONU (quem sabe com tropas brasileiras, como no Haiti?), nas quais o Partido Comunista teria todas as condições de lutar nas urnas para continuar no poder.

O que poderia impedir o governo brasileiro e o PT de irem por aí? O medo de perder influência política e econômica junto aos atuais dirigentes cubanos? Não se faz omelete sem quebrar ovos. E se Cuba enveredar por um caminho de progresso e crescimento acelerados as oportunidades para o investimento brasileiro serão ainda maiores do que as já apetitosas de hoje. Desde que não repitamos o erro de Honduras, desde que apostemos no cavalo certo.

O PT tampouco enfrenta obstáculo ideológico intransponível para apoiar esse script. Em artigo que fizeram publicar na Folha de S.Paulo na passagem dos 30 anos da sigla, o novo presidente do PT e seu antecessor registraram o aniversário de “um partido democrático, popular e socialista que soube unir setores diferentes da esquerda democrática”.

Autodefinido como partido da “esquerda democrática”, conceito que na lógica e na política só existe em oposição a uma “esquerda não democrática” (ou o adjetivo seria redundante), o petismo certamente estará confortável no apoio à abertura política em Cuba.

Ou não?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (28) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Genericamente abstrato (26/02)

As circunstâncias podem empurrar o governante a não cumprir em detalhes o que prometeu. Ele às vezes é levado até a fazer o contrário do que dissera. Só não pode cometer a insanidade de transmitir ao eleitor que vai, sem um bom motivo, no caminho oposto ao combinado

É um hábito forçar políticos a assumir compromissos antes das eleições. Entre nós, o aspecto mais recente e bem particular é impor aos candidatos a apresentação de programas de governo razoavelmente detalhados. No extremo, para “registrar em cartório” as “propostas”.

Segundo os marqueteiros, o eleitor adora acreditar nelas e exige que o pleiteante se dê ao trabalho de elaborá-las. Daí que em algum momento apareçam nos blocos televisivos as indefectíveis letrinhas na tela dizendo o que sua excelência “vai fazer”, se eleito (ou eleita).

Há ainda a moda de distribuir calhamaços, estes demandados pelo jornalismo. O destino da papelada? O “caderno especial” e depois a gaveta. Até que lá na frente, num plantão modorrento ou num feriado desesperador, alguém pega o material e propõe ao editor a pauta originalíssima: “Vamos comparar o que o candidato prometeu com o que ele fez até agora?”.

A menos que sobrevenha um terremoto político para lá de haitiano daqui até dezembro, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva vai fechar os oito anos regulamentares como belo sucesso de público e crítica. E no entanto todas as principais “propostas” televisivas apresentadas pelo candidato Lula em 2002 deram com os burros n`água.

O Fome Zero, o dos comitês analisando notas fiscais apresentadas pelos beneficiários para comprovar que gastaram “direito” o dinheiro da ajuda, virou uma espécie de Eletronet dos programas sociais, sem a rede de fibra óptica. Está na memória como boa ideia (dar ao muito pobre dinheiro suficiente para as necessidades básicas, para não passar fome), mas conceitualmente foi aposentado. Hoje, o PT diz que em espírito ele sobrevive no Bolsa Família.

O Primeiro Emprego morreu de morte morrida, sem esse detalhe causar ao ministro do Trabalho responsável, Jaques Wagner, qualquer prejuízo político: elegeu-se até governador da Bahia. A maior utilidade do programa foi ter desaparecido, pois seu fracasso ajudou a engrossar a desconfiança na tese de que abolir direitos e conquistas trabalhistas levaria as empresas a contratar mais gente. Parecido com a história de que o fim da CPMF faria baixar o preço dos produtos. Lembram disso?

E o Farmácia Popular está aí por estar, talvez para certo dia alguém explicar por que o governo precisa ter um programa de remédio mais barato se o próprio governo tem a obrigação de dar o mesmo remédio de graça.

O Fome Zero, o Primeiro Emprego e o Farmácia Popular, na genial elaboração de Duda Mendonça, cumpriram a função em 2002: mostrar ao público que a marca de Lula seria a busca da justiça social. E Lula está bem, obrigado, porque na visão da maioria dos eleitores ele cumpriu esse contrato genérico e abstrato, foi fiel aos movimentos simbólicos que fez quase oito anos atrás para vencer aquela disputa.

O núcleo do segredo do sucesso no governo está aí: a lealdade à ideia geral e abstrata que levou o eleitor a apertar o botãozinho na urna eletrônica ou a depositar o voto convencional. As circunstâncias podem empurrar o governante a não cumprir em detalhes o que prometeu na campanha. Ele às vezes é levado até a fazer o contrário do que dissera. Receberá a pressão dos jornalistas se acontecer, mas isso não terá qualquer importância, desde que não cometa a insanidade de transmitir ao eleitor que vai, sem um bom motivo, no caminho oposto ao combinado.

Há aqui uma vantagem de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) sobre o provável candidato do PSDB, José Serra.

As duas têm a minuta já bem rascunhada. A ministra vai propor simplesmente a renovação do contrato de 2002, já prorrogado uma vez em 2006. Com novos detalhes? Claro, sempre é preciso pintar um quarto aqui, consertar uma persiana ali, acabar de vez a construção da piscina. Talvez até derrubar uma parede para ampliar a sala. A senadora também vai bem no quesito: dirá que hoje em dia lutar pela salvação do planeta é o único jeito de ser progressista e ficar a favor da justiça social.

Mas o discurso tucano ainda permanece em aberto, especialmente porque não tem sido arquitetado publicamente no pré-eleição, algo que pareceria essencial. No último fim de semana, Serra enveredou pelo campo propriamente político, com seu artigo sobre o quarto de século da Nova República.

O PSDB está atrasado? Sim e não. Comparado aos adversários, sim. Considerando que em 2002 o PT fez a Carta aos Brasileiros com a eleição já em curso, não. De todo jeito, há um efeito-expectativa: o PSDB está tão ensimesmado que quando apresentar seus trunfos para a guerra simbólica certamente atrairá atenção.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (26) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bomba de nêutrons (25/02)

O governador está preso, o vice renunciou, o noticiário vem impregnado da palavra “intervenção”. Diante do quadro, os outros políticos de Brasília dividem-se em duas categorias: os espectadores e os comentaristas

Um aspecto intrigante na atual crise do Distrito Federal é a parcimônia dos políticos ao ocupar o espaço aberto com o colapso das estruturas oficiais. Em situação normal, estariam todos a surfar na tragédia alheia — é da vocação. Disputariam a tapa o privilégio de serem vistos pelo eleitor do DF como a alternativa saneadora e salvadora. Entre cotoveladas e pontapés, lutariam bravamente pelo protagonismo diante das câmeras, pela pole position no grid eleitoral.

Mas não. A imagem espelhada da desgraça de uns não aparece como a ambição de outros, vem como prudência. Excessiva até. Ao menos para consumo externo. O governador está preso, o vice renunciou, o noticiário anda impregnado da palavra “intervenção”. Diante do quadro, os políticos restantes de Brasília dividem-se em duas categorias: os espectadores e os comentaristas. No frigir dos ovos, ninguém está dando a cara a tapa. Apertem os cintos, porque os candidatos a líder sumiram.

Além do caos produzido pelo situacionismo, esse é outro vetor que alimenta as especulações em torno da intervenção federal. A parte do sistema político brasiliense que ainda não necrosou está paralisada. Dá a impressão de temer algo. O que exatamente?

Desde o início da crise, ainda no ano passado, estava claro que as revelações tinham potencial para levar à morte boa parte do tecido político do “quadradinho”. Houve em seguida a época da calmaria, quando o jogo de perde-perde entre o Buriti e a Câmara Legislativa desenhava-se para ser um esperto ganha-ganha. Como estavam todos enrolados, todos sobreviveriam. Tratar-se-ia apenas de aproveitar as chicanas jurídicas para vencer a corrida contra o relógio neste último ano dos quatro regulamentares.

Era um equilíbrio em si instável, pois ninguém parecia ter boas ideias para atacar a questão-chave: a legitimidade. Nas sociedades democráticas, toda vez que se faz um cálculo político é preciso saber também o que pensa sua excelência, o eleitor. Até por haver entre nós mecanismos independentes de defesa da coletividade. Por exemplo, o Ministério Público.

As revelações mais recentes, que levaram à prisão do governador, vieram desequilibrar novamente o jogo, reabrindo as possibilidades políticas dos que ao longo dos anos costumavam perfilar-se como alternativa a tudo. Mas a montanha está a parir o rato. Parece que uma bomba de nêutrons, a que extermina os seres vivos e preserva os edifícios, estourou sobre a política da capital federal.

Esquerdos humanos

Quando governos se metem a patrocinadores de cruzadas morais, o risco de desmoralização é latente.

A administração Luiz Inácio Lula da Silva vem de criar um bafafá com o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), que pretende ditar regras sobre tudo e para todos, transformando os atuais ocupantes do Executivo em juízes da moralidade.

Mas Lula, sempre tão sortudo, desta vez deu azar.

Poucas semanas depois da polêmica aberta com o PNDH, eis que nosso presidente visita Cuba nos dias da morte, por greve de fome, de um assim chamado “preso de consciência” cubano. O termo designa o sujeito que está detido só pelo que pensa — e por tentar colocar em prática suas ideias sem recorrer à violência.

Claro que Lula não vai se meter nos negócios internos da ilha caribenha, afinal o Brasil respeita a soberania das demais nações e não tem a vocação de ditar regras.

A não ser quando interessa.

Como em Honduras, alvo de diretrizes imperiais emanadas do governo brasileiro sobre como, por que, em que ritmo e rumo a que objetivos os hondurenhos devem tocar seu processo político.

Talvez estejamos diante de uma releitura do célebre bordão malufista: direitos humanos sim, mas para os humanos direitos. No caso específico, para os humanos esquerdos. Categoria generosa que, em último caso, pode abrigar todos os amigos e companheiros de viagem.

Terá gás?

Era mesmo um exagero convocar Dilma Rousseff para falar do PNDH no Senado. Sobre o assunto e seus detalhes, qualquer jornalista pode fazer as perguntas necessárias, se julgar conveniente.

Mas é bom e democrático que o ministro da área explique a coisa toda na Câmara Alta. Resta saber se desta vez a oposição vai se preparar adequadamente para duelar no mérito. Um terreno em que ela costuma perder gás rapidinho.

Coluna (Nes entrelinhas) publicada nesta quinta (25) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Jogo do Poder com André Vargas (24/02)



O deputado federal André Vargas (PT-PR), novo secretário nacional de Comunicação do partido, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Daniel Pereira, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Um debate velho e inconcluso (24/02)

Para a esquerda brasileira, a democracia representativa, com liberdade partidária e alternância no poder, é uma premissa do progresso social? Ou é em última instância um obstáculo?

Num partido de esquerda, e que portanto adora discutir, chama atenção a dificuldade do PT quando vai debater certos temas. Um deles é a luta armada dos anos 60 no Brasil. Está evidente a esta altura que foi um grave erro político. Mas como restam laços, até afetivos e biográficos, e há também a justa obrigação de homenagear o heroísmo de muitos, ela é deslocada para o terreno da mitologia, onde a política tem dificuldade de trafegar.

Desse balanço inacabado decorre outro problema: o desconforto do PT ao abordar a essência do debate sobre a democracia. A questão esteve no centro das polêmicas que fizeram nascer as organizações guerrilheiras, movimentos derrotados no que se propunham: a conquista do poder por meio da revolução e a abolição do capitalismo.

Em consequência da derrota militar, ao longo dos anos 70 os remanescentes e sobreviventes da luta armada foram se incorporando à frente parlamentar-institucional. Até que a fundação do PT absorveu na “luta legal” os últimos céticos que resistiam ao “caminho burguês”.

A História é fascinante também por causa dos paradoxos. O PT é o herdeiro principal das vertentes políticas que aderiram ao projeto guerrilheiro (é furado chamar Dilma Rousseff de neopetista; ela já era petista muitos anos antes de o PT existir), mas acabou por comprovar que o melhor mesmo era se organizar para alcançar o governo por meio de eleições. Apoiado sim nos movimentos sociais, mas 100% voltado para a conquista progressiva de espaços de poder com a ajuda das urnas.

É impossível na prática, mas se alguém pudesse fazer hoje a contabilidade acumulada nestes 30 anos para medir quanto tempo o PT, em todos os níveis, gastou discutindo eleição ou outros assuntos a estatística seria autoexplicativa.

Só que a mudança na realidade material costuma vir antes da flexão nas ideias, gerando uma certa tensão, que se prolonga tanto mais no tempo quanto menos o sujeito histórico reflete sobre a própria experiência. Daí que o PT em seu congresso aprove plataformas para o partido, apenas para em seguida garantir que elas não serão aplicáveis no programa de governo. Em teoria, as justificativas são “táticas”, pela ausência de força própria e pela necessidade de alianças.

Mas esse “etapismo” também é bem descrito na literatura: as metas estratégicas ficam como objeto de culto e conforto espiritual, enquanto a tática ocupa todo o espaço reservado à política.

E, assim, no dia em que tiver força suficiente os objetivos partidários já terão mudado, pois ao transformar a realidade é inevitável que ela também opere uma metamorfose no agente da transformação. Desse jeito caminha a humanidade, inclusive na política.

O debate sobre o valor universal da democracia foi ensaiado no interior do Partido Comunista Brasileiro na passagem dos anos 70 para os 80, sob a dupla influência da história do próprio PCB e do assim chamado eurocomunismo, nascido remotamente das reflexões do PC italiano sobre o golpe contra Allende no Chile em 1973 e em seguida adotado pelos comunistas franceses e espanhóis.

A discussão acabou abortada quando o PCB conduziu a polêmica contra as posições de Luiz Carlos Prestes para a ruptura orgânica, à esquerda (contra o prestismo) e à direita (contra o eurocomunismo), e acabou inviabilizado como partido de massas. Deixando completamente aberta a estrada para a construção da hegemonia do PT, que veio a ocupar o vácuo com grande competência, conduzido por Lula.

Mas, como atual gerente do boteco socialista, agora é o PT quem se vê na contingência de lidar com assuntos inconclusos. A dúvida é essencialmente a mesma desde meio século atrás. Para a esquerda brasileira, a democracia representativa, com liberdade partidária e alternância no poder, é uma premissa do progresso social? Ou acaba sendo um obstáculo, dado que nela há sempre a possibilidade de o partido ser removido, pacificamente, do governo?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (24) No Correio Braziliense.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Limões, discursos e limonadas (23/02)

Qual foi mesmo a grande vitória — material, concreta — obtida pela diplomacia ou pelos canhões brasileiros neste período? Não valem os prêmios recebidos por Lula, nem as reportagens favoráveis, nem os salamaleques a ele dispensados

No âmbito da política exterior dos países, não é tão difícil distinguir os líderes empenhados realmente na construção de um projeto nacional daqueles preocupados apenas em açular o nacionalismo “de boca”, para nele cultivar musculatura política.

Na primeira categoria estão os governantes voltados para a conquista de vitórias nas relações com outros países e nos organismos internacionais. Na segunda, os obcecados pela soberania retórica.

Para que possam, então, classificar os opositores internos de “inimigos da pátria” e, a partir daí, convergir o destino soberano do país com a perpetuação do próprio poder.

Reparem que nações como China, Índia, Rússia e África do Sul têm políticas externas caracterizadas por contenção verbal e pela busca agressiva de vitórias, ou, pelo menos, de posições estratégicas favoráveis. Moscou, por exemplo, vem de conseguir recuos de Washington no projeto do escudo antimísseis na Europa do Leste. E os chineses apertaram tanto os americanos que estes se viram obrigados a fazer movimentos para equilibrar a balança, daí o encontro entre o Dalai Lama e Barack Obama.

Qual é o balanço da política externa brasileira nos anos recentes? É um bom debate. Na historiografia oficial, os últimos sete anos representaram a emergência de um Brasil altivo e internacionalmente forte, em suposto contraste com os séculos precedentes.

Mas qual foi mesmo a grande vitória — material, concreta — obtida pela diplomacia ou pelos canhões brasileiros nesse período? Alguém poderia informar? Não valem os prêmios recebidos por Lula, nem as reportagens favoráveis, nem os salamaleques a ele dispensados por interessados em bons negócios. Falo de coisas tangíveis.

O Brasil apostou todas as fichas na conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e perdeu. Quando eclodiu a crise mundial das finanças, em setembro de 2008, saiu a advertir contra a emergência do protecionismo e a defender o livre comércio. Deu em nada.

O Brasil apostou todas as fichas na emergência do G20 como organismo vocacionado para reformar o sistema financeiro internacional e perdeu. O G8 vai sendo substituído é pelo G2, com americanos e chineses de protagonistas.

O Brasil inicialmente apostou em liderar os emergentes contra metas de redução das emissões de carbono. Quando Estados Unidos e China mandaram avisar que Copenhague não iria chegar a nenhum acordo vinculante, nossa diplomacia viu uma janela de oportunidade para Lula fazer a flexão tática. Ele agora seria “o líder da luta contra o aquecimento global” (a custo zero, pois não ia mesmo acontecer nada na Dinamarca). Para no fim poder dizer que “a culpa não foi minha”.

Acabamos na mesa com Obama, para referendar a proposta americana. De saldo, só os aplausos que o presidente colheu por mais um bonito discurso.

Sem falar nas situações em que não restou nem o discurso, como Honduras. Das grandes iniciativas que ainda podem dar algum dividendo há o Irã, onde talvez o Brasil fature algo, no papel de mestre de cerimônias das manobras para disfarçar uma eventual rendição iraniana. Isso se Teerã render-se. Se não, nossa “vitória” dependerá da capacidade de os aiatolás imporem ao mundo um status de potência nuclear, no qual talvez peguemos carona.

Quem planejou isso merece uma medalha.

E assim por diante. Mas nada está perdido. Sempre poderemos recorrer à habilidade do presidente para transformar limões em limonadas e demonstrar por que, apesar de tudo, o saldo da nossa participação foi “muito positivo”.

Positivo para quem?

Herdeiros da derrota

A Argentina inquieta-se e protesta contra o fato de o Reino Unido prospectar petróleo nas Malvinas, que o colonizador chama de Falklands. A Argentina tem, em tese, razão. Mas o Reino Unido tem, na vida real, a força.

Um problema da esquerda argentina, hoje no poder, é ser herdeira política da derrota na guerra de 1982. Cristina Kirchner vai lutar agora contra o paralelismo que os adversários farão entre a fraqueza política dela e a fraqueza política dos ditadores que três décadas atrás tentaram retomar na marra o arquipélago, e fracassaram.

O derrotismo e o flerte com a subserviência colonial sempre cobram um preço. Pode demorar, mas a conta vem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (23) no Correio Braziliense

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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os fatos e as versões (21/02)

É obrigação do jornalismo divulgar as versões. Mas é também obrigatório cuidar dos fatos e tentar enxergar o encadeamento entre os movimentos da comunicação oficial —e confrontá-los com a realidade

Levou um tempinho na última quinta-feira para o Planalto e o Buriti convergirem numa única versão do que houve na conversa entre o presidente da República e o governador interino do Distrito Federal. Ao final, divulgou-se unanimemente que Luiz Inácio Lula da Silva não chegou a pedir ao interlocutor para permanecer no cargo e aguardar a decisão da Justiça.

É obrigação do jornalismo divulgar as versões. Mas é também obrigatório cuidar dos fatos e tentar enxergar o encadeamento entre os movimentos da comunicação oficial —e confrontá-los com a realidade. Para poder interpretá-los.

Do que Lula e o governador interino verdadeiramente conversaram no Centro Cultural Banco do Brasil, só eles e os outros presentes sabem. Eis um fato. Daí que só os envolvidos possam emitir versões oficiais sobre a conversa.

Outro fato é que depois do encontro, em meio ao estica-e-puxa de versões, contraversões, pressões e contrapressões, o governador sentiu-se suficientemente forte para, ao contrário do que lhe propunham muitos (e muito próximos), não renunciar.

Pano rápido e a cena volta para alguns meses atrás. O presidente do Senado é José Sarney (PMDB-AP), eleito com apoio do partido dele e do Democratas, derrotando Tião Viana (PT-AC), apoiado pelo PSDB. Fustigado por todo tipo de acusação e evidência, Sarney recebe uma estocada que parece fatal: o DEM sai do barco e junta-se a petistas e tucanos na oposição.

Quem salvou Sarney? Lula, que estendeu o escudo protetor e garantiu a permanência do veterano político no comando da Casa, mesmo ao custo de avalizar os desmandos senatoriais. Lula calculou e concluiu que a relação entre o preço e o benefício era boa, pois Sarney e o PMDB ficariam devedores e a maioria do governo no Senado se consolidaria. Foi o que aconteceu. Sendo que agora o presidente repassa a posição credora à candidata Dilma Rousseff, sem ônus.

O roteiro volta ao DF deste começo de 2010. O PT está diante da mais bela possibilidade de voltar ao comando do “quadradinho” desde que perdeu a eleição de 1998 com o então governador Cristovam Buarque, hoje senador pelo PDT. Qual é a principal ameaça ao projeto de poder local do PT? A possibilidade de a antiga base de Joaquim Roriz convergir em peso para uma possível candidatura do ex-governador, hoje no PSC.

A neutralização definitiva do polo político comandado pelos atuais governantes do DF aceleraria essa convergência, e portanto não interessa ao PT. Aliás, se a situação for bem administrada até outubro não é improvável que uma parte das forças tradicionalmente antipetistas e hoje mergulhadas na desgraça política aceitem trabalhar, ainda que subterraneamente, para ajudar a derrotar Roriz.

Com a vantagem de dividir o potencial “palanque” local do candidato do PSDB à Presidência. Tudo pelo projeto nacional.

O que não podia, desta vez, era Lula ficar misturado na confusão, pelo grau de letalidade política dos fatos. Sempre os fatos. Mas esse detalhe foi bem resolvido ao longo daquela conturbada quinta-feira.

Quem pode atrapalhar agora a dança? Só o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal. Ou o descontrole na Câmara Legislativa.

A família

O presidente da República e os líderes do petismo dizem que uma coisa é o programa do partido e outra é o programa de governo.

Traduzindo, o PT no governo gostaria de aplicar seu programa, mas não irá fazê-lo porque não tem força para tal. Mas como no poder o PT certamente trabalhará para ganhar força, é razoável concluir que se o PT ganhar a eleição estará historicamente mais próximo de conseguir executar o que realmente deseja.

O que quer o PT, além de continuar no poder? Isso também tem mudado de acordo com as circunstâncias. As ideias originais perdem força quanto mais a hegemonia se aproxima.

De todas as transformações programáticas e ideológicas vividas pelo partido ao longo destes 30 anos, faltam as duas mais dolorosas: o reconhecimento da superioridade da democracia representativa sobre as demais e a essencialidade do capital privado para a geração de progresso, bem-estar e liberdade.

Elas virão. Aos trancos e barrancos, com idas e vindas, é para aí que caminha o PT. Só não contaram ainda para a família. O que de vez em quando cria alguns problemas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo no Correio Braziliense

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